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As identidades – e os sofrimentos – são contextuais

Ao longo de toda a Copa do Mundo da Rússia, mas principalmente desde o último dia 6 de julho, quando a Bélgica eliminou o Brasil da principal competição mundial de futebol, ganhou força nas redes sociais (ao menos entre o público local) um discurso crítico contra o brasileiro que estava sofrendo com a Seleção e principalmente com o revés dentro de campo.

O discurso era forte e de fácil convencimento à primeira vista: como, afinal, é possível sofrer por um “simples jogo”, praticado por jogadores milionários, estando o Brasil nesta situação calamitosa, com hospitais abandonados, crise política e corrupção desenfreada?

No mais, foi usado o exemplo da jornalista Glenda Kozlowski, que se emocionou ao vivo ao falar do sofrimento da família do volante Fernandinho ao longo do jogo da eliminação. Foi uma enxurrada de críticas. E as críticas eram ferozes, brutais, exageradas. Muitas vezes ecoado por formadores de opinião dos mais diversos tipos.

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Fernandinho voltou a deixar uma Copa do Mundo como vilão da queda brasileira (foto: Saeed Khan/AFP). Fonte: Gazeta Esportiva

De fato! É, como eu disse, um discurso fácil, populista, apelativo. Extremamente atrativo. E que, muito por isso, foi rapidamente disseminado por muitos. Muitos mesmo. Até que, de repente, tínhamos voltado décadas no tempo, quando os amantes do futebol e da Copa do Mundo eram vistos como pessoas alienadas, distantes dos reais problemas do país, que se deixavam enganar por causa de um esporte que era vendido pela mídia como um suposto “pão e circo”.

Mesmo sem ter vivido a época, pois, de repente eu me vira de volta a 1970. Com a sorte de não vivermos (ainda, ao menos) um governo de exceção, mas com o azar de que, desta vez, não vencemos nada, eliminados que fomos pela tal da “Geração Belga”.

Não vou aqui entrar nos méritos do jogo. Acho até que o Brasil jogou melhor, mas a Bélgica foi taticamente mais inteligente e, no fim das contas, mereceu a vitória. Mas quero me ater um pouco mais a esse discurso que usa termos calculadamente pensados para desqualificar o ato de torcer. Num processo perverso que de certa forma criminaliza o futebol e as sociações que surgem a partir dele.

Ora, é claro que o sofrimento de uma mãe na porta de um hospital, a espera de um atendimento que tarda em chegar, e que por isso não sabe se o filho sobreviverá; não é comparável com o sofrimento de uma mãe, sentada numa arquibancada, vendo o filho ser eliminado de uma Copa depois de ter feito um gol contra. Principalmente se, como muitos fizeram questão de lembrar, a primeira é pobre e a segunda, se outrora foi igualmente pobre, já não é mais.

Mas, ninguém que acompanhava a Copa insinuou isso. Nem ao menos cogitou essa possibilidade. O discurso não é dos torcedores, portanto. Ainda assim, ressalto, mesmo que não comparáveis, são sofrimentos igualmente genuínos, sem que um tenha a autoridade, o direito ou o poder de inviabilizar, negar ou anular o outro.

É extremamente preocupante – e perigoso – pegar frases ditas e sentimentos expressados num contexto esportivo e simplesmente usá-los em outros contextos, sem as devidas ponderações, e fazendo isso justamente com a intenção de desqualificar o esporte como fato social, como formador de identidades, como parte inerente das sociabilidades.

Muitos dos grandes antropólogos que discutem o tema das identidades desde muito tempo falam da necessidade de discuti-las dentro de contextos. E isso tem que valer, também, quando se discute o sufocar de um menino, a dor de um marmanjo, o choro de ambos frente a eliminação do time do coração em um campeonato importante.

Isso não faz deles menos humanos, menos preocupados com os problemas do país, menos sensíveis às dores alheias. As identidades podem ser múltiplas. E, dentro do contexto do futebol, aqueles que torceram pela Seleção durante a Copa escancaram apenas uma de suas identidades possíveis: a de torcedor, apaixonado pelos seus clubes e seleções, amante de um esporte que faz parte de suas tradições, de seus rituais, de sua vida desde muito tempo atrás.

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