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Sobre heróis, vilões e Neymar

Os vilões viraram personagens cada vez mais difíceis de se encontrar nas narrativas sobre as derrotas da seleção em Copas do Mundo.  Esse é um significativo sinal de mudanças que vêm ocorrendo tanto no campo futebolístico quanto no jornalismo esportivo, alterações cujas razões ainda precisam ser avaliadas futuramente e com maior embasamento. Por enquanto, vou me ater a uma curta análise de materiais referentes à eliminação da seleção brasileira de futebol masculino da Copa de 2018, coletados de dois jornais de grande circulação no Brasil, O Globo e Folha de São Paulo.

Confesso que há tempos não vejo tanta moderação nas considerações feitas em relação a uma decisiva derrota de uma Seleção que longe de despertar desconfiança, alimentou expectativa, sobretudo, por conta da quase unanimidade de tratamento dada a seu técnico. Tite, presença constante nas propagandas, contou com o apoio de grande parte da mídia esportiva que em raros momentos questionou seu trabalho. Um dos motivos para essa atitude foi o bom desempenho nas eliminatórias e em alguns amistosos internacionais.

Além disso, é de se levar em conta que a figura de Tite se agigantou por ter como contraponto seus antecessores Felipão que nos remetia ao 7 a 1 e Dunga cuja seleção teve mau desempenho na Copa América de 2016, isso sem mencionar seu longo histórico de perseguição – às vezes justificável – por parte da imprensa. Nesse contexto, Tite – dono de um histórico vencedor em clubes nacionais e de uma oratória sedutora – surgiu como uma espécie de profeta capaz de resgatar os rumos da vitória.

Mesmo assim, confesso que ainda me espanto com a tranquilidade com a qual o fim da possibilidade da conquista do hexa foi tratado. Afinal, derrotas sempre costumavam ser uma poderosa fonte de “discutibilidade”, especialmente quando se tratava de responder à insistente pergunta “Por que o Brasil perdeu?”. A buscas pelos culpados resultava em dias seguidos de análises, especulações e diversas outras estratégias de mostrar e despertar emoção. Como pesquisadora não me faltava assunto para tratar.

Já a recepção da derrota para Bélgica foi calcada em um discurso moderado, que em alguns momentos destacou as falhas e erros cometidos, mas que pouco insistiu nessa tônica.  A ênfase nas lágrimas ficou um tanto limitada às clássicas composições de imagens de jogadores em pose de desespero e torcedores aos prantos.

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Folha de São Paulo, 07/07/2018

 

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O Globo, 07/07/2018

Fernandinho foi o jogador que mais próximo chegou de ser culpabilizado pela derrota. Podemos considerá-lo como um rascunho de vilão, muito longe de vilões como Roberto Carlos, em 2006, ou Felipe Melo, em 2010, por exemplo. Esse rascunho foi bem delineado pelo jornal O Globo que enfatizou que Fernandinho havia sido: “Personagem do 7 a 1, daqueles que ficaram atônitos no meio campo enquanto o trator passava por cima da equipe, Fernandinho novamente foi abaixo da crítica quando mais a seleção precisou dele” (O Globo, 7/07/2018, p.4). Apesar da forte crítica, o jornal não insistiu e nas edições posteriores o nome de Fernandinho praticamente cai em esquecimento.

 

E o que falar de Tite? É válido lembrar que técnicos de futebol, são facilmente convertidos em vilões de derrotas. Desempenhando esse papel, tivemos nomes como Telê Santana, em 82 e 86, Parreira em 2006 e o antológico Dunga (nas Copas de 1990 e 2010). Em 2018, Tite, embora tenha sido alvo de questionamentos, nem chegou perto da vilania como fez seus colegas anteriores. Nesse caso é de se destacar a recepção da Folha de São Paulo cujos analistas, em sua maioria, ressaltaram o bom trabalho do treinador, apesar da derrota

São emblemáticas as palavras de Paulo Vinícius Coelho que disse: “Erro de Tite provoca eliminação, mas o trabalho deve seguir (…) também é evidente que o trabalho fez o futebol evoluir. Não é para parar. É para Tite continuar. O mínimo de bom senso que se pede para um país que levou 7 a 1 e achou que seu futebol havia morrido, há quatro anos e percebeu que o Brasil segue numa elite. Só que muito mais apertada” (Folha de São Paulo, 07/07/2018, p. 3).

Tenho a impressão de que PVC tocou num ponto chave: o 7 a 1. O que se fala – especialmente a mídia esportiva – sobre uma Copa precisa ser analisado em relação à Copa anterior. Em 2014, a seleção brasileira foi eliminada com uma incrível goleada de 7 a 1, talvez, por isso, perder de 2 a 1 para uma Bélgica cheia de jogadores internacionalmente reconhecidos pode ser considerado um resultado aceitável não somente para o jornalista em questão, mas para parte da mídia esportiva.

Para além do discurso dos jornais, a confiança no trabalho de Tite se fez notar na renovação do seu contrato até o final da Copa de 2022. Isso significa, também, que estamos diante de um fenômeno raro, afinal somente Coutinho, em 1978, permaneceu no cargo mesmo após uma eliminação de Copa.

Se não houve vilões, pudemos observar a queda de um aspirante a herói. Neymar representou as vitórias da seleção, a principal delas contra o México nas oitavas de final. Sua habilidade foi sempre ressaltada e tomada como símbolo do talento do futebol brasileiro.

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O Globo, 03/07/2018

Neymar também foi a cara da derrota. Não como vilão, mas como uma promessa à espera de realização: “O mundo não está errado sobre Neymar, Coutinho, Jesus, Willian, Douglas Costa, Thiago Silva (…) Fazer terra arrasada é tentador. Acalma um país que sempre quer cabeças, culpados. Mas há derrotas em que a maior prova de sabedoria é simplesmente prosseguir (O Globo, 7/07/2018).

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O Globo, 07/07/2018

Porém, após a derrota Neymar tornou-se em tema de incontáveis memes, desafios e games. Neymar virou motivo de riso e deboche. Se o jornalismo não o transformou em vilão – o que dificilmente ocorreria por ser considerado um craque da camisa 10 – as redes sociais, o converteram em alvo de chacota.

É válido mencionar o sucesso do Neyboy Challenge um jogo em que para vencer é necessário ajudar Neymar a não cair.

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Fonte: Revista Galileu

Difícil esquecermos do “Neymar Challenge” ou o “Desafio Neymar” que consiste em se jogar no chão simulando uma queda assim que o nome de Neymar fosse gritado por alguém. Essa brincadeira foi repetida por milhares de pessoas no mundo todo e os vídeos foram acessados por outros tantos milhões.

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Fonte: Esporte Fera

Susan Sontag disse certa vez que o mundo vai terminar em imagem e seria possível complementar dizendo que essa imagem, provavelmente, será um meme carregado de humor, pois o riso é outra tendência notável da cultura contemporânea.

Segundo George Minois o humor do século XX obedece aos imperativos da espetacularização, por isso quem for alvo de uma sátira deve responder com mais espetáculo. E ao que parece Neymar seguiu esse conselho e criou o “Desafio da falta” no qual obriga um grupo de crianças a fingir quedas, sendo que ele é o único que permanece de pé.

Em leilão beneficente do instituto Neymar, o jogador voltou a aparecer em público cercado de diversas celebridades. Dois dias depois, em Praia Grande, Neymar foi ao jogo final do torneio Neymar Jr’s Five levando consigo o filho e vivendo mais momentos de exposição.

Porém, apesar de muitos jogadores também serem celebridades é importante considerar que sua performance atlética é parte fundamental da composição de sua imagem pública e da possibilidade de tornar-se um ídolo ou até mesmo um herói. As piadas em torno de Neymar questionam seu desempenho em campo ao enfatizar suas quedas, tomando-as como derivadas de um artifício usado para ludibriar adversários e árbitros. Embora, muitas vezes, exageradas não podemos tomá-las como críticas infundadas.

Foi uma Copa sem heróis e sem vilões, o que aponta para certo amadurecimento das narrativas do jornalismo esportivo. Porém, a Copa terminou com o principal jogador da seleção fazendo a vez de uma espécie de bobo da corte, assim transfigurado por de milhões de internautas no mundo inteiro. Essas novas narrativas ainda estão à espera de maiores análises, pois dela estão surgindo outros personagens e representações em torno do futebol que certamente se fazem refletir nas narrativas da mídia esportiva brasileira.

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