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Bem-Vinda, Democracia

Em tempos nos quais os ventos da democracia voltam a soprar forte sobre as terras tupiniquins (mesmo ainda com tantos insanos insistindo em lutar contra o vento), nada mais apropriado do que falarmos sobre a Copa São Paulo de Juniores, carinhosamente tratada por Copinha, o mais democrático de todos os campeonatos de futebol disputados no Brasil.

O torneio vem sendo realizado desde 1969 e chega, em 2023, à sua edição de número 53. Só não foi disputado em 1987, por conta da não liberação de verbas do então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, e em 2021, devido à pandemia da Covid. Este ano, 128 clubes participam da competição: representantes de 25 estados e do Distrito Federal. Infelizmente a equipe do Amapá, o Santana Esporte Clube, não conseguiu arrecadar dinheiro suficiente para enviar seus jogadores para a disputa e acabou sendo substituído por um time do interior do estado de São Paulo.

A competição já contou, em algumas de suas edições com clubes estrangeiros e não apenas “vizinhos” latino-americanos como Argentina, Uruguai, Paraguai, México ou Haiti. Teve gente que veio de bem mais longe, como clubes da Arábia Saudita, Alemanha, China e Japão (com quatro times diferentes).

Santo André (SP), campeão da Copinha de 2003.
Fonte: Blog do Bellotti – Esporte Clube Santo André

Tabelinha complicada

Democracia e futebol, em nosso país, nunca se deram muito bem em campo. Cartolas e jogadores na maioria das vezes se encontram em lados opostos, numa tacanha e tradicional relação entre patrões e empregados: uns mandam e outros obedecem, ou, pelo menos, fingem que obedecem. E quando acontece, esporadicamente algum tipo de “bola dividida”, geralmente os dirigentes levam a melhor.

No Brasil, as poucas manifestações conjuntas de jogadores só acontecem quando o “bolso pesa”, ou seja, em situações de não pagamento de salários ou direitos de imagem. Não há, em mais de um século do esporte no país, registros de qualquer manifestação coletiva relevante em defesa da classe profissional.

Uma pesquisa divulgada, em 2021, com dados da CBF, Statista e Ernst & Young mostrou que mais da metade dos jogadores profissionais (cerca de 55%) ganham apenas um salário mínimo por mês, mas isso não mobiliza atletas que poderiam usar sua visibilidade e sua voz para questionar tal discrepância.

No fim da carreira, quando atuava pelo Corinthians, o “fenômeno” Ronaldo Nazário chegou a dar algumas entrevistas reivindicando direitos trabalhistas e aposentadoria especial para jogadores de futebol. Não deu em nada, claro, mas fica a pergunta: hoje, como proprietário de clubes no Brasil e na Espanha, será que ele ainda pensa da mesma forma.

Se na questão trabalhista a união dos jogadores já é escassa, imagine quando o tema de possíveis mobilizações transcende as quatro linhas. O exemplo mais representativo do qual tenho notícias, até hoje, foi a chamada Democracia Corinthiana, movimento surgido no início dos anos 1980, nos estertores da Ditadura Militar.

 Tendo à frente jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, o elenco do alvinegro paulista não apenas reivindicava direitos para a classe, como se manifestava politicamente pela volta da democracia no país. Andorinhas que não conseguiram fazer verão.

A democracia em campo com os jogadores do Corinthians.
Fonte: Jornal de Uberaba.

Protestos contra o racismo, a homofobia e até mesmo contra a realização de partidas ainda durante um período mais crítico da Pandemia não devem ser vistos, no meu entender, como uma manifestação conjunta da classe, até porque, quase todos tiveram a anuência dos clubes. Eram demandas autorizadas pelos patrões.

Bola democrática

Mas coloquemos a bola no centro do gramado para analisarmos o poder democrático da Copinha. Mais de 3 mil atletas dos quatro cantos do país têm, durante a competição, a chance de realizar alguns de seus sonhos, dos mais modestos aos mais ambiciosos.

Para muitos desses meninos só a oportunidade de viajarem para outro estado já é uma grande realização, mas, é claro que a maioria tem aspirações maiores: serem vistos, terem seu talento reconhecido, chamarem a atenção de outros clubes ou, ao menos, de algum “olheiro”. Se a partida for contra um “time grande”, ainda melhor, porque a chance de ser transmitida para todo país deixa a “vitrine” bem mais ampla. Uma bela jogada ou, por desígnios do destino, um gol, podem ser a senha para alcançar (desculpem o termo “modinha”) um outro patamar.

Em um país com tanta desigualdade social como o nosso, jogar bola e bem, sempre é visto como possibilidade, ainda que remota, de ascensão social. Exemplos não faltam. Muitos dos multimilionários jogadores brasileiros espalhados pelas maiores ligas de todo o mundo têm histórias semelhantes à de Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid e da Seleção, que começou jogando em uma escolinha em São Gonçalo, município humilde do Grande Rio e que alcançou o estrelato, sendo, hoje o jogador brasileiro mais valorizado do planeta.

A ambição, justificada, dessas famílias impõe uma pressão danada sobre esses jovens. Chega a ser recorrente a resposta que quase todos meninos dão quando questionados sobre suas ambições profissionais. Invariavelmente a primeira resposta é comprar uma casa para a família ou proporcionar uma vida mais tranquila para os pais. Dependendo do contrato, essas preocupações chegam a ser tão singelas como a resposta daquele sujeito que, certa vez, em uma reportagem sobre um prêmio acumulado da Megasena, disse que consertaria a bicicleta caso acertasse as seis dezenas.

Imaginem, por exemplo, os valores (não divulgados) do acerto entre Palmeiras e Real Madrid pela venda do passe do menino Endrick, de apenas 16 anos. O garoto, que começou a jogar pelo alviverde aos 10 anos de idade, fez 165 gols em 169 jogos disputados pelas categorias de base. Na Copinha de 2022 foram 5 gols em cinco jogos; o mesmo aproveitamento de 100% se repetiu na Seleção sub-17. Resultado: com apenas 7 partidas disputadas pelo time principal, já está negociado, embora só vá para a Espanha em 2024, quando completar 18 anos.

Endrick o novo espelho de cada menino bom de bola. Fonte: Globo Esporte.

Nem todos serão Endricks. Melhor dizendo, nem todos conseguirão oportunidades e, muito provavelmente, daqui a alguns anos o mundo da bola será algum uma lembrança distante, presente apenas em fotografias. Aqueles que conseguirem seguir na profissão terão um longo caminho pela frente seja na terra natal, em outros estados ou até mesmo em país sobre o qual jamais ouviram falar, com uma língua estranha e muito longe da família.

Para esses jovens que entram em campo nos jogos da Copinha, o futuro é uma incógnita e todo o labirinto que existe entre eles e uma carreira nem passa pela cabeça de quem deixou de ser criança há pouco e vê, sobre seus ombros, o peso de ser a tábua de salvação para uma família inteira. O sonho pode ser Munique ou Manchester, a realidade, contudo, pode não passar de Arapiraca ou Marabá.

Que os tais ventos democráticos façam com que o país volte a um rumo onde a educação pública de qualidade seja uma realidade, ainda que a médio ou longo prazo. Só assim rapazes como esses que disputam a Copinha não tenham no futebol sua única possibilidade de vingar na vida de forma digna.

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