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A comunicação no futebol moderno

Torcida brasileira
Fonte:Desporto

O Futebol: só um esporte?

Com o status de esporte nacional, por ser o mais praticado e acompanhado, o futebol representa a brasilidade, que tem a alegria como categoria principal na representação popular de forma privilegiada, se comparado a outros significantes como o samba, o carnaval ou a malandragem.

Tem sido objeto de apropriações ideológicas diversas no escopo de compor uma “identidade brasileira”, na qual desempenha importante papel como princípio aglutinador do “povo brasileiro” em sua constituição como nação (GASTALDO, 2001, p. 125; DaMATTA apud DAMO, 1999).

Especificamente no Brasil, podemos afirmar que também é considerado muito mais um jogo do que uma atividade profissional, onde também encontramos elementos como sorte, azar, drama, emoções, talento e inteligência coletiva, componentes a serem considerados na sua análise, como afirmam DaMatta (1982, 1986) e Guedes (1977), mais ainda na análise jornalística, que teima em chamar esse futebol de moderno.

Moderno é um adjetivo que, segundo Bruno Latour: “assinala um novo regime, uma aceleração, uma ruptura, uma revolução de tempo” e que “possui tantos sentidos quantos forem os pensadores ou jornalistas” que o observam.  Estes últimos, os jornalistas, continuam tratando, pensando e falando de futebol nas mesmas bases que no início do século XX, de uma forma analítica como se fosse um sistema simples, com poucas variáveis e sem nenhuma ruptura ou revolução temporal.

De significativa relevância social nas diferentes sociedades em setores como cultura e instituições tem despertado o interesse das Ciências Sociais em diversas áreas, ocupando espaços cada vez maiores nos noticiários de economia, geopolítica e entretenimento, invadindo campos como cinema, literatura e teatro.

Desde sua introdução no país, no final do século XIX até a década de 1930 do século XX, sofreu várias alterações: era considerado um espaço de lazer restrito aos aristocratas e seus filhos, tornando-se a partir de 1933 um esporte popular, como fonte de renda com a profissionalização, e como um trampolim de ascensão social para muitos jovens (cf. ROCHA, 2004).

Por outra perspectiva, tem sido alvo de apropriação por parte da política e pelo regime de exceção vivido no Brasil na segunda metade do século XX. O futebol é a maior paixão popular do planeta e, no caso brasileiro, assume dimensão ímpar, por ser uma das raízes centrais de nossa identidade, indispensável para uma compreensão globalizante do Brasil. É um esporte repleto de significados, de simbologias, de valores para a existência humana, em geral, e, de forma singular, para os modos históricos de sua manifestação no interior da sociedade e da cultura brasileiras (PERDIGÃO, 1986, p. 63).

Hoje a globalização e a espetacularização do futebol, elementos pulverizadores de identidades e resignificadores de representações,  o transformaram em parte de uma indústria que movimenta cifras milionárias e emprega milhares de pessoas mundo afora, com a participação dos conglomerados de mídia no futebol, com interesses diretos no resultado econômico; mas na sua essência permanece quase que inalterado. A quantidade de jogadores em cada time, os árbitros, o tempo de jogo e as regras permanecem idênticas com algumas raras exceções. Todos os argumentos acima mencionados seriam suficientes para que a imprensa observasse, analisasse e comentasse o futebol levando em consideração todos esses fatores, que de forma incontestável alteraram a dinâmica, propósito e objetivos  deste esporte.

Se considerarmos que um time é composto por vários jogadores (partes) que  interagem entre si e, que existem inúmeras variáveis dinâmicas que influenciam o comportamento do mesmo, podemos considerar o futebol como um sistema dinâmico e não linear, portanto complexo e não passível de uma análise cartesiana, como a que a imprensa esportiva realiza constantemente.

O futebol como sistema complexo

O tratamento dado pela imprensa esportiva ao futebol nos remete a um sistema simples, de duas ou três  variáveis, onde existe pouca interação entre as partes, onde o todo é uma soma das partes e se manteria com as mesmas propriedades destas; basicamente um sistema reducionista.

Seria mais coerente com a atividade ser tratado como um sistema complexo e organizado. Sistemas complexos, segundo REGIS (2006), são sistemas em que o conjunto de todas as variáveis não obedecem a uma relação constante de proporcionalidade, mas são sistemas sensíveis às condições iniciais e as variações no transcurso do tempo o tornam imprevisível. O comportamento do conjunto excede a soma de cada uma da suas partes e a dinâmica de um jogo de futebol torna-o adequado a esta categoria de sistema.

Para além dos 22 protagonistas do jogo existe a mediação de um árbitro principal em conjunto com uma equipe de árbitros auxiliares que interferem decisoriamente no jogo. Condições climáticas e geográficas impactam de alguma forma o desempenho e resultado final de um jogo: chuva, vento e altitude interferem drasticamente no desempenho: uma partida realizada na cidade de La Paz, na Bolívia, a 3640 metros de altitude impõe uma dinâmica diferente a da uma partida realizada no Japão, com neve. Outros fatores, como o horário da realização também impacta de alguma forma o desempenho e resultado final de um jogo.

No âmbito extracampo existe por trás um apoio multidisciplinar formado por médicos fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, preparadores físicos e psicólogos entre outros, que auxiliam no desenvolvimento da equipe, o que ilumina as múltiplas variáveis e desvios que acontecem no decorrer de um jogo e merecem uma atenção especial por parte de profissionais qualificados.

Os equipamentos utilizados para a prática deste esporte, entre eles os uniformes, bolas, chuteiras etc., são produtos de estudos científicos multidisciplinares profundos, que tem por objetivo aprimorar  as condições onde o mesmo se desenvolve. O material utilizado nas camisas, por exemplo, fruto das pesquisas na área têxtil proporciona aos uniformes funcionalidades como: proteção UV, antibacteriana, impermeabilizantes e troca térmica.  A bola utilizada hoje sofreu diversas alterações fruto de simulações computacionais. Segundo REGIS (2006, p.152) as simulações computacionais atuam entre os campos do real e do ficcional, transformando a própria metodologia da ciência, inaugurando  a complexidade como um novo paradigma científico. Matérias-primas e processos de fabricação foram exaustivamente testados em laboratórios (simulações) e em campo (real), para se obter um produto final que se adequasse perfeitamente e minimizasse efeitos externos tais como: deformação pelo uso e  a ação de fatores climáticos como chuva e vento.

Portanto, podemos estabelecer que diversas áreas da ciência, em conjunto, trabalham e realizam pesquisas multidisciplinares em prol do esporte em geral.

Segundo D’Amaral (1995), citado por Regis (2006, p. 162), “multidisciplinares são aqueles empreendimentos científicos em que diversos especialistas, sem abrirem em nada mão de sua especificidade, concorrem para a descrição de um mesmo objeto sob variados enfoques. Eles não criam um novo objeto, mas lhe agregam valores novos, de certa forma o enriquecem sem que, no entanto, cada uma das ciências participantes desses empreendimentos saia deles alterada na sua estrutura, nos seus métodos ou nos seus limites”.

Referências Bibliográficas

D’AMARAL, Márcio Tavares. O homem sem fundamentos: sobre linguagem, sujeito e tempo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / Editora Tempo Brasileiro, 1995.

DaMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

DAMO, A. S. Do dom à Profissão: A formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Ed. Hucitec, 2007.

GASTALDO, E. Considerações sobre “O País do Futebol”: Mídia e Copa do Mundo no Brasil. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), 25., 2002. Salvador. Anais…Salvador: UNEB, 2002.

GUEDES, S. L. Discursos autorizados e discursos rebeldes no futebol brasileiros. Esporte e Sociedade, v. 6, n. 16, 2010/2011.

PERDIGÃO, P. Anatomia de uma derrota. Prto Alegre: L & PM, 1986.

REGIS, Fátima. “Comunicação, sistemas complexos e transdisciplinaridade: um comunicar intercientífico.” Revista Contracampo 15 (2006): 151-164.

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