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As narrativas da imprensa francesa sobre o futebol brasileiro na Copa de 1958

O futebol tem sido um bom instrumento para se entender a relação entre as culturas. Nos anos 2005 e 2006, realizei uma pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Buenos Aires que tratava de investigar as narrativas da imprensa argentina sobre o futebol brasileiro nas Copas do Mundo de 1970 a 2002. Uma das conclusões da investigação foi a de que nossa “implicância” com os argentinos é anterior e mais intensa do que a deles conosco. Mais detalhes sobre a análise do material coletado podem ser encontrados no artigo “‘Jogo Bonito’ y ‘Fútbol Criollo’: la relación futbolistica Brasil-Argentina en los medios de comunicación”, que foi publicado no livro organizado por Alejandro Grimson intitulado Pasiones Nacionales: politica y cultura en Brasil y Argentina.

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Fonte: Edhasa

Em junho e julho de 2017, realizei uma pesquisa na Biblioteca Nacional da França sob a supervisão de Patrick Mignon, do Institut National du Sport, L’Expertise et de la Performance – INSEP. O objetivo era analisar as narrativas da imprensa francesa sobre o futebol brasileiro nas Copas de 1958 e 1998. A hipótese inicial era a de que teria sido a partir do desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo em 1938 e pelo olhar da imprensa francesa ao futebol brasileiro que as ideias do antropólogo Gilberto Freyre e do jornalista Mario Filho, de que o futebol brasileiro seria mais “artístico”, passaram a se consolidar no país. Durante a Copa de 1938, o cientista social Gilberto Freyre publicou um artigo no Diário de Pernambuco intitulado “Football Mulato” que se transformou em um marco na literatura futebolística brasileira quando se quer falar do nosso suposto estilo de jogo. Ali, Freyre exalta os “atributos” dos “afro-brasileiros” seguindo raciocínio semelhante ao que já tinha escrito em sua obra Casa Grande e Senzala. Continuando com esta hipótese, presume-se que o francês, em geral, olhava para o Brasil como um país exótico, com todos os estereótipos “positivos” e “negativos” que permeiam esse olhar.

O projeto se concentrou em analisar as narrativas dos jornais Le Monde e L’Équipe sobre o futebol brasileiro nas Copas de 1958 e 1998, quando houve confrontos entre o Brasil e a França. Aqui, vou apresentar, de forma breve, apenas a análise já feita sobre o material coletado no jornal L’Équipe referente a 1958, ocasião em que o Brasil foi o campeão e derrotou o time francês nas semifinais por 5 a 2.

Voltando a 1938, o olhar dos franceses sobre nosso futebol teria dado combustível às ideias de Freyre e Filho. Temos indícios de que a visão dos franceses oscilava entre a admiração pelas habilidades dos jogadores daquela seleção brasileira e a crítica a um suposto primitivismo dos mesmos. José Sérgio Leite Lopes (1999, p.74) menciona, por exemplo, artigo de Gabriel Hanot, publicado no jornal Le Mirroir des Sports, após a derrota para o Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1938, no qual o jornalista afirmava que “os brasileiros, por serem mestiços de sangue negro, eram naturalmente inclinados ao futebol, demonstrando qualidades excepcionais; pena que o futebol fosse um jogo coletivo, demandando disposições cerebrais”.

Em pesquisa realizada nos diários Le Petit Parisien e Paris Soir no período da Copa do Mundo de 1938, Arlei Damo (2007, p.9) nos mostra que o “predicado de ‘arte/artístico’, atribuído ao estilo brasileiro, é permeado de ambivalências, por vezes tido como sinônimo de atraso em relação à forma de jogar e, por extensão, de pensar dos europeus”. Ou seja, o que Damo demonstra é que as narrativas oscilavam entre elogios às supostas características “artísticas” e críticas à “individualidade, preponderando sobre o trabalho de equipe” (Damo, 2007, p.5).

A Copa do Mundo de 1958 foi realizada na Suécia entre os dias 10 e 29 de junho daquele ano. A seleção brasileira ganhou sua primeira Copa do Mundo depois de derrotar os anfitriões por 5 a 2. Antes desta partida, a seleção venceu a França por 5 a 2.

No dia 12 de junho de 1958, após a partida contra a Inglaterra, que terminou empatada em 0 a 0, o L´Équipe disse que o Brasil mostrou suas qualidades incomparáveis no primeiro tempo. Ao mesmo tempo, a nota dizia que a equipe brasileira, assim como a equipe argentina, não tinha resistência física: “Eles mostraram ontem. O defeito de sua couraça, que é a de todos os sul-americanos”.

  O que nos chama a atenção é a visão geral e estereotipada dos sul-americanos, como se todos desse continente tivessem os mesmos “defeitos naturais”. No entanto, junto com a questão física, a ideia do “jogo bonito” também começa a aparecer. O jornalista Gabriel Hanot, o mesmo que mencionamos no início do artigo, escreve na capa do jornal que “a graça brasileira contrasta com a força britânica”. Tanto a questão física como a que fala sobre habilidades técnicas são, de certo modo, semelhantes às que apareceram nas análises feitas por Damo e Leite Lopes sobre a Copa de 1938. Ambas são retratadas como parte da “natureza” dos brasileiros.

Além disso, essa suposta “natureza” estaria centrada no mestiço negro ou brasileiro. Em 13 de junho, L’Équipe elogia “a flexibilidade dos brasileiros”, cujo símbolo é o negro Didi, que seria dotado de “uma classe extraordinária”.

Após a partida contra a União Soviética, em que o Brasil venceu por 2 a 0, o jornal, em 16 de junho, deu a seguinte manchete: “Vinte minutos de fogos de artifícios com Garrincha, Didi, Vavá e Pelé”. E no dia seguinte, uma nota tinha o título: “‘Torto’, excelente inventor dos dribles (…): Garrincha, o melhor ponta direita que eu vi”. A reportagem é assinada por Gabriel Hanot.

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Fonte: Ludopédio

Curiosamente, um dia depois que a seleção brasileira venceu o selecionado do País de Gales por um placar apertado de 1 a 0, o próprio Hanot disse que a equipe não tinha “jogo coletivo” (L’Équipe, 20/06/1958). Ou seja, quando o time ganha e “joga bonito”, temos uma narrativa que enaltece as qualidades individuais. No entanto, quando a equipe não realiza o que supostamente se esperava dela, observamos uma crítica do ponto de vista da razão: a falta de jogo coletivo. Em ambos os casos, trabalhamos com atributos de ordem da natureza, confirmando a ambivalência observada por Damo (2007).

Essa ambiguidade tornou-se mais evidente antes do confronto contra a França pelas semifinais em 24 de junho. Um dia antes, L’Équipe apresentou uma entrevista com o ex-jogador de futebol francês, Jean Snella, que trabalhava, na ocasião, como auxiliar técnico da seleção da França. A manchete: “Não perca a sua compostura diante de Garrincha!”. A nota enfatiza que Snella teria dito que o ponta direita “não faz nada com o resto de sua equipe, joga de acordo com sua inspiração sem levar em conta seus colegas de equipe e que muitas vezes seus dribles não são objetivos”. Na mesma matéria, há uma entrevista com o então treinador da equipe francesa, Albert Batteux, que disse que todos os adversários que a França enfrentara eram conhecidos, por terem jogado contra eles em outras ocasiões, além do fato de que Snella lhes trouxe toda a informação. Depois disso, ele afirmou que “os brasileiros, por outro lado, se eles possuem uma característica, é a de não ter uma! Eles praticam um jogo instintivo, devido às extraordinárias qualidades físicas”.

As duas entrevistas reforçam a dicotomia. Por um lado, o louvor das supostas qualidades individuais “instintivas”. Por outro lado, a crítica da suposta falta de razão, do jogo coletivo. Com a vitória do Brasil de 5 a 2 e a consequente classificação da seleção para a final, o jornal francês elogia o time brasileiro e seus jogadores, não dando espaço aqui para a narrativa da “ausência de razão”. O que prevalece nos relatórios é a beleza do jogo de seleção e as qualidades técnicas de seus jogadores.

De todas as maneiras, a crítica à suposta falta de razão, ou equilíbrio emocional, retorna no dia 28 de junho, um dia antes da partida final contra a seleção sueca, os anfitriões daquele mundial. E mais uma vez, a análise crítica é do jornalista Gabriel Hanot. A matéria intitulada “Se os nervos do Brasil são levados até o fim” diz que “um único perigo pesa no momento da verdade para o Brasil: a juventude da civilização e, consequentemente, a sua fragilidade moral”. No entanto, ele lembra que essa fragilidade não apareceu nem contra os soviéticos nem contra os franceses, depois de ter tomado o primeiro gol (quando Fontaine igualou a pontuação em 1 a 1). E continua dizendo que a seleção brasileira tinha dois valores supremos: “1) o desejo de completar o virtuosismo individual com um comportamento coletivo; 2) sob a influência do Dr. Hilton Gosling e do professor de psicologia (ou antes psicoterapeuta) João Carvalhais, o domínio completo dos nervos em organismos que queimam internamente com fogo tropical” (L’Équipe, 28/06/1958).

Com o Brasil campeão, depois de vencer a Suécia por 5 a 2 na final, o jornal elogia a organização defensiva da equipe, que pode ser interpretada como um olhar que coloca o Brasil no papel dos times mais “racionais”. E mais uma vez, o jornalista Hanot elogia Garrincha: “Um ponta direita como Garrincha não existe e não é concebível na Europa” (L’Équipe, 30/06/1958). Curiosamente, Hanot não explica a razão pela qual um “Garrincha” não seria concebível na Europa. Foi porque ele era um jogador dos trópicos? E, portanto, muito individualista e imprevisível?

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Fonte: Wikipedia

Em resumo, podemos dizer que o material coletado no jornal francês na Copa de 1958 confirma as especulações de Leite Lopes (1999) e Damo (2007). A narrativa dos franceses variou do louvor às qualidades individuais dos atletas da equipe a uma crítica ao individualismo no meio de um esporte coletivo. Os resultados das partidas influenciaram tanto o louvor quanto a crítica. E em ambos os casos, a narrativa da imprensa estava imbuída de uma visão eurocêntrica, no sentido de que os brasileiros não teriam razão e equilíbrio emocional, o que teria sido alcançado graças ao trabalho do médico e do psicólogo da seleção nacional. E mesmo com a prevalência de elogios, principalmente a partir do momento em que a seleção vence a França, as narrativas não deixaram de lado a visão exótica e eurocêntrica sobre o Brasil.

Referências

DAMO, Arlei. Artistas primitivos: os brasileiros na Copa de 38 segundo os jornais franceses. In: Simpósio Nacional de História – ANPUH XXIV, 2007. Anais… São Leopoldo: Unisinos, 2007

HELAL, Ronaldo. “Jogo Bonito” y “Fútbol Criollo: la relación futbolística Brasil-Argentina en los medios de comunicación. In: GRIMNSON, Alejandro (org.) Pasiones Nacionales: política y cultura en Brasil y Argentina. Buenos Aires, Edhasa, 2007.

LEITE LOPES, José Sérgio. “Les origines du jeu à la brésilienne”, in Henri Hélal, Patrick Mignon (orgs.) Football; Jeu et Société, Les Cahiers de l´INSEP , n. 25, 1999

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Um comentário em “As narrativas da imprensa francesa sobre o futebol brasileiro na Copa de 1958

  1. Engraçado e interessante que, mesmo nos meios não-acadêmicos e jornalísticos, essa crítica ao individualismo de certos “craques” é evidente. O meu pai e muitos outros que o viram jogar criticam o finado Garrincha pelo que classificam de “secura”. Para esses críticos, Garrincha e outros como ele (Neymar?), comseus dribles, fazem as jogadas “pararem”. Chegam a classificar de “anti-jogo”, “exibicionismo”, “malabarismo”. A exceção, para esses detratores, é a Copa de 1962, no Chile, em que a seleção Brasileira teria se beneficiado da liderança de Garrincha, que teria “alterado” seu estilo de jogo individualista, em prol do grupo. Fica a sugestão de uma pesquisa qualitativa sobre os jogadores “individualistas”, “dribladores”, “fominhas”. São úteis às suas equipes, ou se exibem mais do que produzem?

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