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Quem pedala somos nós

Não se tem o que discutir, e nem motivos para enrolação, a contratação de Robinho pelo Santos representa mais do que uma falta de bom senso de um clube que fez nos últimos anos muitas ações repudiando as violências contra as mulheres. A vinda do atacante para o clube paulista é um recado para a sociedade: as vidas femininas podem ser relativizadas. Na hora de fazer postagens nas redes sociais e campanhas extracampo, o discurso é bonito, potente e comovente. Quando, entretanto, são necessárias ações efetivas, o clube revela uma incoerência, entre o que diz e o que faz. É importante ressaltar que a chegada de Robinho não é ilegal (nos termos jurídicos), o que não é nada legal é a condução do Santos, que fez muito barulho com o retorno, mas se calou sobre as acusações que Robinho carrega.

 Não foram uma nem duas vezes em que o Santos se posicionou em campanhas de conscientização sobre a violência contra as mulheres. O clube, que sempre cumpriu uma agenda de ativismo social em diversas causas, era, até recentemente, elogiado por promover essas ações. No dia 24 de agosto deste ano, o clube fez uma parceria com a Associação Fala Mulher e a patrocinadora Sono Quality, aderindo a uma campanha de conscientização sobre a violência contra a mulher no Brasil. Há dois anos o time entrou em campo, em partida contra o São Bento pelo Campeonato Paulista, com uma faixa da campanha pelo movimento #ElesPorElas, que continha os seguintes dizeres: “Se a mulher disse NÃO, significa que ela disse não para você”. E agora, Santos FC, que o cara que desrespeitou o “não” está dentro de campo, vestindo o seu uniforme, carregando o seu escudo no peito? Contratar um agressor é agredir todas as mulheres. Temos aqui um clássico exemplo do “marketing social” sendo desconstruído pelas ações de uma empresa (no caso, o clube) na vida “real”.

Fonte: O Globo

Hoje, entretanto, nesse assunto, é risível a atitude do clube fora das quatro linha. A festa nas redes sociais com homenagem e status de ídolo escancaram a falta de respeito com as mulheres, com as torcedoras santistas e com a sociedade. Além disso, esse retorno demonstra a deficiência da comunidade do esporte em discussões que extrapolam os campos e as quadras. Em 2016 o quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, se ajoelhou em protesto contra o racismo nos Estados Unidos. Essa história já foi lembrada e relembrada, principalmente agora, que muitos atletas norte-americanos se tornaram grandes ativistas sociais. É sempre válido lembrar que Kaepernick, na época, foi boicotado pela NFL, teve o contrato rescindido e nunca mais atuou por time nenhum. Em contrapartida, Robinho, condenado em primeira instância na Itália por estupro, é celebrado em sua volta ao Santos, tanto pelo clube quanto por jogadores e torcedores. Vivemos em uma sociedade na qual um atleta que protesta a favor da vida é mais prejudicado do que aquele que comete um ato criminoso.

Em breve, as notícias serão sobre os gols do atacante. Sobre o desempenho em campo. As chances desperdiçadas, as assistências. Função tática, importância para o time. Acerto ou erro na contratação. A turma do “deixa disso”, do “mimimi”, a galera que vai achar esse texto muito chato, que acredita que o futebol era melhor antigamente, vão exaltar, lá na frente, a volta do jogador. Vão provar que estavam certos e que Robinho tinha que voltar para sua casa, o Santos. Vão rir dessas discussões que, imagina, não tem nada a ver! Esse pessoal vai mostrar que não entendeu nada do que estamos falando.

Fonte: deusmedibre.com.br

Quantas jogadas bonitas o Robinho vai fazer é o que menos importa. O que importa, o que realmente deveria ser levado em conta, é a mensagem que o clube está passando para a sociedade. São os jovens futuros jogadores que vão idolatrá-lo e essa condenação que vai cair no esquecimento. Assim como hoje, ninguém lembra que o goleiro Jean, hoje atleta do Atlético-GO agrediu a mulher e foi preso nos Estados Unidos, quando jogava pelo São Paulo. Ou como Dudu, que foi acusado de agredir a ex-mulher e admitiu que isso pesou para sua saída do Palmeiras.  E fica, é claro, sempre no papel das mulheres trazer esse assunto à tona.

No fim das contas, quem pedala somos nós, que temos que constantemente mostrar o nosso valor perante a sociedade. Quem pedala somos nós que precisamos nos justificar quando somos vítimas de qualquer tipo de violência. Quem pedala somos nós que precisamos ver um atleta condenado por estupro sendo tratado como ídolo. Quem pedala somos nós para lembrar que os crimes contra as mulheres só aumentam no Brasil. Quem pedala somos nós para ocupar espaços que disseram que nós não poderíamos ocupar. Quem pedala somos nós para falar que um jogador condenado por estupro não pode ser tratado com o status de ídolo. Quem pedala somos nós, metro por metro, em todos os lugares, levando a nossa voz. Jogadores como Robinho não se andam de bicicleta, não se esforçam para pedalar, pois são conduzidos por um staff que não permite a vulnerabilidade que existe ao se equilibrar em duas rodas. Em uma sociedade que normaliza a violência contra a mulher, quem pedala somos nós para mostrar que a vida das mulheres vale mais do que gols e dribles dentro de campo.

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