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Silêncio nos estádios e torcida fake

Sons gravados, figuras de papelão, totens, drive-in, com telões nos estacionamentos de estádios. O repertório de clubes e TVs para preencher o silêncio nos estádios enquanto as torcidas não retornam mobiliza recursos, tecnológicos ou não, dotados de alguma capacidade de produção de pertencimento. No entanto, nenhuma das estratégias mobilizadas até agora deu conta de compensar a ausência dos torcedores, imposta por uma pandemia, cujo número de mortos já supera o dobro da capacidade de público da maioria dos estádios brasileiros. A ineficácia da torcida fake ajuda, assim, a colocar em relevo a importância do protagonismo dos torcedores para que o futebol, mais do que um jogo, seja um espetáculo midiático.

Embora a lembrança de tal protagonismo possa soar tautológica, a crescente mercantilização do futebol fez com que, antes da pandemia, o torcedor fosse visto mais como consumidor do que como um integrante seminal do espetáculo. Tal concepção do futebol como negócio reflete-se na elitização dos estádios provocada pela inflação do preço dos ingressos e por normatizações voltadas para esse novo público. Esse movimento não se deu sem enfrentar reações dos excluídos, como mostra a mobilização do antagonismo “raízes” x “nutelas”. Com forte reverberação nas redes sociais, tal embate tem tímido acolhimento no jornalismo esportivo. Esse enfrentamento, porém, não foi, ainda, capaz de deter uma tendência que se insinua desde os anos 1990, ganhando potência crescente quando o dinheiro movimentado pelo futebol gira entre nove e dez dígitos.

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A nova trilha sonora dos estádios parece mirar dois alvos: os jogadores e os torcedores/telespectadores que acompanham o jogo pela TV. Para isso, o clube mandante tenta reproduzir comportamentos das torcidas, como sons de vaias, aplausos e outros sinais de frustração ou inconformismo. Numa tentativa de alcançar maior identificação com o público, a Sky chegou a incluir sons “pescados” de confrontos com os estádios ainda cheios.

Apesar de haver pouco material empírico sobre a reação dos atletas a esse novo ambiente, e o tema ser pouco abordado nas entrevistas com os jogadores à beira do campo, o efeito parece ser residual. É que não basta reproduzir o barulho das manifestações da torcida, se as arquibancadas permanecem vazias. Com isso, a pressão, real sobre quem está em campo, incluindo o árbitro e seus auxiliares, vem muito mais de treinadores e comissões técnicas: “Jogar sem torcida é uma merda. Para mim, os torcedores são os reis desse esporte”, assim, após a derrrota para o Bayern de Munique, na final da Chapions League, o meio-campista espanhol Ander Herrera, do PSG, definiu, seu sentimento em relação ao Estádio da Luz vazio.

Moacir Lima Júnior é quem cuida da “voz da torcida” nos jogos em público no Allianz Parque Foto: Werther Santana/Estadão. Fonte: esportes.estadao.com.br

Se os atletas parecem não reagir à torcida fake, o objetivo efetivo da sua existência pode ser o telespectador em casa. A sonorização busca quebrar ou, ao menos, minimizar a frieza da partida sem público. Parecendo não confiar muito nessa estratégia, os locutores enfatizam o repertório escutado pelo telespectador, no estilo “sobe o som”, para tentar emocionalizar uma trilha sonora executada pelos DJs dos estádios.

Uma pista sobre os efeitos dessa estratégia vem do fato de que a ação – e as operações – do VAR têm sido muito mais comentadas do que as trilhas sonoras. A pasteurização da torcida fake coloca em questão até uma das principais questões consideradas dadas no universo do futebol: a relevância do fator casa. De fato, sem torcedores no estádio, qual seria, então, a vantagem, no campo, para o time mandante? A pergunta abstrai a influência do deslocamento e do melhor conhecimento do gramado. O primeiro pode ser minorado com fretamento de aviões, enquanto, no caso do segundo, embora o treinamento no palco da partida seja, em geral, exclusividade do mandante, os estádios já são velhos conhecidos da maioria dos jogadores que se enfrentam, principalmente, num futebol marcado por tantos rodízios de elencos.

A ausência de vantagem dentro do campo para o mandante confirma, assim, que o grande fator de desequilíbrio vem das arquibancadas. Mais do que da presença, sua origem é o comportamento dos presentes ao estádio e/ou arena, sãos suas performances territoriais e ações de pertencimento, o que estabelece distinções funcionais entre plateia e torcida. A primeira comporta-se como agente passivo que, com exceções quase protocolares, como comemorar os gols das suas equipes, limita-se a assistir à partida, com escassa interferência no que se passa no gramado. Nesse sentido, é particularmente emblemática a imagem – capaz de causar estranhamento até entre os narradores das TVs que monopolizam os direitos de transmissão – de sujeitos que optam pelos selfies em vez de se concentrarem em lances decisivos da partidas, como a cobrança de um pênalti.

Já a torcida tem papel ativo, gritando, empurrando o time, tentando desestabilizar o adversário e, até em momentos de maior irritação, vaiando o próprio time, o que, também, é uma forma de influenciar a partida dentro de campo. Em vez de selfies na hora do pênalti, os torcedores abraçam uns aos outros, fazem correntes, recorrem a suspertições e sinais religiosos, vaiam, aplaudem, gritam o nome do goleiro da equipe, incentivam os batedores. Fazem, enfim, parte fundamental da coreografia do espetáculo.

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Dessa forma, tem-se uma contradição significativa: a ausência, compulsória, de torcida provocada pela pandemia, teve um mérito não imaginado quando a proibição foi adotada. Ao reafirmar que recursos tecnológicos, por mais criativos e/os elaborados que sejam, não dão conta de substituir torcedores de carne osso e sensações à flor da pele, o vazio das arquibancadas também serve de denúncia sobre as consequências da interdição – esta planejada – dos torcedores. Afastados dos estádios pelos preços inflacionados dos ingressos, eles foram substituídos por plateias sujeitas a normatizações do futebol hipermercalizado. No entanto, embora estas sejam o público visado pelos novos donos do futebol, estes não conseguiram lograr substituir a emoção produzida pelas torcidas.

Resulta dessas contradições que, assim como não existe futebol sem grandes jogadores, não existe futebol sem torcida. Pode parecer banal, mas não é pouca coisa que até aqueles que mais se empenharam pela elitização do futebol deem-se conta de que, se pretendem que o futebol não seja mero esporte, mas um espetáculo memorável, não há como que isso se concretize sem a presença do torcedor nos estádios.

Fora disso, teremos apenas uma partida de futebol, que poderá ser mal ou bem jogada, mas terá narrativas, apropriações e produções de sentidos bem distintas daquelas que se inscreveram nas memórias de dezenas de milhões de pessoas e tornaram o futebol o esporte que mais atrai fãs em todo o mundo. Quando a torcida for, enfim, autorizada a ocupar as arquibancadas, parcialmente ou sem restrições, se poderá ver se a temporada compulsória de estádios vazios foi capaz de provocar alguma inflexão, ou freio de arrumação, no processo acelerado de interditar o futebol aos torcedores não consumidores.

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