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E torcedor entende de futebol?

A pergunta provocativa surge a propósito do antagonismo, aparentemente cada vez mais crescente, entre as expectativas de torcedores dos mais variados times e os diagnósticos de treinadores e do jornalismo esportivo. Não é incomum que vaias ou críticas nos estádios e nas redes sociais sejam apontadas por jornalistas esportivos como fruto do “imediatismo do torcedor” e sejam seguidas de conclamações, como a de que é “preciso dar tempo para o treinador mostrar os frutos do seu trabalho”. 

Embora o resultado dessa tensão pareça soar um tanto esquizofrênico – se só um time pode ser campeão e, se para um time vencer, o outro tem de perder, a conta não tem como fechar – é possível, no entanto, admitir que determinadas reclamações dos torcedores são críveis e portadoras de alguma consistência. Apesar de, teoricamente, um trabalho de médio e longo prazo ter mais chances de mostrar resultados, essa não é uma tese que independa da qualidade do treinador contratado. 

Afinal, como ensina um antigo ditado do mercado publicitário a melhor forma de destruir um produto ruim é expô-lo ao máximo. Ou seja, o torcedor não precisa esperar ver o seu time sofrer por cinco rodadas para ter a convicção – com grande margem de acerto – de que um determinado técnico não tem condições de produzir resultados. Um exemplo emblemático foi a apresentação de Waldemar Oliveira como treinador do Flamengo, em outubro de 2003. 

Uma rápida busca no Google por “O novo técnico do Flamengo é o senhor Waldemar”, pronunciada pelo então diretor de Futebol do clube, Eduardo Moraes, confirma que a reação da torcida rubro-negra ao anúncio virou um dos memes mais longevos do futebol. No entanto, para além do folclore, o tempo confirmou que os torcedores tinham razão para recusarem a contratação. Waldemar foi demitido, em dezembro daquele mesmo ano, após dirigir o time por apenas 11 partidas. O breve desfecho mostrou que os torcedores não precisavam esperar dois meses para formar seu juízo sobre a inconveniência da contratação, contrariando os tradicionais pedidos do jornalismo esportivo por mais tempo para os treinadores desenvolverem seu trabalho.

Fonte: Lei em Campo.

O mesmo feeling torcedor vale para determinadas contratações apresentadas como reforços que “precisam de tempo para mostrarem seu futebol”. Com poucas exceções que servem para reforçar a regra, muitos desses “reforços” costumam ser recebidos com desconfiança que, não raro, se confirma. Obviamente, que todas as torcidas erram, e muito, como confirma a perseguição de torcedores do São Paulo ao então jovem Kaká, cujo desempenho oscilava enquanto maturava o desenvolvimento do talento que viria a exibir na Europa, onde recebeu o prêmio de melhor jogador da temporada, que o forte marketing europeu promoveu a “Melhor jogador do mundo”. 

No entanto, embora possa errar e, eventualmente, não entender de meandros da técnica, o torcedor tem uma espécie de sentimento de que as coisas não vão dar certo, seja numa partida ou numa competição. Tal sentimento parece vir da experiência empírica forjada no acompanhamento do mesmo clube temporada após temporada, jornada que, não rara, começa na infância e vai sendo maturada, mas não desidratada com o passar dos anos.

Além disso, ele tem vantagens comparativas simbólicas e concretas sobre o jornalismo esportivo e, eventualmente, até sobre o treinador do momento: conhece a história do clube e segue de perto seus jogadores. O técnico, embora por obrigação profissional deva estudar o maior número de times, seja por ser um adversário, seja por ser um potencial futuro empregador, nem sempre tem a mesma compreensão do ethos do clube, não raro, tão ou mais decisivo para o desenvolvimento do trabalho do que seus méritos táticos, como comprovam declarações vistas como depreciativas pelos torcedores, principalmente quando envolvem comparações com os rivais que estes julgam desfavoráveis. 

Já o jornalismo esportivo se limita a acompanhar um número reduzido de clubes, basicamente os três grandes da capital de São Paulo e o Flamengo, no Rio, com acréscimos residuais de intrusos que se apresentem numa fase excepcional, situação que não afeta o espaço destinado aos quatro eleitos. 

Tais escolhas podem ser conferidas, tanto nos espaços extremamente assimétricos destinados nas mesas redondas ao quarteto num Campeonato Brasileiro com 20 clubes, dos quais, ao menos 12 tradicionais nacionalmente, quanto em comentários aleatórios nas transmissões de partidas de times fora do quarteto. Assim, vemos comentaristas, como Roger Flores, pedindo, para surpresa e revolta dos alvinegros que, num jogo da segunda divisão do ano passado em que o Botafogo lutava, no fim de uma partida, para conter o ímpeto do adversário para manter o resultado positivo , a entrada do He Man, que, próximo da aposentadoria, trotava em campo.

As percepções, cada vez mais divorciadas, entre jornalismo esportivo e torcedores são alimentadas, ainda, pelo fato de as ponderações para que os segundos reduzam suas expectativas de curto prazo sofram modulações diferentes quando a mesma questão apresenta-se em relação a outros times, em geral superestimados, tanto por seus torcedores, quanto por jornalistas.

A interseção do clubismo entre pontas que, oficialmente, se apresentam de lugares de fala diferentes, porém, está cada vez mais exposta na era da polifonia palavrosa e prolixa das mídias digitais. E também ajuda a explicar, ao menos parcialmente, o processo de erosão da credibilidade do jornalismo esportivo, que, durante muito tempo, foi reconhecido como autoridade sênior na matéria. Embora, por tratar-se de universo catártico como o futebol, tal poder sempre tenha sido passível de questionamentos, parece indiscutível que gozava de reconhecimento bem superior ao do que, ainda, lhe resta na era das mídias sociais.

O crescimento dos questionamentos à isenção dos profissionais desse campo contribui para o aumento das fricções quando se trata de analisar a expectativa dos torcedores em relação à performance dos seus times. Tem-se o choque entre torcidas (quase) permanentemente insatisfeitas com suas equipes e os pedidos de “moderação” e “paciência” de jornalistas esportivos, que, no entanto, não estendem tais conclamações aos torcedores de determinados clubes, percebidos pelos demais como favorecidos pela cobertura da imprensa.

É preciso, ainda, reconhecer que, enquanto tenha aparecido aqui como sujeito único, o torcedor ou a torcida deve ser visto como ente plural que engloba uma polissemia de fatores constitutivos do futebol, como idiossincrasias em relação a determinados jogadores, análise do nível dos adversários, maior ou menor tolerância a críticas ao seu time. No entanto, mesmo com a ressalva de que não deve ser considerado um ser monolítico nem muito menos infalível, o torcedor também tem as suas razões e, por vezes, mostra um número de acertos nas suas críticas superior ao dos movimentos prospectivos do jornalismo esportivo, principalmente quando este acompanha aquele clube apenas de forma panorâmica e/ou bissexta.

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