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“El Sevilla no se vende!”: uma mobilização torcedora no futebol-negócio espanhol

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Se por um bom tempo os sentimentos de pertencimento ao clube e afeto pelo estádio conseguiram resistir à intensificação da mercantilização do futebol em meados do século passado, muito se especulou sobre a mudança drástica que viria com a transformação dos clubes em empresas. O público passaria a adotar uma relação cada vez mais distante, consumista, menos afeita ao estabelecimento dos laços comunitários que o futebol proporcionou em tantos países ao redor do mundo. Na Espanha, vinte e cinco anos não foram suficientes para atestar a validade dessa hipótese.

No final de 2018 uma ampla mobilização de torcedores comuns chamou atenção em Sevilha, capital da Andaluzia, comunidade autônoma da parte meridional da Espanha. Em seu melhor momento financeiro e esportivo em décadas, os adeptos do Sevilla Fútbol Club escolheram o jogo da equipe contra o Krasnodar pela Liga Europa , no dia 13 de dezembro, para protestar.

Antes do início da partida, os torcedores lançaram cachecóis ao campo, enquanto entoavam cantos como “El Sevilla no se vende!”; “Fuera de Sevilla, ya no te quiero!” e “Sevilla Somos Nosotros”. Ações semelhantes voltaram a acontecer no jogo seguinte, novamente dentro de casa, em partida da 16ª rodada do Campeonato Espanhol contra o Girona. Dessa vez os torcedores cercaram o Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán, reforçando os protestos que contavam com amplo apoio dos “sevillistas”. E nem a vitória em ambas as partidas foi capaz de arrefecer os ataques à diretoria.

A pauta principal era o repúdio a uma situação obscura de entrada de um novo grupo de acionistas, cuja origem era omitida pelos diretores do clube. O chamado “Sevillistas Unidos 2020” adquiriu 5% das ações do clube, obtendo o direito de participação na Assembléia dos Accionistas, ainda que não se soubesse a quem, de fato, pertenciam os investimentos. O grupo está registrado no paraíso fiscal de Delaware (EUA), e aos poucos vem sendo revelado seu paradeiro graças a investigações protagonizadas pelos próprios torcedores sevillistas.

Formada em 1992, a “Sociedade Anónima Deportiva” (SAD) do Sevilla nunca havia sido alvo de um interesse tão avançado de investidores estrangeiros, algo que já ocorreu em larga escala no futebol espanhol – com muitos resultados desastrosos ou frustrantes. Esse atual movimento de compra e venda, para além da perda do comando do clube para investidores alheios à cidade e à história do clube, coloca em risco a própria existência do Estádio Ramán Sánchez-Pizjuán, localizado no valioso bairro do Nervión, e da Ciudad Deportiva “José Ramón Cisneros Palacios”.

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 Os Acionistas de Base

Na linha de frente dos protestos estavam duas organizações de características distintas, cujas diferenças ajudam a entender tanto a proporção dessa mobilização, quanto a curiosa configuração das relações clube-torcida existentes na Espanha hoje.

Uma delas é o “Biris Norte”, grupo de ultras (espécie de torcida organizada européia), cujo nome homenageia o ídolo negro Biri Biri, atacante gambiano que jogou no clube nos anos 1970. Posicionados no fundo do gol norte, o grupo é a parte mais pulsante do estádio, e se engajou na campanha “El Sevilla no se Vende” desde o começo. O poder de mobilização e agitação da “peña” tem sido crucial para dar destaque às demandas dos torcedores.

A outra é a organização “Accionistas Unidos SFC”, uma entidade que agrega o “Pequeños Accionistas” e a “Voz del Sevillismo”, dois diferentes grupos de acionistas minoritários no movimento que busca emplacar o “Pacto Por El Sevilla FC”. Esses menores acionistas, mais de 800 indivíduos, se identificam como “acionistas de base”, de modo a destacar sua distinção perante os grandes investidores, e com isso colocarem-se ao lado dos torcedores na defesa do “sevillismo”. Para entender melhor é preciso resgatar a própria lei das SAD espanhola.

Em outra oportunidade foi tratado o caso do português Clube de Futebol Os Belenenses, que está em pé de guerra com a empresa que adquiriu a SAD que hoje comanda o futebol profissional da instituição. Aqui está uma distinção importante: em Portugual os clubes puderam se manter como acionistas da SAD, coisa que a lei espanhola de propósito semelhante não autorizava.

Com sua aprovação em 1990, todos os clubes da Espanha que estivessem com algum tipo de dívida nos cinco anos anteriores seriam obrigados à conversão até o final da temporada de 1992. Apenas Barcelona, Real Madrid, Athletic Bilbao e Osasuna escaparam da “punição”, e por isso obtiveram o direito de se manter enquanto associação civil, cujas decisões passam pelos seus “socios”.

Quanto ao outros, restaria aos torcedores comuns com relações de associação escolher entre a compra de ações, tornando-se assim um “accionista” da nova sociedade anônima; ou resignar-se na posição de “abonado” (um torcedor que pagaria por uma espécie de plano de sócio-torcedor brasileiro). Em contrapartida, diante da controvérsia criada, a Ley de las SAD foi acompanhada de normas que garantiriam a posse dessas ações por antigos sócios, a partir da delimitação dos valores. Em tese, estariam sendo evitadas compras por grandes conglomerados financeiros sobre o interesse dos tradicionais membros.

No Sevilla esse processo aconteceu de forma igual, sendo ainda mais “democrático” pela situação negativa pela qual passava o clube, com absoluta maioria das ações adquirida por sevillistas. Com o passar dos anos, de modo natural, muitas dessas ações minoritárias “herdadas” pelos antigos membros/sócios foram vendidas, formando um quadro em que cinco grandes acionistas que possuem 70% das ações. As outras 30% das ações estão espalhadas pelos acionistas que possuem cotas menores.

Desse montante de pequenos acionistas, as organizações que fundaram a “Accionistas Unidos” (AUSFC) conseguiram se mobilizar em um processo de “sindicação de ações”, isto é, de acordo de representação. Com a bandeira da defesa do estádio contra os investidores estrangeiros, o movimento atingiu quase 6% das ações do clube, conquistarando o direito de participação na Assembléia de Acionistas.

A mobilização dos acionistas de base se intensificou quando da descoberta do avançado grau de negociação das ações desses grandes acionistas, que ainda são históricas famílias de “raízes sevillistas”. A origem deles, em que pesassem os conflitos recorrentes, garantia que esses acionistas majoritários ainda gozassem de certo prestígio no conjunto da torcida e dos pequenos acionistas. O que se desfez nesse processo conflituoso.

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Alejandro Cadenas, membro do Accionistas Unidos SFC, no protesto ao redor do estádio Ramón Sánchez-Pizjuán.

“Fuera de Sevilla, ya no te quiero”

Durante a campanha de convencimento pela sindicação, a Accionistas Unidos descobriu que diversos pequenos acionistas haviam recebido propostas sedutoras. Eduardo Arenas, presidente da AUSFC, explicou em uma entrevista essa “possível venda avançada dos acionistas majoritários”: “Não queremos que o clube caia na mão do capital estrangeiro, mas os maiores acionistas estão comprando ações a 1100 euros, e isso quer dizer que possuem ofertas muito maiores”.

“Os maiores acionistas” em questão são José Castro, atual presidente, Roberto Alés e Francisco Guijarro, que formam a “Sevillistas de Nervión” (17%); a família Del Nido (27%); e a família Carrión (17%). Acredita-se que todos eles cederam ações para a entrada da “Sevillistas Unidos 2020” na Assembléia, uma vez que esse grupo misterioso já possui 6% do total.

Caso o obscuro grupo – registrado em Madri, mas instalado em um paraíso fiscal norte-americano – consiga da noite para o dia adquirir 50,01% das ações, absolutamente todos os imóveis do clube ficam à sua disposição. Isso é dizer que o terreno onde se localiza o Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán estaria passivo de venda pelo novo grupo detentor do controle acionário.  Além dele, a Ciudad Deportiva “José Ramón Cisneros Palacios”, com uma área de 35 hectares.

Em entrevista para esse artigo, Francisco López, diretor de comunicação da AUSFC destacou: “Na Espanha a Lei não protege o patrimônio do clube nem os estádios. Um novo investidor com 51% seria dono do solo. São 128 anos de história, construídos por nossos pais e avôs”.

Vale traçar novo paralelo com a situação d’Os Belenenses de Portugal, uma vez que nem a contenda jurídica foi capaz de tirar do clube o controle do estádio do Restelo. A SAD foi constituída com regras claras quanto à sua propriedade. O investidor majoritário jamais teve qualquer poder sobre a praça desportiva, seu terreno ou sua gestão. No Sevilla não há opção aos torcedores e pequenos acionistas, senão garantir uma nova norma interna, via estatuto da S.A.

O que torna as coisas muito mais difíceis. López novamente explica: “tentamos na Assembléia de Sócios aprovar que fosse necessário 75% das ações para poder possuir o estádio e a cidade desportiva. Os grandes acionistas votaram todos contra a mudança”. A decisão dos grandes acionistas reverberou na torcida como um ato de “traição ao sevillismo”, o que gerou o que o colunista Aitor Torvisco classificou por “fratura social” e um “estado de revolta e desconfiança” irreconciliáveis.

Ainda que carente de elementos e provas mais densas, as desconfianças da Accionistas Unidos SFC são baseadas em situações concretas. Como aponta o relatório da Supporters Direct Europe, a Lei das SADs na Espanha abriu o clube para a especulação imobiliária: “o efeito real da transformação dos clubes em SADs foi que algumas pessoas endinheiradas puderam adquirir imóveis muito baratos nos centros das cidades. Alguns deles se apressaram para vender os terrenos após seu zoneamento como áreas de construção residencial ou empresarial pela respectiva prefeitura”.

O relatório em questão também destacou que esses terrenos não puderam ser usados como patrimônio para evitar que os clubes fizessem sua conversão compulsória em SADs, já que foram considerados apenas seus valores originais de aquisição, praticamente insignificantes. Hoje, no entanto, são extremamente significantes, ao ponto de uma gigante rede de lojas de departamento estar de olho, como a norte-americana Macy’s. É esse o grande investidor que, supõe-se, estaria por trás do “Sevillistas Unidos 2020”.

A luta dos torcedores do Sevilla hoje passa pelo processo de “blindagem” dos imóveis do clube por outras vias, visto que a Assembléia de Accionistas não foi o suficiente. Francisco López contou que a estratégia agora é apelar para as instituições públicas, buscando de algum modo inserir o estádio e o centro de treinamento em planos diretores urbanísticos, com outorga de um espécie de título de patrimônio histórico da cidade, como ocorre a tantos outros edifícios.

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Caso à parte ou caso à frente?

A experiência do Sevilla – e de muitos outros clubes espanhóis – é significativa para aqueles que acompanham mais de perto os conflitos relacionados a processos de mercantilização do futebol e as consequentes reações torcedoras. Mesmo possuindo o caráter de sociedade anônima há mais de 25 anos, o clube não foi “entregue” pelos torcedores, que hoje formam, direta ou indiretamente, um fronte de batalha pelos seus interesses.

Impedidos de serem reconhecidos como “associados” – algo ainda comum no Brasil e Argentina, em distintos graus, como foi tratado de forma comparativa no texto sobre a Lei das SAD argentina  – os torcedores sevillistas buscam manter a todo custo as suas participações acionárias, que se tornaram uma espécie de “herança familiar” do vínculo com a instituição.

Ainda que em uma chave mercantilizada, ser um “acionista de base” se formou enquanto uma espécie de reinvenção das formas de pertencimento clubístico, reverberando, inclusive, enquanto legítima representatividade para os torcedores que não dispõem desse artifício, ou que precisaram se desfazer dos mesmos. Como expresso em diversos documentos dessas organizações, e em uma publicação do grupo “Voz del Sevillismo”, eles são “acionistas sin interesses, sevillismo puro y duro”.

Em um momento de maior risco, foram os acionistas de base que se mobilizaram, dentro dos limites possíveis, para garantir que o seu histórico estádio “dos pais e dos avôs” não fosse perdido. Um caso à parte de luta torcedora, com características muito interessantes, que apontam, talvez, para os desafios que virão mesmo após a disseminação aparentemente implacável da empresarização dos clubes em todo o futebol.

Esses grupos possuem uma relação de diálogo com a Federación de Accionistas y Socios del Fútbol Español (FASFE), uma organização que busca levar os debates da Supporters Direct Europe para o futebol da Espanha. Assim como se vê em outros países, essas entidades buscam reestabelecer as relaçoes torcedores-clubes com base nas características locais, analisando o histórico de constituição das leis de empresarização dos clubes.

Para além da defesa dos “acionistas de base” como parte constituinte de um plano de boa governança no futebol, essas organizações buscam reverter a venda dos clubes para imensos grupos estrangeiros mobilizando a favor da “fan ownership” (controle dos torcedores). Um processo controverso, com um difícil debate que envolve o investimento de recursos familiares de torcedores comuns, com o reforço do pertencimento clubístico e do afeto pelo estádio.

Com um futebol cada vez mais custoso aos clubes, com pagamento de altíssimas remunerações aos atletas, e com uma inflação galopante – provocada por investidores estrangeiros sem perspectiva de lucros, que gastam muito mais do que arrecadam, mas com benefícios em termos de capital social – processos de resistência como o do Sevilla apresentam um limite em uma batalha desigual.

Por outro lado, também podem estar significando, na defesa dos clubes e dos estádios, um rico processo de construção de autênticos espaços coletivos e de solidariedade, em meio à voracidade do dinheiro e do imperdoável mundo dos negócios. O “sevillismo puro y duro” apresenta uma alternativa, uma reversão, uma nova abordagem dentro da máquina da indústria do futebol.

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