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A Copa e o encontro de mundos que escancara a mediocridade do Jornalismo técnico

França campeã! Não foi o time que encheu os olhos, apesar de grandes jogadores. Jogou “pro gasto”, o que os tecnocratas costumam chamar de eficiência. Para Croácia e Bélgica sobrou bola e vontade, mas faltou, como o técnico brasileiro Tite justificou a eliminação brasileira, o aleatório. Este “tal” aleatório está sempre presente no jogo e nos convida a ressaltar: “E se o chute de Renato Augusto entra!” Na análise dos “ses” uma parcela do jornalismo esportivo nacional se empenha de tal forma na defesa de algumas narrativas que abandona o lado reflexivo, tão importante para essa profissão. Para alguns “colegas” que cobriram a seleção brasileira não existiu tal reflexão. Torcer, acima de tudo, “contra tudo e contra todos” foi seu ofício.

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Fonte: O Globo

É claro que a Copa do Mundo é um ritual, algo que as pessoas se envolvem intensamente, e para o jornalista, estar neste ambiente é compreendido como o “auge da carreira”. Ninguém avalia nada fora de contexto, ninguém consegue se deslocar do calor dos acontecimentos para “friamente” e “sem emoção” pensar: o que podemos melhorar? Então o que há de mal em torcer para a seleção? Nada, desde que essa emoção, totalmente válida e que a atmosfera da Copa do Mundo suscita, venha acompanhada de lucidez. É esta lucidez que separa o “tá tudo uma porcaria”, do “fizemos tudo certo”. A diferença entre o jornalismo técnico e o reflexivo pode ser medida por este “detalhe”. A tal lucidez nos dá o equilíbrio para realmente ponderar os fatores negativos e positivos. E, sinceramente, não é escrevendo carta ao “parça Neymar”, como o maior representante deste jornalismo técnico fez, que se auxilia na percepção de que ele é craque, mas precisa melhorar muitos aspectos se não quiser jogar fora todo esse talento e ser eternamente o “cai cai” dos memes mundiais.

A narrativa cria mundos, ela estabelece formas de se pensar, estipula o que será “correto” e o “errado”, ela constitui o que conhecemos como “realidade”. O jornalismo é atualmente um poderoso criador de narrativas e, consequentemente, de mundos possíveis. Nesta diferenciação entre o jornalismo técnico e o reflexivo, de saída já indico que enquanto um tem uma profundidade de análise, o outro é extremamente raso, mais interessado nos cliques e vibrar com a seleção do que indicar pontos importantes para reflexão. Seja por conta da seleção ser um produto de sua emissora, seja pela cegueira metaforizada no ilustre e folclórico torcedor criado pela publicidade nacional em 1982, o Pacheco, a emoção sem lucidez nos acompanha irremediavelmente a cada Copa do Mundo. O implacável 7 a 1 completou 4 anos na última semana, e já colecionávamos mais uma eliminação. O que aprendemos com o Mineiratzen?

O time claramente evoluiu. Achar que poderia ser pior do que aquilo é uma falta total de conexão com a realidade. O placar surreal, que jamais se repetirá, e que expôs inúmeros erros cometidos em 2014, logo foi fechado e tapado sem que fosse realmente curado. O abismo entre Dunga e Tite nos deu a sensação de que mais que uma mudança da água para o vinho, estávamos presenciando o pior time do mundo se tornar o melhor. Bastaria aguardar o dia 15 de julho para cicatrizar de vez nossa maior ferida esportiva. Porém, o 7 a 1 ainda nos persegue como aquele machucado mal curado que coça sem parar. Mais do que o 7 a 1 em campo, a derrota do jornalismo reflexivo para o técnico criou mundos para esta Copa que a realidade da competição nos indicou de maneira clara como sua elaboração se baseava em um messianismo tosco e em um craque que ainda não amadureceu. Seja pelo já citado Pachequismo ou interesses comerciais, faltou novamente reflexão a grande parte do nosso jornalismo esportivo.

Digo que faltou porque o mesmo time de Felipão, hoje massacrado pelos “colegas” da imprensa era destacado como “organizado”, “compacto”, “sabia jogar mata-mata”, “Bernard tem alegria nas pernas” e “mesmo sem Neymar somos favoritos”. Está aí para quem quiser ver e procurar. As reportagens no dia do 7 a 1 escancaram e berram no nosso ouvido: a maioria preferiu se agarrar no desejo e ambição de vencer, enfim, uma Copa do Mundo em casa, do que refletir os pontos evidentes que construiriam a nossa derrota. Na ânsia por apagar a “tragédia” de 1950, criamos a nossa maior tragédia. 7 a 1 foi muito? Pode ser, mas foi um choque para que acordássemos do mundo que estávamos criando sobre a nossa seleção: “sempre favorita”, “sempre maior do mundo”, “sempre com jogadores que vão decidir os jogos pelo seu talento”. A falta de lucidez na emoção que a Copa nos causa também foi um dos fatores do 7 a 1.

Contextualizar as informações, apurar e pesquisar são atributos essenciais a um bom jornalista. O jornalismo técnico descontextualiza informações, traz números e “curiosidades” sem sentido que auxiliam na narrativa e no mundo escolhido pelo repórter ou pela sua emissora. E ao mesmo tempo esconde fatos que seriam perturbadores para os habitantes do mundo encantado do “time perfeito”. Pesquisar adversários, apurar detalhes importantes de um jogo são excluídos para não desmoronar o mundo que citamos acima. E os integrantes da seleção acreditaram neste mundo. Tite principalmente. Mesmo sendo um bom técnico acreditou no mundo das propagandas do Itaú, onde só existiam “parças” e as dificuldades eram pedrinhas colocadas propositadamente para indicar uma superação e confiança de quem não fraqueja e “corre atrás do sucesso” no pior estilo autoajuda e motivacional possível. Quando “seu mundo” encontrou com o “mundo da Copa”, ele acordou…tarde demais, já estava 2 a 0 e não tinha nenhum recurso extra para “mudar o jogo”.

E o nosso jornalismo técnico olhou para tudo isso e afirmou: “Foi o aleatório”. Não houve contestação à convocação, não houve questionamentos frente às escalações e insistência com alguns atletas. Pelo contrário, qualquer desculpa e justificativa baseada no lado técnico, como por exemplo: “o camisa 9 tem que marcar”, era incorporado ao mundo encantado da seleção criado pela narrativa. O lado tecnocrata de ver somente as “planilhas” e “esquemas” era o nosso maior trunfo. O erro não existiu no mundo criado pelo jornalismo técnico, tudo era fruto do “acaso”. O jornalismo técnico toma partido, no pior sentido deste termo, e, de maneira cega, abraça o mundo e não aceita outro diferente, mesmo quando este é confrontado e derrotado, como foi contra a Bélgica. A falta de lucidez, agora sem o sonoro 7 a 1 vai continuar sem refletir e indicar correções na rota da seleção para 2022. É o jornalismo técnico que se envolve de tal maneira com a CBF que pouco a investiga afundo e não cria narrativas e questionamentos para mudar radicalmente a entidade. É o jornalismo técnico que se entrelaça ao entretenimento e escolhe os horários dos jogos, tabelas, regulamentos e boicota o movimento Bom Senso FC.

Foi o mesmo jornalismo técnico que mimou ao extremo nosso craque Neymar, que sempre contribuiu com a narrativa e o mundo criado pelo seu staff que o “mundo pertence a ele”. O mesmo jornalismo técnico que também é “parça”, que suga o sangue de forma parasitária do homem Neymar e não tem o menor interesse em mudar este “mundo” criado para o “menino Ney”. Até que, assim como na seleção, o “mundo para chamar de meu”, focada em sua bolha de amigos, estoura e se encontra com o mundo que não tá nem aí para o “menino Ney”. O mundo que quer é tirar sarro de suas acrobacias deitadas e o tornou muito menor do que ele chegou nesta Copa. Falar que Neymar é grande jogador ao defendê-lo é obvio. A questão é: o que este mundo criado para ele está fazendo com o seu talento? O quanto este mundo está impedindo para que ele seja o que todos esperam e ajude a seleção? O choque entre os mundos foi cruel para os integrantes da seleção brasileira. E o jornalismo técnico não se preocupa nada com isso.

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Fonte: Terra

Por que intensificar o que auxilia a narrativa e esconder outros fatores estranhos a ela de modo tão pouco reflexivo? O jornalismo técnico mantém por pouco tempo suas “verdades”. Um futuro bem próximo ou o choque com outros mundos, como aconteceu na Copa, desmonta facilmente o que foi narrado com bases frágeis e mal apurado. Já o reflexivo, logicamente não vai adivinhar o resultado do jogo, mas é feito com zelo e compreendendo essa complexidade do que é o jogo e seus detalhes. Ele afirma menos e pondera mais. Por isso é o “chato” que desmonta o “mundo” sempre mais bonito e fantasioso do jornalismo técnico. Também por isso é o atacado e acusado de “falta de patriotismo” pelos moradores do mundo sem lucidez. Ele é mais difícil de ser feito, precisa de certo tempo para apuração. Por isso é abandonado pelos imediatistas e detentores da opinião pronta e “indiscutível” para qualquer tema. Ele tem lado sim, mas com uma lucidez imprescindível para o contexto de emoções exacerbadas que vivemos hoje. Quatro anos depois, mesmo sendo bem representado por escassos amantes da reflexão, podemos dizer que não foi de 7, mas o jornalismo reflexivo perdeu novamente, e isso é muito mais preocupante que os dois gols da talentosa Bélgica.

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