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O que fizeram com você, amarelinha?

Em diversos momentos da nossa história, a seleção brasileira foi alvo de setores conservadores da política. Após o tri campeonato mundial, em 1970, a seleção considerada para muitos “a melhor da história” foi usada como propaganda do governo militar na época. Com uso de jingles, como o conhecido “Pra Frente Brasil”, o governo militar se apropriava do bom desempenho da seleção para associá-la ao progresso do regime. Mesmo contando com muitos jogadores que não concordavam com o governo militar, os mesmos foram recebidos em um carro do Exército pelo então presidente gremista Médici. Desde a conquista do tricampeonato, quando perguntados sobre o por que de não se pronunciarem sobre a conjuntura política da época, a grande maioria dos jogadores campeões em 1970 preferiam não se pronunciar. Apenas pensavam em jogar bola. O técnico da seleção até as vésperas do mundial, João Saldanha, foi demitido por Médici, visto que era simpatizante da ideologia comunista, em um ato totalmente político, embora o silêncio dos jogadores persistisse. João sem-medo, como era conhecido, não aceitava as sugestões do presidente militar Médici, que constantemente tentava escalar os titulares da seleção. “Ele escala o ministério, eu convoco a seleção”, afirmou o técnico, quando indagado por um repórter sobre o pedido do General pela convocação do atacante Dadá Maravilha. O zagueiro titular da conquista do “tri” e ídolo do Cruzeiro, Wilson Piazza, comentou sobre a seleção e a conjuntura política daquela conquista: “Infelizmente, faltava consciência política à Seleção. Mas não passou pela nossa cabeça. Só queríamos jogar bola. Se era ditadura, democracia, pouco importava.”

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Fonte: O Tempo

Pelé, principal jogador daquela seleção, prefere o silêncio quando indagado sobre a importância da seleção para o contexto da época e os motivos que levaram os jogadores a se isentarem da luta pela democracia. Por compartilhar da forma como o governo militar caminhava, Pelé se tornou o garoto propaganda do regime, além de voltar ao México, “com imensa satisfação”, para representar o governo militar na inauguração da Plaza Brazil, em Gualadajara. Um dos principais jogadores da seleção de 70, embora tenha uma representatividade ímpar, visto que é , no Brasil, que ele é o maior jogador da história do futebol, procurou se omitir de causas sociais que o mesmo poderia representar uma identidade. Negro e de origens humildes em Bauru, demonstra ser uma pessoa pública apolítica, ao desperdiçar todo seu potencial de engajamento social através do futebol. O objeto em questão é “apenas” o melhor jogador da história do esporte mais popular do mundo.

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Pelé levantando a taça ao lado do presidente Médici, na recepção do time campeão do mundo em 1970. Fonte: Gazeta Esportiva

Coincidência ou não, o cenário atual da Confederação Brasileira de Futebol e da política brasileira não são muito diferentes e lembram bastante o vivido em 1970. A grande maioria dos jogadores de futebol no Brasil vieram de origens humildes e, através do esporte, conseguiram mudar sua posição social. Apesar disso, poucos reconhecem realmente sua classe, além de não terem a consciência necessária no âmbito sociopolítico. Juninho Pernambucano, ex-jogador do Vasco, Lyon e da seleção brasileira, disse em entrevista ao jornal El País sobre a falta de consciência de classe dos jogadores de futebol: “Me revolto quando vejo jogador e ex-jogador de direita. Nós viemos de baixo, fomos criados com a massa. Como vamos ficar do lado de lá? Vai apoiar Bolsonaro, meu irmão?”

Desde as primeiras manifestações em 2013, que culminaram no Impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff, a presença da camisa canarinho foi marcante nas ruas, ao representar o patriotismo político e o combate, se ela existe, à ameaça comunista. A apropriação da camisa da CBF por setores conservadores é reflexo da crise de identidade presente na confederação e da falta de empatia entre o povo brasileiro e a entidade. Os sucessivos casos de corrupção envolvendo os ex-presidentes, as derrotas em competições importantes, inclusive a maior delas no 7 a 1 na Copa de 2014, e o perfil despolitizado dos principais jogadores, refletem no que a camisa amarela e verde representa hoje. Recentemente, o campeão do mundo em 2002 Ronaldinho Gaúcho, declarou apoio ao candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. Entretanto, o Barcelona, que tem o craque como embaixador do clube, não gostou da atitude do craque brasileiro, ao emitir uma declaração institucional para demonstrar o repúdio da equipe catalã: “Nossos valores democráticos não coincidem com as palavras que escutamos desse candidato. De todas as formas, respeitamos a liberdade de expressão, inclusive as palavras de Ronaldinho.

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Ronaldinho foi mais um ex-jogador da seleção que declarou apoio ao candidato do PSL, Jair Bolsonaro. Fonte: Exame

Enquanto a CBF procura amistosos com pouco brilho técnico, contra seleções sem prestígio internacional — Estados Unidos e Arábia Saudita — a camisa cinco vezes campeã do mundo é usada como objeto político por setores reacionários. Além disso, a escolha pela Arábia Saudita não prezou pela , visto que o forte calor do médio oriente e a baixa posição do adversário no ranking da FIFA, não justificam sua escolha. Vale destacar também que os sauditas vivem em uma monarquia hereditária, que mostra ter pouco apreço pelos direitos humanos. Eric Cantona, ex-jogador do Manchester United e da seleção francesa, criticou a postura da CBF: “Quando vejo a Seleção Brasileira aceitar jogar um amistoso na Arábia Saudita — por muito dinheiro, tenho certeza — , consigo entender por que milhões de brasileiros estão dispostos a votar em Bolsonaro.”

Embora o discurso que predomina entre os eleitores de Jair Bolsonaro seja o combate à corrupção, os mesmos usam a camisa da CBF, uma das entidades mais corruptas do país, para representar sua causa. Ao andar nas ruas das cidades brasileiras e se deparar com alguém vestindo a tradicional amarelinha, surge a dúvida se é dia de jogo do Brasil ou dia de eleições.

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