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Estaria Portugal recolonizando o Brasil?

Todo mundo já deve ter respondido a pergunta “quem descobriu o Brasil?” alguma vez na vida. A resposta certeira, “Pedro Álvares Cabral”, confirma o laço incontornável que une terras lusitanas e tupiniquins.

A história, em geral, é contada de forma romantizada colocando os colonizadores na posição de heróis, quando, na verdade, sabemos que não foi bem assim. O que se firmou em 1500 foi um vínculo entre colonizadores e colonizados que perdurou durante séculos anos a fio. Mesmo depois da Independência decretada por D. Pedro II, essa noção de atraso e subserviência continuou – e continua – marcante na atmosfera nacional. Não à toa uma das máximas de Nelson Rodrigues para justificar o comportamento brasileiro continua a fazer sentido até hoje. Sofríamos, segundo o escritor, de um “complexo de vira-latas”.

Se a relação entre Brasil e Portugal é marcada por certo ar de superioridade português, no futebol essa situação é diferente. Em vinte confrontos entre as duas seleções, são treze vitórias canarinhas e apenas quatro lusitanas. O Brasil, em número de grandes jogadores revelados e nível de dificuldade dos campeonatos nacionais é muito superior a Portugal. Entretanto, em 2019, “o jogo virou”. Devido ao meteórico e inquestionável sucesso do português Jorge Jesus a frente do Flamengo, os caminhos de Brasil e Portugal voltaram a se cruzar de forma mais intensa. Começou-se um questionamento imediato da qualidade dos técnicos brasileiros e uma corrida pela contratação de comandantes estrangeiros.

E foi exatamente mais um português que, no dia 30 de janeiro de 2021, sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América. Torneio cujo nome é uma homenagem à libertação das nações da América do Sul. Irônico, não? As duas últimas conquistas da Libertadores tiveram como protagonistas duas figuras portuguesas colocando suas mãos na taça. Mãos diferentes das que chegaram aqui séculos atrás para nos colonizar, mas com o mesmo objetivo: a conquista da América.

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A vitória agora não era a única coisa que importava. Entrou em jogo a nova palavra da moda – performance. Uma das novas palavras da moda entrou em jogo. Encantar, vibrar, marcar. Todos em busca do modelo que JJ implantou no Flamengo em poucos meses de trabalho. Com essa expectativa, o olhar do Brasil se voltou novamente para a Europa em busca de outro técnico que repetisse o sucesso de Jesus. Na temporada de 2020, a série A do Campeonato Brasileiro bateu o recorde de técnicos estrangeiros. Um quarto dos times foi comandado por profissionais de outra nacionalidade. Foram eles: Eduardo Coudet (Internacional); Jorge Sampaoli (Atlético-MG); Domenéc Torrent (Flamengo); Ricardo Sá Pinto (Vasco) e Abel Ferreira (Palmeiras). Todos, exceto Sá Pinto, têm (ou tiveram), em seus clubes um aproveitamento superior a 60%. E, destaca-se, dois desses cinco técnicos estrangeiros são portugueses.

A minha posição nesse texto não é, de forma alguma, criar uma espécie de “nós contra eles”. Eu acho, sinceramente, maravilhosa e necessária a abertura de olhar do mercado brasileiro para o estrangeiro. Entretanto é inevitável a pergunta: ficaremos olhando técnicos estrangeiros dominarem nosso futebol? Novamente, não proponho esse questionamento por ser contra nenhum técnico estrangeiro. A questão não é de onde vêm, mas sim o que fazem. Entristece-me perceber que, quando olhamos para os técnicos que temos, não consigamos listar mais do que cinco (se tanto) que sejam de alto nível. Tite? Diniz? Cuca? Renato? Ceni? Nenhum é consenso. Com todo respeito aos “professores” brasileiros que comandam seus times, está na hora de fazer uma autocrítica, de entender que o futebol requer trabalho, que o modelo “paizão” está ultrapassado, que variações táticas são necessárias, que respeitar as características de cada jogador é essencial, e, principalmente, que estudar é parte importantíssima do ofício. E não é apenas sobre estudar o time adversário. É estudar o futebol. E de forma contínua.

Os técnicos estrangeiros são uma realidade. Resta ver o que os técnicos brasileiros farão diante disso. Ficaremos sentados sobre o famoso complexo de vira-latas ou absorveremos novas fontes como potência e estudo para termos um mercado nacional de técnicos igualmente competitivo? Espero que o Campeonato Brasileiro continue a ser fonte de um intercâmbio de ideias, estilos e técnicos, mas que isso também venha a fortalecer o nosso mercado interno. Nem todos os técnicos de outros países terão sucesso. Nem todos os brasileiros deixarão de ser campeões. Teremos trabalhos bons e ruins para todos os lados, mas inevitavelmente de 2019 para cá o olhar para esse grupo mudou. Não é sobre a busca desesperada por um técnico de outro país. E nem sobre a necessidade de algum brasileiro ser melhor do que eles. É sobre refletir o que estamos fazendo por aqui. Na coletiva depois da conquista da Libertadores, Abel Ferreira disse: “não há bons treinadores sem bons jogadores”. É uma daquelas frases que entra para o clube do ovo e da galinha. Bons jogadores nós temos. E muitos. Talvez nos faltem os treinadores…

Se for para o bem do futebol e felicidade geral dos torcedores, que os portugueses (e técnicos de quaisquer nacionalidades) possam ficar por aqui. E que possamos estabelecer uma relação de troca e simetria em prol do espetáculo.

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