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Salah é o garoto-propaganda de um mundo menos intolerante através do esporte

Salah
Mohamed Salah sempre ajoelha e levanta as mãos para o céu ao marcar gols (Foto: REUTERS/Eddie Keogh)

Em junho de 2016 os britânicos optaram em plebiscito pela saída do Reino Unido da União Europeia. A xenofobia e a aversão ao multiculturalismo foram os principais motivos por trás da decisão. A política de livre circulação de pessoas entre países integrantes do bloco gerou nos britânicos a repulsa pela chegada de imigrantes e refugiados da África e da Síria, e o “temor” de uma suposta “islamização” em larga escala.

Dois anos depois, no entanto, muitos daqueles que disseram “não” à cultura muçulmana, reconhecem que um egípcio se apossou da mais genuína das invenções britânicas: o futebol como é praticado hoje. E isso não os deixa, aparentemente, furiosos.

Mohamed Salah já havia construído através do futebol uma dinastia no Egito. Foi dele o gol que classificou o país para a Copa do Mundo da Rússia após 28 anos de ausência. Uma angústia que só acabou com o gol aos 50 minutos do segundo tempo no 2 a 1 contra o Congo em partida válida pelas eliminatórias. Venerado como um Faraó, Salah, porém, não estava satisfeito e expandiu as fronteiras de seu império para a Inglaterra.

O atacante do Liverpool foi o artilheiro da atual temporada do campeonato inglês, com 32 gols em 36 jogos disputados. Nenhum outro artilheiro estufou as redes tantas vezes em uma única edição da Premier League desde quando ela foi criada em 1992. No último dia 13, Salah também foi o primeiro jogador africano da história a receber o prêmio de melhor jogador do torneio.

A bola foi a única “arma” capaz de abrir fronteiras, mentes e corações fechados. Em todos os 44 gols marcados nesta temporada, Salah ajoelhou-se e agradeceu a Alá. Pode parecer uma comemoração clichê de jogador de futebol, mas o gesto é inegavelmente um símbolo de resistência em uma Europa onde vários países tentam impedir, por lei, o uso da burca em locais públicos e a abertura de novos restaurantes árabes. O atacante não acabará com a intolerância, mas pode orgulhar-se: ele já fez muitos súditos ingleses se curvarem não somente diante de Elizabeth II, mas também de um rei de nome Maomé.

“Se ele é não é bom o bastante para você, ele é bom o bastante para mim. Se ele marcar mais um gol, virarei muçulmano. Se ele vai à mesquita, é lá onde quero estar”

(Tradução de música feita pela torcida do Liverpool em homenagem a Salah)

Contrariando todas as expectativas de comentaristas, Salah e seus companheiros de time levaram o Liverpool, pentacampeão europeu, novamente a uma final de Liga dos Campeões após 11 anos. Caso o time inglês levante a taça, será a vitória de quem se tornou porta-voz de egípcios, palestinos e outros povos árabes historicamente marginalizados pelo Ocidente; a vitória para incentivar uma nova ordem, na qual talentos globais e inovadores vêm de qualquer cultura e canto do planeta.

No entanto, o duelo é contra o poderoso Real Madrid, que, apesar da campanha irregular nesta Liga dos Campeões, tem Cristiano Ronaldo e um elenco galático a seu favor. Caso o clube espanhol conquiste pela décima terceira vez o torneio, será inegavelmente uma vitória esportiva. Porém, em tempos sombrios, precisamos mais e mais de vitórias da humanidade. E isso somente uma das duas equipes que estará em campo no Estádio Olímpico de Kiev neste sábado poderá nos proporcionar.

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