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Criação de Liga independente de clubes terá como principal oponente estrutura política arcaica

Diante da fragilidade política vivida atualmente pela Confederação Brasileira de Futebol, os clubes da série A do campeonato brasileiro se articulam na tentativa de se desprender das amarras das entidades políticas do futebol e ter o controle sobre competições nacionais. O processo, no entanto, deve ser penoso. Rogério Caboclo, mandatário acusado de assédio moral e sexual por funcionária da CBF, está afastado do cargo por um mês e ocupando interinamente sua vaga está Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes. O descrédito da CBF junto à opinião pública cria um momento propício para os clubes se movimentarem nos bastidores em prol de mudanças.

Os clubes reivindicam o poder de criação e organização das competições nacionais que pode consertar uma falha que acomete os clubes há muitos anos: o prejuízo técnico que a ausência de paralisação dos campeonatos durante as datas FIFA traz às agremiações. Com a presença dos estaduais, as 38 rodadas do campeonato brasileiro ocorrem em um período enxuto que vai, geralmente, de maio a dezembro. A necessidade de encerrar o campeonato ao final do ano resulta na não paralisação dos jogos durante competições e jogos internacionais, resultando em prejuízo técnico e financeiro aos clubes que têm atletas convocados; o mais grave, muitas vezes pagando salários de 6 ou 7 dígitos para ver seus atletas atuarem em amistosos sem nenhuma relevância esportiva, a não ser para atender aos interesses dos patrocinadores envolvidos nas partidas. Para fins de comparação, na Europa e mesmo no Sul Global como nossos hermanos argentinos, as competições nacionais param durante as partidas de seleção. A ausência de campeonatos estaduais é um ponto nevrálgico que permite uma folga no calendário nesses países.

Em reportagem recente, Rodrigo Mattos, jornalista do UOL, mostrou que a CBF tem por obrigação prevista no artigo 41 da Lei Pelé custear o salário dos jogadores enquanto estiverem a serviço da seleção. A CBF, entretanto, como demonstrado pela reportagem, não cumpre o que está previsto em lei. O Flamengo, por exemplo, teve de ceder dois de seus principais e mais caros jogadores para atuarem na Copa América de 2021, Gabigol e Éverton Ribeiro. Dessa maneira, perderão seus atletas por aproximadamente 9 rodadas do campeonato brasileiro, pagando integralmente seus salários e sem nenhum tipo de contrapartida por parte da CBF.

A dificuldade que o movimento de mudança encontrará reside da existência das federações estaduais. Como jabuticabas, só existem no Brasil. Com mais força e peso que os clubes nas tomadas de decisão, as agremiações dependeriam da aprovação das federações para criação da Liga, isto porque há dois tipos distintos de Assembleia Geral previstas no estatuto da CBF e os clubes têm participação prevista apenas na Assembleia Geral Eleitoral, cuja função é definir o presidente e vice-presidentes da entidade; a Assembleia Geral Administrativa, por sua vez, aquela na qual são definidas questões mais profundas como mudanças no calendário, destituição de presidente e prestação de contas da Confederação, tem participação apenas das entidades estaduais. Ou seja, para a criação da Liga os clubes dependeriam também das federações estaduais, cujo interesse maior é manter os Campeonatos Estaduais que geram receitas e garantem suas existências. Mesmo na Assembleia Geral Eleitoral, os clubes possuem peso de voto menor que as federações. Ao passo que as federações possuem peso 3, totalizando 81 votos com suas 27 federações, os clubes da série A têm peso 2 e os da B, peso 1. Ou seja, os clubes, unidos, totalizam apenas 60 votos. A escolha de presidentes e vices está absolutamente vinculada às vontades das federações.

Assembleia Geral reuniu os 27 presidentes das federações estaduais para mudança de Estatuto, em 2015. Fonte: site da CBF.

O próprio desenho institucional da política do futebol nos faz prospectar o quão longe, de fato, uma mudança pode ser vislumbrada neste momento. Parece que a retirada dos longuíssimos campeonatos estaduais, com infindáveis jogos inúteis e mal jogados tecnicamente não é uma opção no calendário futebolístico brasileiro. Experiência recente como a criação da Primeira Liga evidenciam os percalços que poderão vir mais à frente. A Liga durou apenas o biênio 2016-2017, sendo desmanchada precocemente devido ao calendário apertado, uma vez que os campeonatos estaduais continuaram sendo disputados normalmente. O movimento atual, ao contrário do que ocorrera na Primeira Liga, conta com todos os clubes da primeira divisão nacional, mas a questão dos estaduais continua sendo o calcanhar de Aquiles para mudanças mais profundas de política e mentalidade do futebol brasileiro.

Para entender os desafios de movimentos como o recém inaugurado pelos clubes brasileiros, faz-se necessário compreender como se estruturam as instituições políticas e quais interesses estão por trás do desenho institucional do futebol no Brasil. Na tentativa de compreender sociologicamente a estrutura política do futebol brasileiro, podemos mobilizar um arcabouço teórico que descortine práticas e valores políticos como patrimonialismo e clientelismo por trás do modus operandi da cartolagem brasileira. Revisitar conceitos e recorrer a autores tão caros na tradição das ciências sociais no Brasil – como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Raymundo Faoro, etc. – nos dão a condição de visualizar o funcionamento das instituições políticas do futebol como parte integrante de processos sociais mais abrangentes e de longa duração da sociedade brasileira. Afinal, valores tão tenazes na sociabilidade brasileira oriundos das próprias bases sociais de nossa vida política de passado colonial, como a prevalência do interesse privado em detrimento a interesses mais gerais, se faz ainda presente na própria estruturação das instituições políticas. A estrutura política arcaica do futebol brasileiro pretende favorecer aos interesses da cartolagem da CBF, como percebemos no maior peso decisório dado às federações estaduais, cerceando ações independentes dos clubes. São as ações dotadas de valores dos atores sociais que criam e recriam as instituições na sociedade e o futebol não está infenso a este processo.

Devemos nos atentar, portanto, ao desenvolvimento dos próximos acontecimentos com um olhar especial ao papel desempenhado pelas federações estaduais como um ator político fulcral nesse movimento de mudanças capitaneado pelas agremiações da elite do futebol nacional. Uma mudança de fato significativa nos rumos tomados pelo futebol brasileiro e de sua modernização passam pela extinção dos campeonatos estaduais e da readequação de um calendário que favoreça aqueles que possuem o monopólio da paixão do torcedor: os clubes.

Referências bibliográficas

BOTELHO, André e SCHWARCZ, Lilia. Público e privado no pensamento social brasileiro. In: Agenda Brasileira – Temas de uma Sociedade em Mudança. São Paulo: Companhia das Letras; 1a edição, 2011.

DA SILVA, Breno Carlos.“FUTEBOL-BANDIDO”: Os cartolas da CBF e a corrupção no Brasil. In: Ciências Socias aplicadas: necessidades individuais & coletivas 2. Paraná: Editora Atena, 2020.

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