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Sobre o molho de couve-flor e o Campeonato carioca feminino

Nem mesmo se fosse o Vasco, o dono de tantos gols, eu me sentiria à vontade para comemorar um placar tão elástico como o aquele que pode ser visto no campeonato carioca feminino. Foi mais que goleada. Na verdade, não sei bem como denominar o resultado do jogo entre Flamengo (56) e Greminho (0). Porém, acredito tratar-se de um fenômeno capaz de nos dizer algo não somente sobre o campeonato em questão, mas sobre alguns aspectos do futebol das mulheres no Rio de Janeiro. 

Certamente que a questão precisa ser analisada em sua complexidade, considerando sobretudo o fato de estarmos em um momento muito importante para o futebol das mulheres. A exitosa Copa da França, com seus recordes de audiência mundial e a boa qualidade técnica apresentada, mostraram que o futebol das mulheres pode mobilizar multidões. E como qualquer outra modalidade esportiva faz-se necessário o comprometimento dos clubes na formação e contratação de atletas entre outros aspectos. 

No caso do Brasil, a Copa de 2019 fomentou os já costumeiros discursos a respeito da necessidade de se incentivar a modalidade de modo a alimentar uma nova geração para o futebol das mulheres. Essa necessidade ficou evidenciada na fala de Marta ao final do jogo contra a França quando ela afirmou “não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Formiga para sempre…”¹.

A contratação de Pia Sundhage para técnica da seleção parecia ser um forte indicativo de que, finalmente, a CBF estava disposta a fornecer condições para o desenvolvimento do futebol das mulheres no Brasil. Eu ainda acredito nessa hipótese. Ainda acredito que o futebol das mulheres passa por um momento ímpar em sua história, sobretudo considerando o cenário europeu. No Brasil, há de se comemorar a gradativa atenção dada pela mídia esportiva, o que se evidenciou na transmissão dos jogos da seleção feita pela principal emissora aberta do país.

Houve nessas transmissões muitos erros, gafes e uma evidente necessidade de minimizar alguns vícios de linguagem derivados, por vezes, de um machismo impregnado e por outras da falta do hábito de se lidar com o futebol das mulheres. Porém, também se evidenciou uma preocupação em tornar essas gafes menos frequentes a partir de um maior cuidado no tratamento dado às mulheres do futebol. 

No momento, tenho a tendência a não ser apocalítica. Essa tendência, entretanto, não me isenta da necessidade de estar alerta ao que ocorre no universo das mulheres no futebol brasileiro. E o jogo Flamengo 56 x Greminho 0 foi a gota d’água, porque esse resultado foi celebrado ora como um momento histórico ora visto como uma demonstração de superação das dificuldades encontradas para se participar do campeonato carioca.

Temi também que o episódio fosse retratado a partir de uma perspectiva do pitoresco, o que em narrativas midiáticas costuma ser uma forma de simplificar os fenômenos para provocar o riso de zombaria. Mas felizmente grande parte da mídia esportiva e dos torcedores e torcedoras chamou a atenção para o fato de que aquele jogo era reflexo de um campeonato mal organizado e da disparidade de estrutura entre as equipes participantes. 

São 30 equipes que compõem o Carioca de 2019, um número excessivo em se tratando de uma competição local e curta. Em nota a FERJ justifica essa quantidade do seguinte modo:

A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro teve como princípio, ao organizar o Campeonato Carioca Feminino de Futebol, incentivar a modalidade, abrir portas para a realização de sonhos e oportunidades para inúmeras atletas. A visibilidade está à frente como fonte de geração de talentos. O aspecto técnico vem em segundo estágio, no momento. (Disponível em: FERJ).

Jornal dos Sports, 28/03/1983. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Lendo, à primeira vista, passa-se a impressão de que se trata do primeiro campeonato carioca feminino. Não. Na verdade, essa é mais uma edição de um campeonato que tem papel fundamental na trajetória do futebol de mulheres no Brasil e que se realiza – com interrupções – desde 1983, ano em que esse futebol foi oficialmente reconhecido pela, então, CND (Confederação Nacional de Desportos).

Nessa época, a dificuldade de montagem dos times era grande, pois dependia, muitas vezes, de inciativas individuais de jogadoras ou mesmo dirigentes. É o que conta a matéria do Jornal dos Sports na qual se menciona as despesas geradas pelo campeonato e a pouca colaboração da FERJ: “Os próprios clubes são responsáveis pela confecção dos ingressos e as rendas ficarão no clube que tiver mando de campo em cada partida. A FERJ colabora dando os árbitros e as bolas(Grifos meus, 05/08/1983. p. 4). 

O campeonato de 1983 foi realizado com a participação de 12 equipes, sendo que dos quatro considerados “grandes” apenas o Botafogo montou um time. As outras onze foram São Cristóvão, Bonsucesso, Olaria, Radar, América, Bangu, Portuguesa, Mesquita, Canto do Rio (Niterói), América e Campo Grande.  

Fonte: Jornal dos Sports 05/08/2019. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

É notável a presença dos clubes do subúrbio, espaço que historicamente foi muito importante para o futebol das mulheres². O campeão foi o Radar que disputou a final contra o Bangu, com direito a uma invasão de campo protagonizada por Castor de Andrade, no primeiro jogo. 

O campeonato carioca continuou a ser realizado, porém de modo descontinuado chegando a ficar suspenso de 1989 a 1994. Em 1995, a disputa retornou tendo o Vasco da Gama como principal time. De 2002 a 2003 aconteceu mais uma interrupção. A descontinuidade, aliás, é marca da trajetória do futebol das mulheres no Brasil, atravessada por um longo período de proibição e por fôlegos passageiros provocados, sobretudo, pelos resultados da seleção em Jogos Olímpicos passados. 

O fato é que há tempos o campeonato carioca é organizado pela FERJ e, infelizmente, tantos anos depois vemos a insistência e, talvez, o agravamento de alguns problemas. Vemos que o futebol das mulheres, no Rio de Janeiro, ainda apresenta um caráter amador em seu pior sentido. Estamos longe do profissionalismo, o que inclui o fato de que os principais clubes cariocas ainda não dão o devido apoio ao futebol das mulheres. 

O Carioca de 2019 parecia anunciar mudanças movidas por tudo que esse ano representou, especialmente, em termos de visibilidade. Eu mesma acreditei nessa possibilidade. Porém, alguns acontecimentos têm provocado em mim uma sensação de déjà vu. Com auxílio de Talita Judice e Tiago Rodrigues que acompanham os jogos do Carioca e tocam o projeto Futebol é Coisa de Mulher³ compartilho alguns dados interessantes. 

O carioca de 2019 teve seu início adiado por duas vezes devido ao fato de alguns clubes não possuírem o número mínimo de jogadoras inscritas. Em relação aos locais onde as partidas são disputadas chama a atenção o caráter improvisado. O Fluminense, por exemplo, alternou entre Laranjeiras e seu CT de Xerém; Botafogo jogou quase sempre no Caio Martins; a Portuguesa, no Luso Brasileiro; e o Duque de Caxias, no CEPE (Clube de Empregados da Petrobrás). O Vasco mandou seus jogos, até agora, no Estádio do Artsul, na baixada fluminense e o Flamengo, o clube financeiramente mais exitoso do Rio, tem mandado seus jogos em um campo do CEFAN (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes), derivado de sua parceria com a Marinha. 

Muitos jogos, portanto, não ocorrem necessariamente em estádios. Ou seja, enquanto, no mundo do futebol dos homens a discussão é a transformação dos estádios em arenas, no caso das mulheres sequer estádio há. É o futebol raiz em sua mais triste perspectiva. 

Os resultados de algumas partidas, também, despertam atenção. A equipe do Rogi-Mirim na primeira rodada perdeu por W.O para o Piscinão de Ramos, pois não teve condições de arcar com os custos de transporte. 

A presença de ambulância não é obrigatória nos jogos, o que significa que se alguma jogadora – ou qualquer outra pessoa presente no jogo – passar mal é bem provável que tenha que contar com a sorte. Pelo regulamento, faz-se necessário somente a presença de um médico.: 

Disponível em: FERJ.

Algumas súmulas revelam que muitos times jogaram sem médicos em sua comissão técnica, o que é um agravante da situação. Ao contrário disso tudo, o Campeonato Carioca masculino da série A – das outras séries é diferente -, tem um plano de ação que exige a presença de ambulância em qualquer jogo.:

Fonte: FERJ.

Em termos de representatividade, apenas 8 das 30 equipes possuem uma mulher como técnica, entre os quais destaca-se o Fluminense comandado por Thaissan Passos. As jogadoras, por sua vez, podem ser inscritas no campeonato como amadoras, o que explica a farta presença de times. Os placares elásticos são comuns.:  Flamengo 56 x 0 Greminho, Fluminense 23 x 0 Rogi-Mirim, Vasco 19 x 0 Bela Vista, Botafogo 13 x 0 Accel, são alguns exemplos. 

Em nota já mencionada, a FERJ argumenta que seu objetivo foi criar um campeonato inclusivo:

Aos que criticam a quantidade de clubes, qual o critério para se limitar o número de competidores ou ser excludente na primeira edição cujo objetivo principal tem por foco gerar oportunidades, atrair interesses, materializar sonhos e colher subsídios para os devidos ajustes para delinear o futuro? Fica a reflexão lembrando que não se pode enxergar somente a couve num molho de couve-flor. Vale lembrar que a Copa do Brasil começa com mais de 80 clubes e com diferenças técnicas exuberantes. (Disponível em: FERJ).

Primeiramente como foi dito esta não é a primeira edição do Carioca. Quanto à alusão a Copa do Brasil, é válido frisar que, provavelmente, a FERJ esteja fazendo menção a essa competição em sua versão masculina porque a Copa do Brasil feminina foi extinta pela CBF entrando em seu lugar a série A2. Ou seja, a comparação é insustentável. Além disso, no caso dos homens, essa competição contou com 91 participantes este ano, porém não me lembro de ter visto estrondosas goleadas como as que ocorrem no campeonato carioca das mulheres. 

Além de tudo, fiquei intrigada com a frase “Não se pode enxergar somente a couve num molho de couve-flor”. Achei-a razoavelmente estranha e confesso que tentei, mas não consegui decifrá-la até o momento. O uso de uma expressão tão sem sentido em uma nota oficial é mais um exemplo do desinteresse da Federação. 

Finalmente, a FERJ ressalta o caráter inclusivo do Carioca. Confesso que a palavra “inclusão” me deixa aflita porque, muitas vezes, ela é usada, compreendida e aceita em sua face mais perversa. São várias as formas de se promover uma espécie de inclusão de fachada, aquela que provoca pouquíssimas – ou às vezes nenhuma – alteração nos processos de desigualdade que marcam nossa sociedade. 

Esse me parece ser o caso do Campeonato Carioca. Antes de abrir as portas para uma gigantesca quantidade de clubes é necessário contribuir para que esses clubes tenham condições de competir. E isso ocorre com maior investimento e cuidado na formação de base das atletas, em condições de jogo minimamente adequadas e na profissionalização do futebol das mulheres. Placares como 56 a 0 dão mostras do quão o campeonato é pouco competitivo e isso é um dos fatores que pode torná-lo menos atrativo ou até mesmo questionável quanto à necessidade de sua existência. 

Notas de fim

¹ Fonte: Uol

² Para se aprofundar no assunto ver: BONFIM, Aira. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). Dissertação de Mestrado. Fundação Getúlio Vargas, 2019.

³ Fonte: Futebol é Coisa de Mulher.

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