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Como é que faz pra sair da ilha? Hierarquias urbanas e disputa de classes no duelo catarinense Avaí x Figueirense

A ponte é muito, muito iluminada
O pôr-do-sol numa visão privilegiada
O povo quer passar, vê nela algo místico
A ponte virou ponto turístico.
Esse lugar é uma maravilha
No horizonte, no horizonte
Mas como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte.

Apesar de não fazerem referência à capital catarinense, os versos da música “A Ponte”1, composta por Lenine e Lula Queiroga e parafraseada em versão posterior pelo rapper GOG2 – desta vez fazendo alusão à superfaturada Ponte JK em Brasília – me remetem a um imaginário que persiste no cotidiano de Florianópolis desde 1926, quando foi inaugurado o cartão postal mais famoso da cidade: a Ponte Hercílio Luz, maior ponte pênsil do Brasil e primeira ligação terrestre entre a ilha de Santa Catarina e o continente. Com 821 metros de comprimento, duas torres que medem 75 metros a partir do nível do mar e estrutura de aço que pesa aproximadamente 5 mil toneladas, a Hercílio Luz foi projetada por engenheiros norte-americanos – e executada por mão de obra operária catarinense – durante o mandato do governador que lhe deu nome em homenagem póstuma. Fechada por motivo de segurança em 1982, a ponte foi reaberta somente em 2019, a princípio para pedestres e ciclistas.

Ponte Hercílio Luz na década de 1960. Foto: Reprodução/Portal Floripa
Centro

Nesse entremeio em que deixou de ser utilitária para se tornar o principal ponto turístico do estado, foram inauguradas as pontes Colombo Salles, em 1975, e Pedro Ivo Campos, em 1991, ambas interligando a ilha ao continente, como o fazem até hoje. Já a Hercílio Luz – que em 2021 voltou a ser liberada para o tráfego de veículos – foi oficialmente tombada como patrimônio histórico, artístico e arquitetônico de Florianópolis em 1997, coincidentemente o ano de lançamento da canção metafórica do recifense Lenine. Muito antes, em 1938, o violonista e compositor catarinense Luiz Henrique Rosa3 homenageara o patrimônio da capital na canção “Ponte Hercílio Luz”, posteriormente interpretada pelo sambista carioca Martinho da Vila. É também de autoria de Luiz Henrique (em parceria com Fernando Bastos) o hino do Avaí Futebol Clube, fundado na ilha em 1923, cerca de um ano depois de iniciadas as obras da ponte.

Naquela ocasião, o comerciante Amadeu Horn presenteara um grupo de jovens futebolistas da Pedra Grande (atual Bairro da Agronômica) com camisas listradas em azul e branco, dando origem ao então Avahy Football Club, em referência à batalha homônima de 1868 durante a Guerra do Paraguai. Dois anos antes da fundação do Avaí, surgia o Figueirense Futebol Clube. Embora tenha transferido sua sede para o lado de lá da ponte em 1945, o Figueirense também se originou na porção insular de Florianópolis, no popular bairro da Figueira, localizado à beira-mar, na porção oeste da ilha. Era ali que se estabelecia a população carente da cidade, grupos de pequenos comerciantes locais, marinheiros, estivadores e outros trabalhadores do mar, conforme narrado pelos pesquisadores Paulino de Jesus Cardoso e Karla Leandro Rascke (2014) em obra sobre as origens dos clubes catarinenses.

Assim como a maioria das agremiações futebolísticas no Brasil, Avaí e Figueirense também rivalizam para além dos limites do gramado. Esse embate geográfico entre o time da ilha e o time do continente alimenta o imaginário do torcedor catarinense desde que o clube do bairro da Figueira transferiu sua sede para o Estreito – bairro da porção continental da cidade – na década de 1940. Esse imaginário carrega ainda uma disputa social bem demarcada, na qual o Avaí é comumente associado ao estereótipo de time de elite e o Figueirense ao estereótipo de clube do povo. A memória histórica e geográfica de Florianópolis eleva o embate clubístico entre os dois principais clubes de futebol da cidade a esse patamar de disputa de classes – o que, não raro, é fomentado pelos torcedores e pela própria mídia esportiva.

No entanto, tais construções muitas vezes permeiam a ótica das tradições inventadas (HOBSBAWN; RANGER, 2008), ou seja, que se perpetuam desde a fundação dos clubes, mas que não necessariamente condizem com o contexto atual das agremiações. Em debate sobre a rivalidade entre os clubes catarinenses, veiculado em 2020 no Portal Ludopédio4, o historiador Felipe Matos (2020) pondera que a construção desses estereótipos – e sua propagação pelo jornalismo esportivo – é problemática porque deturpa a história dos clubes e perpetua trajetórias que não mais correspondem às agremiações.

Eu não tenho dúvidas de que a origem do Figueirense é muito mais popular do que a origem do Avaí. O Avaí surgiu em 1923 como um grupo de jovens filhos da classe média, estudantes do Colégio Catarinense, que é o colégio das elites da cidade. […] Mas a questão é: até quando o Figueirense foi popular? E por que o Avaí é considerado um time de elite mesmo quando o pessoal do Morro do Céu fazia história jogando pelo clube? […] Fala-se muito da oligarquia Ramos no Avaí, mas se o Avaí tinha os Ramos do PSD, o Figueirense tinha a UDN. Tinha Thomas Chaves de Cabral, tinha o Charles Edgard Moritz, tinha a família Ferrari, a família Galotti. São família populares? O Avaí tinha a família Amin, o Figueirense tinha a família Bornhausen. […] Até hoje, há muitas famílias tradicionais de Florianópolis que compram esse discurso estereotipado. Mas, ao longo de sua história, o Avaí não pode ser considerado um time de elite – pelo menos não o Avaí de muita gente da Costeira, do mangue, do Morro da Caixa, do Morro do Céu. (MATOS, 2020, s/p.).

Desde sua fundação em 1923, o Avaí contemplava em seus domínios essas oligarquias tradicionais de Florianópolis que ocupavam espaços de poder no clube, como as famílias Ramos e Amin. A memória do Figueirense, por sua vez, remete ao já extinto bairro da Figueira, situado nas proximidades do porto. Segundo Cardoso e Rascke (2016), esse pequeno território, considerado pelas elites locais como um antro de prostituição, reunia centenas de marinheiros, praças da Marinha de Guerra, estivadores e tantos outros populares que representavam um cenário afrontoso às elites dirigentes da época. Vale lembrar ainda que, até sua modernização na década de 1940, o bairro da Figueira constituía um dos locais com a maior presença de pessoas de origem africana em Florianópolis. Foi também na década de 1940 que o Figueirense transferiu sua sede para o bairro do Estreito, onde em 1960 inaugurou o Estádio Orlando Scarpelli, passando a mandar seus jogos definitivamente na porção continental de Florianópolis, que agora representava a “casa” do clube.

O bairro da Figueira, local de marcante presença africana e de seus descendentes extinguiu-se como território negro nos anos de 1940, quando a cidade estava transformada, conformando uma capital que deveria seguir os rumos do progresso, segundo aspirações das elites políticas dirigentes. A região central passara a ser espaço da administração pública, dos comércios estabelecidos, da prestação de serviços (CARDOSO; RASCKE, 2014). As classes populares tiveram que construir suas vidas nas regiões periféricas da cidade, nos contornos dos morros ou em áreas mais afastadas do perímetro central e suas bordas. (CARDOSO & RASCKE, 2016, p. 103).

Essa transformação se deu no contexto em que as elites portuguesas – colonizadoras do território que hoje corresponde à capital catarinense – foram suplantadas por elites germânicas nas primeiras décadas do século XX, forjando um modelo de urbe que atendesse aos anseios da República. Como resultado desse modelo, os populares de origem africana, bem como os demais pobres e desvalidos, foram empurrados para os morros adjacentes ao centro urbano, em um processo que se intensificou ainda mais com a inauguração da Ponte Hercílio Luz em 1926. Nesse aspecto, a estrutura planejada para ligar a porção insular à porção continental de Florianópolis também delimitava a segregação espacial. Não à toa, com a transferência do Figueirense para o Estreito a trajetória do clube ganhou novos contornos de popularidade, agora por integrar a porção continental da cidade, não mais dividindo território com a elite beira-mar da ilha.

Estádio Orlando Scarpelli inaugurado em 1960 no bairro do Estreito, em
terreno cedido pelo empresário e esportista que lhe deu nome. Foto: Memorial
Figueirense Futebol Clube

É importante situar a inauguração dos estádios de Avaí e Figueirense nesse contexto de disputa de classes e de territórios justamente porque a configuração geográfica de Florianópolis contribui para evidenciar tais marcações sociais. A origem dos dois principais clubes de futebol do estado, suas relações com as hierarquias urbanas da capital e o pertencimento clubístico de Avaí e Figueirense materializado na construção de seus respectivos estádios – Ressacada e Orlando Scarpelli – ajudam a compreender a consolidação dos estereótipos de time do povo e time de elite que se perpetuam até os dias de hoje, seja pelas narrativas do jornalismo esportivo, seja pela cultura torcedora em si.

Na década de 1970, o Avaí toma posse do estádio Adolfo Konder, de estrutura bastante acanhada, porém situado numa área muito valorizada da cidade: a Avenida Beira-Mar Norte. Nessa mesma época, o clube fez uma permuta com a construtora que ergueria o Beiramar Shopping no local. O Avaí então entrega a área do Adolfo Konder à essa construtora e inicia as obras do Estádio da Ressacada na Aderbal Ramos da Silva, inaugurado em 1983 sobre uma área de mangue no bairro Carianos. No citado debate do Portal Ludopédio, os pesquisadores Alexandre Vaz, Danielle Torri e Felipe Matos contextualizam esse cenário, apontando para as contradições evidentes entre a inauguração da Ressacada e o distanciamento de um clube que dialoga pouco com a comunidade do entorno que hoje lhe serve de casa.

O estádio do Avaí sai de uma área absolutamente valorizada, que é o primeiro shopping da ilha, o Beiramar Shopping, e vai para a Ressacada, que era também uma área muito rural naquele momento, uma área de mangue, mas lá se torna um estádio de elite. Então existe uma contradição interessante aí: quando se situava em um bairro central, era um estádio que atendia o Morro da Caixa D’água, que recebia um público muito popular. Inclusive,
vários jogadores do Avaí saíram dali. Agora, o estádio vai para um bairro muito afastado e se transforma em um lugar de elite. É muito difícil, por exemplo, chegar na Ressacada de ônibus. Sair, então, nem pensar. (VAZ,
2020, s/p).

Outra contradição que se pode pensar a partir desse raciocínio da invenção de tradições e da construção de estereótipos se evidencia na maneira como os torcedores do Figueirense usualmente provocam o rival, referindo-se ao Avaí de forma pejorativa como o “time do mangue”. Ora, se os manguezais são tidos como territórios suburbanos, por que o Figueirense reivindicaria para si o título de “time do povo” enquanto seus torcedores fazem chacota do rival que ergueu seu estádio nesse território essencialmente popular entre os bairros Costeira e Carianos? “A Costeira é um bairro de passagem. Ninguém vai para a Costeira se não mora na Costeira. Tu passas pela Costeira para ir pro sul da ilha, para ir ao aeroporto. É um bairro popular, assim como Carianos”, reforça o historiador Felipe Matos (2020, s/p.).

Estádio Aderbal Ramos da Silva, erguido sob o mangue da Ressacada
e inaugurado em 1983. Foto: Reprodução/Mercado do Futebol

Nesse sentido, convém destacar ainda o que Matos (2020) pondera sobre a identidade do Avaí em relação ao manguezal, referindo-se ao fato de o clube não reforçar essa política identitária junto à comunidade que o recebeu de braços abertos na década de 1980: “Hoje na Costeira a maioria da população é avaiana, não sei se era antes dos anos 80, antes de o Avaí chegar. Essa comunidade abraçou o clube e dialoga-se muito pouco com ela.”. Segundo o pesquisador Alexandre Vaz (2020), o fato de o Avaí não aproveitar esse diálogo com a comunidade que dá sustentação urbana à Ressacada também é fruto do atual processo de elitização do futebol: “É como se o Avaí saltasse a Costeira, saltasse o Carianos e chegasse ao centro direto. Por isso, por não ter perfil de torcida, o clube vai tomando um perfil de camadas médias e vai se afastando do elemento popular.”.

Isso, de certa maneira, talvez o Figueirense preserve um pouco mais, afinal, o clube está mesmo encravado numa confluência de bairros, sobretudo a Vila São João e a Coloninha – que são bairros populares – e até pelas ligações do clube com a escola de samba também, a Unidos da Coloninha. Então o diálogo com o elemento popular é quase que obrigatório ali. Não há como o Figueirense saltar. (VAZ, 2020, s/p.).

Quanto à construção dos estereótipos de povo e elite em si, Vaz é categórico: “origem não é destino”. E complementa: “As duas grandes oligarquias catarinenses uma basicamente adotou um time e, a outra, adotou o outro.”. Esse imaginário que fica na cidade e que é fomentado pela configuração geográfica da capital nos mostra que entender Florianópolis passa por conhecer o Avaí e o Figueirense, como bem salientou a pesquisadora Danielle Torri também no referido debate do Portal Ludopédio. Retomando os trechos da canção que ilustra o início deste texto, podemos refletir sobre o refrão em que o compositor Lenine se pergunta “como é que faz pra sair da ilha”. Nessa metáfora, estar ilhado não significa estar do lado insular da ponte, mas sim alienar-se em determinada zona de conforto, ancorando-se a imaginários que muitas vezes não condizem com a realidade e que nos impedem de enxergar o que há do outro lado – coisa que nós jornalistas fazemos com certa frequência. Portanto, nunca é demais lembrar que para sair da ilha é preciso cruzar a ponte.

*Uma versão mais completa deste texto integrou o GT Historiografia da Mídia, pertencente ao 8º Encontro Regional Sul de História da Mídia, promovido remotamente pela Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (ALCAR) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em abril de 2021.


Referências bibliográficas

CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco; RASCKE, Karla Leandro. Figueirense: o bairro da Figueira e o nascimento de um clube. In: VAZ, Alexandre Fernandez; DALLABRIDA, Norberto (orgs). O futebol em Santa Catarina. Histórias dos clubes (1910-2014). Florianópolis: Insular, 2014. p. 17-45.

CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco; RASCKE, Karla Leandro. Cidadania e expectativas no bairro da Figueira: o surgimento do Figueirense Foot Ball Club (Florianópolis/SC, 1921- 1951). Vozes, Pretérito & Devir, v.5, n. 1, p. 77-98, 2016.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. 6. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.

MATOS, Felipe. Ludopédio em Casa #30: Rivalidades Catarinenses: Avaí x Figueirense. Portal Ludopédio.

VAZ, Alexandre. Ludopédio em Casa #30: Rivalidades Catarinenses: Avaí x Figueirense. Portal Ludopédio.


1 “A Ponte” integra o terceiro álbum de estúdio do cantor e compositor Lenine, “O Dia em que Faremos Contato”, lançado em 1997. Uma segunda versão da canção foi gravada com a orquestra holandesa Martin Fondse Orchestra, compondo o CD/DVD “The bridge: Lenine & Martin Fondse – live at Bimhuis”, lançado em outubro de 2016.

2 “Eu e Lenine (A Ponte)” foi composta pelo rapper brasiliense Genival Oliveira Gonçalves (GOG) e lançada em 2004 no álbum “Tarja Preta”. A letra é uma crítica à superfaturada Ponte Juscelino Kubitschek inaugurada em Brasília no ano de 2002, bem como à segregação espacial evidente na cidade e ao processo de gentrificação no curso da obra. Ao saber que sua canção foi parafraseada pelo rapper GOG, Lenine o convidou para cantá-la com ele em versão que integra seu segundo álbum ao vivo, o Acústico MTV, gravado no Auditório Ibirapuera em 2006. Esta história pode ser conferida em: https://youtu.be/p_SJ1Hlr738&t=1s.

3 Luiz Henrique Rosa foi um cantor, violonista e compositor brasileiro de bossa nova e MPB. Morreu aos 46 anos, em 1985, quando completaria 25 anos de carreira, vítima de um acidente automobilístico. Em 2003 foi organizado o CD “A Bossa Sempre Nova de Luiz Henrique”, no qual os músicos Martinho da Vila, Elza Soares, Ivan Lins, Luiz Melodia, Sandra de Sá, Biá Krieger e Toni Garrido interpretam as composições do homenageado, entre elas a citada canção “Ponte Hercílio Luz”.

4 O Ludopédio é a principal referência brasileira em divulgação científica sobre futebol da América Latina. Criado em 2010, trata-se de um portal independente composto por pesquisadores que visam propor uma ponte entre a produção acadêmica e a sociedade. Em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19 no Brasil, o Portal lançou o quadro semanal “Ludopédio em Casa”, compondo mesas virtuais com jornalistas, pesquisadores e especialistas da área para debater diversos temas que envolvem o futebol para além das quatro linhas, como racismo, homofobia, política e torcidas.

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