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O que Tite há de temer

Em meio ao desmonte do Estado Brasileiro operado pelo golpista Michel Temer e seus três por cento de apoiadores, uma notícia representativa ganhou forma na semana passada: o golpista utilizaria a representação do treinador Tite para “melhorar sua imagem” nas redes sociais. Isso é claro, depois de se safar da segunda denúncia na Câmara com a relativização da interpretação do trabalho escravo no país, tão sonhada pelos ruralistas. Mas o que há de Tite em Temer? O que Tite há de temer com esta comparação, no mínimo tosca?

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Mote da peça publicitária do governo federal compararia Dilma a Felipão e Temer a Tite.

Como uma manifestação cultural importantíssima no nosso país, o futebol influencia e é influenciado por determinados campos. Ao mesmo tempo em que ajuda a transformar a sociedade, é transformado por ela. O próprio ritual nacional (GUEDES, 1998 e GASLTALDO, 2002) de torcermos para a seleção durante a Copa do Mundo e seu simbolismo latente impregnado na nossa sociedade a construiu como “autêntica representante nacional”. Tal processo, que vinha se desenhando ao longo da história deste esporte no Brasil, tem como grande marco a Copa de 1938, onde o campo político, social, econômico e esportivo se entrelaçaram para sintetizar a nação em torno de onze atletas. Esse sentimento de construir uma comunidade imaginada (ANDERSON) proporcionou uma gama de significados ampla ao futebol. Logo o esporte se tornou arena de disputas de narrativas, de modelos de conduta e do que seria o correto. No ritual nacional de se vestir de verde e amarelo e torcer para nossos representantes, Leônidas e Domingos figuraram como primeiras grandes estrelas do casamento mídia e esporte no Brasil, seguidas por Garrincha, Zizinho, Pelé, Didi, Zico, Romário, Ronaldos e Neymar.

Neste ritual, a figura do treinador surge como o “comandante” desta representação. Principalmente durante a Copa do Mundo, ele assume um status de celebridade e com um capital simbólico importante para dialogar e circular entre diferentes esferas da sociedade. Adhemar Pimenta, treinador da seleção em 1938, ganhou uma narrativa próxima ao estilo durão, mantendo a disciplina dos atletas que, assim como soldados, eram convocados para ir a Europa pré-Guerra defender a sua nação. O momento do Estado Novo sugeria essa relação simbiótica esporte/nação, conseqüentemente exigindo de Adhemar Pimenta características de um “general”.

Defendemos em nossa tese de doutorado que a figura do treinador foi se adaptando ao longo do tempo. Do inicial “professor” que ensinaria a prática esportiva aos mais jovens, passando pelo “secretário” (WAGG, 1984) que mediaria as relações entre capital (clube) e trabalho (jogadores), até a narrativa do momento do “grande gestor”. É inegável a força do campo econômico no esporte. Resenhas esportivas tiveram um aumento considerável das notícias das finanças dos clubes de futebol. Além de táticas e esquemas, cifras e balanços entraram como “algo comum” nas análises dos desempenhos. O treinador tem hoje um “papel de gerente das metas”. Sua função é manter o “superávit” de vitórias da agremiação ou seleção, para que se mantenha no cargo e demonstre sua competência. Uma visão imediatista, neoliberal e que coloca o resultado frente a outros detalhes que também fazem parte da gestão.

A representação de Tite é positiva. Mesmo com as contradições do pêndulo constante da narrativa sobre nosso futebol em ora exigir o tradicional (futebol-arte) e ora clamar pela modernidade (futebol-força), as posições maniqueístas entre jogar feio ou bonito ganharam nova roupagem com a “eficiência” de Tite. Mais do que um simples “gestor”, o gaúcho Tite tem uma narrativa construída na imprensa com uma mistura de tudo aquilo que o futebol brasileiro poderia necessitar para se renascer depois do 7 a 1. Pessoalmente, gosto de seu estilo e me entristece projetar que os elogios atuais mudarão de figura com uma derrota na Copa do Mundo do ano que vêm. Porém na política e no esporte é preciso se pensar no momento.

Apropriar-se desta imagem de Tite é tentar se arrebanhar do poder simbólico do futebol em nossa sociedade. A campanha ainda não lançada de Temer (esperemos que não saia), compararia Dilma a Felipão explorando o 7 a 1 e a “mudança” de ares de Tite com o desgoverno de Temer. Inclusive aproveitando a representação de bom gestor, que cortou onde devia (saúde, educação) e investiu onde precisava (compra de deputados e anistia de devedores) Tudo com a ajuda dos jornais cada vez mais cínicos ao destacar a “melhora na economia”. Nada mais absurdo, porém, não nos surpreende já que uma significativa parcela dos torcedores presentes no Mineirão (eleitores de Aécio Neves) xingaram Dilma no final da vergonhosa derrota para a Alemanha. Em tempos que a limitação cognitiva já não é mais vergonha e sim exaltada nas redes, essa associação teria sentido. Explicar através da linguagem do futebol é algo recorrente na sociedade brasileira. São expressões de fácil compreensão e pelo poder de envolvimento de um número considerável de pessoas, a metáfora de um “comandante” que arruma a casa, melhora o time e chega a vitória seria verossímil.

Porém, não é novidade de que o sucesso do Brasil em Copas do Mundo se deu e se dá apesar de seus dirigentes. Dirigentes que ainda hoje se mostram na República Velha, com grandes oligarquias dominantes, donos de grandes terras, adeptos do trabalho escravo, do seu próprio umbigo e que pouco se importam para a melhora nas condições humanas. A “elite esportiva” brasileira se manteve em grande parte da nossa história política nesses modelos e nada melhor do que se encontrar com um governo que dialoga exatamente com a Velha República. Há muito de Temer na CBF e muito da CBF no governo Temer. Se encaixam de maneira profícua, até mesmo nas cores caju dos cabelos de cartolas e senadores. A campanha deveria excluir Tite e mostrar os dirigentes (atuais e ex) da CBF de braços dados com o Ministério de Temer. Esses sim, com muito em comum.

Já Tite, este, com todo o respeito, segue como nós. Sabe o que está errado e que não tem forças suficientes para mudar. Então faz o seu trabalho, buscando na medida do possível fazer valer sua ética, e negando o que os rituais do cargo lhe permitem negar. É pouco, pode ser. Mas o que fazemos nós contra um governo com 3 % de aprovação, que destrói a educação, entrega pré-sal, acaba com CLT e nos joga nos anos 1920 em menos de dois anos? Tite há de temer essa comparação, logicamente que sim…não é boa para a sua imagem, nem para a de nenhuma pessoal com o mínimo de decência. Mas já paramos para pensar que teremos que explicar para nossos filhos e netos como foi feito tudo isso no país sem nos mexermos?

Tite foca em 2018 como seu objetivo final e como a redenção de tudo que tem que engolir e temer, enquanto nós também esperamos uma Copa para jogar com o juiz comprado, jogadores suspensos, mas com a ilusão atroz de que “vai dar tudo certo”.

GUEDES, Simoni Lahud. O Brasil no campo de futebol: estudos antropológicos sobre os significados do futebol brasileiro. Editora Da Universidade Federal Fluminense, 1998.

GASTALDO, Édison. Pátria, chuteiras e propaganda: o brasileiro na publicidade da Copa do Mundo. Annablume, 2002.

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e expansão do nacionalismo. 2.ed. Lisboa: Editora70, 2005.

 

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