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Cultura futebolística sul-americana: ignorada por alguns trocados

Em um mundo globalizado, há a tendência de modificações e adaptações. Vivemos um período diferente. Algo natural devido aos avanços tecnológicos dos dias atuais, exceto quando ferimos princípios básicos de suma importância que possam descaracterizar aspectos sociais e culturais.

No esporte, mais precisamente no futebol, essas modificações ocorrem fugazmente. O modelo europeu é considerado o ideal no mundo da bola. As razões são muitas, mas a principal delas, com certeza, é pelo fato de lá estarem os clubes de maior poderio financeiro, o que faz com que atuem, em suas ligas, os principais jogadores do futebol mundial. Em qualquer lugar do planeta, será difícil encontrar alguém que não conheça o Barcelona, de Lionel Messi, o Real Madrid, de Cristiano Ronaldo ou o Paris Saint-German, do brasileiro Neymar. Até quem não goste ou acompanhe o noticiário esportivo, acaba que, forçosamente, por conta dos veículos de informação, saiba do que se trata.

No continente sul-americano, tornou-se mais comum ver as crianças com camisas de times europeus ao invés de estarem trajadas com uniformes da equipe de suas respectivas cidades. Seja no Rio de Janeiro, em Buenos Aires ou Bogotá. A influência europeia por meio da globalização mudou o gosto e maneira das novas gerações de verem e entenderem o futebol. São os novos tempos e temos que nos adaptar. O problema é quando temos afetada a questão cultural, algo que, confesso, me incomoda bastante.

Crescemos assistindo a grandes finais nacionais, em que nos acostumamos a fortes emoções, seja por conta daquele gol triunfal no finzinho da peleja ou a desesperada tentativa do goleiro em reforçar o ataque no jogo aéreo, já nos acréscimos. Desde 2003, as coisas mudaram. A CBF, Confederação Brasileira de Futebol, pegou como exemplo os europeus, e passou a estender o Campeonato Brasileiro, em uma nova fórmula de disputa, iniciando três meses antes a competição, e alterando o regulamento para pontos corridos. A fase final, em que tínhamos jogos de ida e volta, conhecido popularmente por aqui como mata-mata, estava extinta. A Copa do Brasil, desde então, seria a única oportunidade de o torcedor ver, de fato, seu time levantando um caneco de um torneio nacional em uma finalíssima. Apesar de não concordar, não posso deixar de afirmar que ficou mais justo. Embora futebol e justiça não combinem.

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Fonte: Globo Esporte

A Conembol, confederação sul-americana, seguiu os mesmos passos em 2017, e alterou o calendário das duas principais competições que organiza. A Libertadores e a Copa Sul-Americana passaram a ser disputadas durante todo o ano e de forma simultânea, assim como acontece na Europa.

Não obstante, recentemente, a entidade resolveu, mais uma vez, inovar. Aliás, retificando, o termo correto seria imitar. Seguindo o que já ocorre na Liga dos Campeões e Liga Europa, a decisão da Taça Libertadores, a partir de 2019, será jogada em uma só partida, em local que estará definido antes do início do campeonato. O intuito, segundo a Conmebol, é poder fazer um grande evento, mais comercial e rentável, como é feito pela Uefa.

A mudança é polêmica. Não só pelo aspecto técnico. Mas, sobretudo, pela falta de respeito com a cultura futebolística do continente sul-americano. Além de estar acostumado a ver o mata-mata nos jogos finais, o torcedor daqui não tem a mesma facilidade para ver seu clube atuar fora de seu país. Sejam por motivos econômicos ou territoriais. Na Europa, a locomoção é feita por avião e trem, que possibilitam uma logística mais razoável, possibilitando ir em outro país assistir o jogo na parte da tarde e retornar para dormir em casa. Caso bem diferente do que vai ocorrer na Libertadores. Corremos o risco de ter uma final com estádio longe de estar lotado ou até mesmo com um público de simpatizantes locais, ao invés dos torcedores apaixonados dos clubes finalistas, que aguardaram por aquele momento durante toda a vida. Algo realmente lamentável. O fato dos europeus terem os melhores campeonatos do mundo não nos obriga a copiá-los. Não em tudo! Podemos enxergá-los como espelho, sim, mas sem jamais ignorar a cultura do nosso futebol e o motivo principal dele existir: o torcedor. Apaixonado e fiel, que pode e precisa entender os novos tempos, mas também precisa ser respeitado e priorizado.

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Fonte: Globo Esporte
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