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O melhor dos piores? O futebol e a falta do espírito esportivo

Quem gosta de perder? Acredito que ninguém. Em competições que valem o título, então, é notório a disputa em campo por cada bola, em cada lance, como se fosse o último. Entretanto, no fim, só um pode sagrar-se campeão. E todos estão cientes disso, jogadores, técnicos, dirigentes, torcida. A taça só é levantada por um time, enquanto o outro fica com o segundo lugar.

Qual é o valor da medalha de prata, então? Seria ela o símbolo do “melhor dos piores”? Ou uma representação de estar no extrato dos melhores, guardando, inclusive, um lugar no pódio? No futebol, parece que ganha a primeira opção. É sintomático ver, em duas finais seguidas, a mesma imagem. Jogadores de Brasil e Inglaterra, logo após receberem as medalhas de prata, retiraram-nas do pescoço.

Neymar com a medalha de prata fora do pescoço. Fonte: O Globo

A dor, a frustração, a tristeza e a raiva, mesmo que presentes, não podem ser justificativas para tal ação. Não faz muito tempo, a imagem de Guardiola beijando a medalha de prata depois de perder a final da Liga dos Campeões para o Chelsea viralizou. Estaria ele menos triste que os demais? Ou Guardiola, com esse gesto, valorizava a campanha de seu time? Existe uma linha muito tênue entre a insatisfação pela derrota e o desprezo pela competição. Retirar a medalha de prata do peito é negar a própria trajetória de seu time, e, pior de tudo, não reconhecer a vitória do seu adversário. É a síntese da falta de espírito esportivo.

Guardiola beija medalha de prata depois de ficar com o vice na Liga dos Campeões. Fonte: ge.globo.com

Quais são os valores do esporte? Disciplina, trabalho em equipe e respeito, são conceitos que, frequentemente, estão presentes nas respostas dessa pergunta. É por isso que há beleza no esporte. Porque ele nos mobiliza ao mesmo tempo que nos ensina. Em muitos aspectos, o esporte é sim formador.

Quando se trata do esporte profissional, porém, entra em caráter o aspecto econômico, e a vitória possui, também, um valor monetário. Os valores do esporte, muitas vezes, ficam de lado, e fica o questionamento sobre o quanto essa profissionalização naturaliza condutas antiéticas, justificadas por “isso é futebol”. No imaginário popular, existe uma ideia de que ética e futebol não andam juntos. E que, portanto, qualquer coisa vale para se alcançar a vitória, que é a única régua para medir uma atuação.

É justamente aí que reside o perigo. Quando medimos qualquer coisa olhando apenas para um aspecto, perdemos uma gama de outras questões que moldam, no caso do futebol, um time, uma partida, uma final, uma medalha de ouro ou de prata. E, então, caímos em reducionismos simplistas: ouro é bom, prata é ruim. Repetidamente falamos que, “nem sempre ganha o melhor”. Então por que parece que sempre perde o pior? Que mensagem é passada para muitos jovens que, um dia, sonham em estar no lugar dos seus ídolos? Que só os que saem vitoriosos devem ser valorizados. E, assim, gira fortificada a roda do culto à vitória no futebol.

Harry Kane com a medalha de prata na mão, logo após recebê-la. Fonte: Congo News

Talvez nesse momento muitos torcedores estejam um pouco irritados, questionando se eu ficaria feliz com meu time ganhando uma medalha de prata. Antes de mais nada, vejam, não estou pedindo para ninguém sorrir e sair serelepe depois de perder um jogo. Até podiam, afinal, a conquista de um vice-campeonato não deixa de ser uma conquista. Mas o texto não é sobre isso. Não é sobre se alegrar com a derrota, mas em reconhecer a vitória do outro. É claro que, quando meu time está em uma final, o que eu mais quero é gritar “é campeão!”. E, portanto, é óbvio que eu vou ficar triste se ele perder. Mas eu ficaria muito mais triste vendo meu time tirando essa medalha do peito, desrespeitando o adversário, o campeonato, a torcida e a instituição.

Aceitar a derrota não é romantizá-la, não é sinônimo de conformismo e muito menos de passividade. Aceitar a derrota é o primeiro passo para vencer o próximo jogo. Caso contrário, corre-se o risco de se cometer os mesmos erros e ter os mesmos resultados. E esse filme já é conhecido por muitos…

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