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O 5G e a revolução das transmissões esportivas no Brasil #SQN

Reprodução: Internet

Não é de hoje, é claro. Os avanços tecnológicos em telecomunicações sempre demoraram a chegar em terras tupiniquins. A Era do Rádio, nos Estados Unidos, por exemplo, começou na década de 1920, enquanto que por aqui a consolidação do meio como comunicação de massa só se deu praticamente 15 anos depois. Em relação à TV, embora o Brasil tenha sido o primeiro país da América Latina a ter uma emissora regular, em 1950, isso se deu duas décadas depois dos Estados Unidos e 15 anos após alguns países europeus. Mas esse gap tecnológico aos poucos foi diminuindo drasticamente. O uso do vídeo-tape começou a ser usado pela CBS, emissora americana, em 1956 e no ano seguinte já e era de uso corrente na TV Rio. A transmissão em cores e a utilização de transmissões por satélite também não demoraram a chegar nessas bandas do lado debaixo do Equador.

Em tempos digitais, por conta de interesses comerciais de grandes conglomerados globais, entramos no mesmo compasso do resto do planeta, afinal os gadgets cada vez mais complexos e completos necessitavam uma estrutura comunicacional que satisfizesse os desejos consumistas de seus usuários e garantisse os lucros tanto de fabricantes desses aparelhos, como dos grupos empresariais de Comunicação. Um fetiche tecnológico tão grande que parelhos de TV capazes de reproduzir transmissões em qualidade de 8K são comprados, mesmo que qualquer emissora no país gere qualquer conteúdo, ao menos, em 4K. Quer dizer, tudo seguia no ritmo desejado pela Nova Ordem Mundial, mas aí veio a tecnologia 5G.

O imbróglio do 5G

O 5G nada mais é do que um passo adiante na tecnologia de banda larga sem fio. Uma evolução, diga-se de passagem, bastante relevante. Se uma rede 4G, entrega uma velocidade de conexão de cerca de 33 Mbps, o 5G multiplica isso por 20, superando 1 Gbps. E não é apenas uma questão de velocidade ou estabilidade de sinal, a nova tecnologia permite uma quantidade muito maior de conexões simultâneas, entre 50 a 100 aparelhos a mais do que o panorama atual. A velocidade para download e upload também é um diferencial importante, proporcionando a facilidade de baixar arquivos mais pesados, fundamental para o consumo de vídeos de alta definição ou o uso da Realidade Virtual.

O problema é que não só o Brasil, mas todos os países latino-americanos, tem muito pouco espaço no espectro de frequências próprias para esse tipo de serviço e mesmo que algumas telefônicas já propaguem a oferta dessa tecnologia, há no país, no máximo, algo que poderia ser chamado de um 4G plus. Não bastasse isso, existe toda uma guerra entre EUA e China que envolve questões estratégicas, políticas e econômicas e o Brasil, ao invés de estar em busca das melhores opções tecnológicas, opta por um posicionamento ideológico, ao ponto do próprio presidente, em mais uma de suas bravatas, já ter afirmado que a decisão final seria tomada por ele.

Enquanto dezenas de países em todo o mundo já desfrutam da tecnologia 5G, só agora a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) anunciou a lista das empresas que se habilitaram para implantação do serviço em território nacional. As vencedoras desse leilão ficarão responsáveis pela compra e instalação de equipamentos e torres de transmissão para o sinal do 5G, com o direito de exploração do serviço durante 20 anos. A promessa é de que os brasileiros passem a acesso ao 5G no ano que vem. 

O que estamos perdendo?

Depois dessa longa contextualização, vamos ao que viemos. Ou seja, falemos de esporte, afinal este blog se destina a isso.

Dentre todas as “maravilhas” prometidas pela tecnologia 5G, algumas já estão impactando de forma inegável a transmissão de eventos esportivos, proporcionado aos espectadores experiências que antes só pareciam possíveis nas ficções futuristas ou em nossos mais imaginativos desvarios.

A Fórmula 1 é um exemplo. A possibilidade do uso de centenas de câmeras em uma mesma transmissão é mais do que real. A transmissão com sinal confiável de microcâmeras instaladas em pontos antes impensáveis dos carros permite que o espetáculo para quem assiste seja ainda mais rico de detalhes. No vídeo do link abaixo é possível ver um exemplo com a Mercedes pilotada pelo heptacampeão mundial Lewis Hamilton. Uma câmera pouco acima de sua viseira, por exemplo, dá a uma visão praticamente igual à do piloto.

Em uma palestra sobre a relação da F1 com a nova tecnologia, Guru Gowrappan, CEO da Verizon Media (um dos gigantes mundiais das telecomunicações) afirmou que nos dias atuais, a experiência do torcedor e o desempenho do atleta estão interligados, inexistindo uma barreira que separa os fãs do campo, da quadra ou da pista de corrida, reforçando que “este não é apenas o futuro do esporte, mas o futuro do conteúdo, conexão e da transação”. Uma parceria da empresa com a equipe Alpine Racing leva experiências de realidade aumentada e realidade virtual a fãs de todo o mundo (ou pelo para aqueles onde o 5G está disponível), tanto nas transmissões vistas em casa quanto nos eventos ao vivo. “Quando a tecnologia é casada com criatividade em grande escala, o mundo começa a se abrir de novas maneiras. A tecnologia alimenta a criatividade nos esportes e, claro, na vida. E, por sua vez, isso impulsiona o crescimento dos negócios e transforma a experiência do torcedor e do atleta e abre o caminho para uma inovação maior”, concluiu Gowrappan.

No Superbowl de 2020, maior evento esportivo norte-americano, a mesma empresa montou uma arena do lado de fora do estádio, onde, através da tecnologia 5g, espectadores puderam desfrutar de todas as possibilidades de interação com o evento através de smartphones. Aliás, os recursos disponíveis para o espectador são impressionantes; escolher por qual câmera quer acompanhar um lance, rever jogadas por diversos ângulos, acompanhar estatísticas e dados vitais de qualquer jogador são apenas alguns deles. Como fica até difícil descrever a experiência com palavras, o vídeo no link abaixo ajuda na compreensão.

Às vezes a tecnologia pode ser usada para efeitos puramente alegóricos, como o de um dragão sobrevoar, ao vivo, um estádio de beisebol na Coreia do Sul. Espetáculo que pôde ser acompanhado por quem assistia à transmissão em casa ou no local.

O céu, portanto, é o limite e a criatividade é a mola para a utilização dessa super ferramenta imersiva, independente de qual modalidade esportiva estiver sendo disputada. E é claro que o bom e velho esporte bretão não podia ficar de fora disso. Na partida decisiva do campeonato português de 2020, ainda sem público, devido à pandemia da Covid-19, a empresa de tecnologia NOS montou um enorme esquema de transmissão explorando recursos do 5G para permitir que a torcida tivesse o máximo de imersão no vazio estádio José Alvalade, em Lisboa. Para se ter uma ideia, microcâmeras foram acopladas até na base da taça entregue aos jogadores campeões do Sporting.

No Brasil, uma das poucas iniciativas de utilização do 5G nos esportes, mesmo com as limitações tecnológicas já citadas é a transmissão de imagens aéreas de provas de Stock Car através de um drone. A parceria envolve a Band, detentora dos direitos de transmissão e a Claro, com o apoio das empresas Huawei, Qualcomm e Motorola.      

Participação ou alienação?

Uma cena muito comum, hoje em dia, nos estádios é a de pessoas interagindo com seus smartphones durante a disputa esportiva. Os celulares parecem adversários mais duros de derrotar do que o oponente em campo. Entre uma selfie e um zap, a atenção do público fica dividida entre o real e o virtual. O que me faz levantar uma questão para a qual, já aviso, não tenho a resposta: esses novos recursos interativos oferecidos pela conexão 5G não vão acabar potencializando essa situação?

É difícil, para mim, estar presente em um jogo de futebol, por exemplo, e não ter as atenções totalmente voltadas para o que acontece dentro das quatro linhas, mas o problema talvez seja apenas geracional, afinal sou um ser humano muito mais analógico do que digital. Pode ser que para as novas gerações que tiveram gadgets praticamente em seus berços a experiência multissensorial seja fundamental para que o esporte continue gerando interesse.

Seja como for, esse parece ser um caminho sem volta. As múltiplas telas já fazem parte de nossas vidas e se trata apenas de uma questão de maior ou menor interação de nossa parte.

Aqui no Brasil, pelo jeito ainda teremos que esperar um pouco para sentirmos na pele os efeitos dessa “revolução” e só então poderemos avaliar, até por nossas próprias experiências, o quanto eles nos impactarão. 

Não há dúvidas de que a nova tecnologia pode enriquecer as transmissões esportivas ou a experiência de quem participa presencialmente de um desses eventos, só espero que ela nunca seja capaz de se sobrepor à emoção de um grito de gol.

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