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22 mulheres em campo

22 mulheres em campo jogando bola em um estádio lotado que cantou a Marselhesa antes, durante a após a partida entre Brasil e França. Um belo cenário para as oitavas de final da Copa do mundo de 2019. Uma Copa que pode ser um divisor de águas para o futebol das mulheres, tamanho o bom nível técnico das seleções envolvidas, somado as polêmicas do Var, as viradas de placar e tantos outros ingredientes típicos do futebol.

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Fonte: Diário do Aço

Desta vez o futebol das mulheres pode contar com uma ampla atenção midiática que amplificou esses ingredientes dando-lhes tonalidades narrativas, por vezes, grandiloquentes.

No Brasil essa atenção se evidenciou na transmissão dos jogos da seleção que puderam ser assistidos na Rede Globo pela primeira vez na história. Em matéria de Clara Quintaneira aqui publicada, Aline Peregrino e ex-jogadora Emily Lima e a jornalista do SporTV Cintia Berlem sobre os motivos que poderiam ter levado à emissora – a mais popular do país – a dar visibilidade à Copa do Mundo de futebol das mulheres.

É válido agora fazer uma brevíssima e despretensiosa análise de como se deu essa cobertura. É certo que eu adoro escrever sobre futebol seja qual for, mas o das mulheres tem trazido a sensação de renovação para o futebol de seleções no Brasil.  

As narrativas da mídia esportiva são parte fundamental dessa renovação, o que pode representar certo desafio para os profissionais da área, para o público em geral e nós pesquisadores.  As mulheres da seleção brasileira de futebol tiveram uma visibilidade ímpar em sua história, o que certamente implicou tropeços, superficialidades, apelo ao melodrama e a discursos emotivos cheios de lugar comum ao longo das transmissões. 

Diversos vícios da mídia esportiva que já estamos acostumados, ganharam novo fôlego no futebol das mulheres. Mesmo assim, é com alegria que finalmente posso fazer um texto sobre as narrativas do jornalismo esportivo que sejam atuais e que não se refiram ao futebol praticado por homens. 

Brasil x Jamaica foi narrado por Galvão Bueno que cometeu algumas gafes como iniciar o jogo com seu clássico bordão “e apita o árbitro”, sendo que quem estava no campo era uma árbitra, a alemã Riem Hussein. Muitos protestos na internet iam surgindo enquanto o jogo continuava. Os internautas reclamavam de uma postura considerada excessivamente didática de Galvão, assim como de constantes menções aos jogos da Copa América. 

Mesmo com esses problemas, confesso que ouvir a voz de Galvão narrando um gol de Cristiane me deixou contente. Há tempos fugia das transmissões de partidas por ele narradas. Muitas são as restrições que tenho a esse narrador, mas reconheço seu papel no imaginário futebolístico nacional. Vários de seus bordões ecoam em nossa memória, por mais que muitos de nós reclamemos dele.

 Por isso, acho significativo tê-lo ouvido dizer “vai que é tua Bárbara”, quando a goleira da seleção fazia alguma defesa ou gritar “olha o gol, olha o gol…” para anunciar a exitosa cabeçada da atacante Cristiane. 

Esse é um dos ônus da visibilidade midiática. Outro diz respeito às fórmulas narrativas com alto teor de entretenimento e emoções. A chegada da seleção liderada por Marta tocando um cavaquinho e entoando a simpática música “Jogadeira”, construindo, assim, a típica narrativa da brasilidade movida à ginga e batuque de samba. Mas pelo menos tratava-se da composição de uma jogadora, o que em termos de representatividade é algo positivo a ser considerado. Além disso, aquela imagem, de algum modo, mostrava a possibilidade de a seleção das mulheres integrar o imaginário do estilo brasileiro de futebol, o que antes era restrito aos homens.

A construção da narrativa da trajetória da heroína Marta merece destaque. Seguindo padrões parecidos com a clássica análise de Joseph Campbell, a propaganda da cerveja que patrocina a seleção investiu na história da superação de um infância pobre na cidade de Dois Riachos, em Alagoas, das dificuldades enfrentadas pelo preconceito de jogar no meio de meninos até chegar na superação representada pela conquista dos seis títulos de melhor jogadora do mundo, feito inédito no futebol. 

Marta foi o principal nome da seleção. Tratada pelo epíteto de rainha e sempre lembrada como a maior artilheira da história das Copas, o que fez Luiz Roberto dizer que “Marta é o nome da emoção”, logo a pós narrar o gol da camisa 10 contra a seleção italiana, e dizer seu bordão “Sabe de quem?”.

A menção aos familiares de atletas é algo comum nas narrativas da mídia esportiva no Brasil, sobretudo, em eventos importantes. Essa fórmula pode ser vista na Copa do Mundo de 2019 quando houve tomadas ao vivo na casa das famílias das jogadoras da seleção. Cabe ressaltar o caso de Bárbara cuja namorada, Lidiane Santos, falou em rede nacional. 

Aliás a seleção de mulheres, ao contrário dos homens, expõe vidas afetivas que fogem ao padrão da heteronormatividade. É o caso de Cristiane, Bárbara e Debinha. Mais um motivo que alimenta a sensação de que as mulheres têm trazido novos ares para o futebol de seleções no Brasil.  

É verdade que durante as transmissões, a jogadora Thamires foi constantemente chamada de a “a única mamãe da seleção”, o que mostra certa insistência em anexar as mulheres ao papel da maternidade. Afinal, no caso da seleção dos homens a paternidade não parece ser parte relevante da construção da imagem dos jogadores.

Mesmo com seus erros, Domingo 16h na tela da Rede Globo pudemos pela primeira vez ver o futebol das mulheres ocupando um espaço que antes era quase exclusivo do futebol dos homens, salvo raras exceções como os Jogos Olímpicos.

Entendo todos os senões que muitos de nós guardamos em relação a mais popular emissora de TV do país. Não nos faltam motivos para isso. Porém, creio ter vivido um histórico momento para o futebol das mulheres cuja representatividade midiática atingiu um patamar que precisa ser aproveitado em termos estruturais da modalidade. 

E se chegamos a esse patamar tornar-se ainda mais intensa a necessidade de se investir na modalidade, o que significa campeonatos locais mais organizados e competitivos, investimento nas categorias de base e uma parceria com os tradicionais clubes que seja de fato e não de fantasia como ocorre ainda em grande parte do país.  

Luiz Roberto disse que a Copa da França era a “Copa transformadora”. Esses bordões irritam pela superficialidade, mas de fato, 2019, pode sim ser um ano significativo para o futebol das mulheres e, consequentemente, para esse esporte de um modo geral. 

E se o futebol das mulheres ocupou a programação televisiva de domingo que seja assim com mais frequência e não de modo sazonal. 

Se o futebol das mulheres chegou a TV de milhares de pessoas é de se ressaltar que devemos isso ao papel de muitas mulheres que no passado abriram caminhos que hoje em dia parecem menos dificultosos de se seguir. 

Cabe o regaste e a manutenção da memória dessas precursoras e o incentivo as mulheres de hoje que ainda precisam percorrer um longo trajeto em busca de mais visibilidade e reconhecimento.

Ficaremos à espera de uma conquista seja na Copa ou no Jogos Olímpicos porque como todo esporte, o futebol das mulheres precisa de narrativas sobre vitórias.

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