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A mulher e o esporte: alguns temas de pesquisa.

A opinião sobre desigualdade entre homens e mulheres na vida esportiva, beneficiando aos primeiros, segundo o ponto de vista crítico, é recorrentemente posta nos eventos que tratam do esporte desde as ciências sociais e humanas. A opinião parece também encontrar respaldo entre as atletas mulheres que, não raro, apontam as dificuldades de gênero em suas práticas. Em vários sentidos, as análises tem a pele do denuncismo do poder masculino e dos preconceitos contra as mulheres.

As críticas, sobre o poder dos homens e a favor do empoderamento das mulheres, concentram-se em esportes que consideramos profissionais e que se definem por duas características: 1) os atletas são profissionais do esporte e 2) o financiamento do esporte depende do mercado. As críticas não deixam claro nas suas análises, por um lado, a modalidade do financiamento do esporte e a crescente importância do mercado. Do outro, evidências da aceitação da participação das mulheres em esportes que parecem estar historicamente relacionados com a construção da masculinidade.

É banal observar que o financiamento via mercado, pelo mundo dos negócios que incluem o próprio esporte está altamente vinculado com o lucro potencial dos investimentos, especialmente configurado pela combinação do tamanho das audiências (presenciais ou televisivas) e suas características sociais e econômicas em grande parte segmentada. Sob a lei do mercado, se o futebol feminino tem uma audiência muito menor que o masculino parece que os investimentos irão à direção do segundo. No caso do vôlei, o financiamento via mercado na participação das mulheres superou proporcionalmente ao do futebol feminino e se tornou bom de audiência.  A segmentação também é importante. Assim, por exemplo, a empresa Rolex parece considerar que o segmento dos amantes do tênis está relacionados com o consumo de seus produtos. Enfim, se trata de negócios e não de mecenato.

Ao avanço do mercado no campo dos financiamentos, corresponde um declínio do financiamento anterior, o familiar ou pessoal, para a participação e que ainda continua dominante em vários esportes. A fase amadora está profundamente marcada pelo financiamento familiar ou pessoal. A fase de mercado está associada fortemente com a profissionalização. Existem casos de participação das mulheres na fase amadora que se prolongou com a profissionalização do esporte. O tênis parece ser um desses casos. Maria Esther Bueno não ganhou importantes prêmios em ambas as fases?

Outro exemplo, no caso do Brasil, a vela dependeu e ainda depende da “tela” (dinheiro) das famílias ou pessoal dos participantes. Em algum grau, certos momentos da trajetória dos atletas, pode estar regido pelos investimentos familiares e pessoais.

Tomemos dois exemplos que parecem fornecer evidências contrárias a hipóteses do poder dos homens e seus preconceitos: o da prática da esgrima e o do hipismo por parte das mulheres.

A esgrima, modalidade florete e sabre, figuraram na primeira olimpíada (1896) na categoria masculina e individual. É sabido que Pierre de Coubertin era ele próprio esgrimista. As espadas seriam incorporadas na olimpíada de 1900. Sabre e florete apor equipes foram incorporados em 1904 (Saint Louis).

O conhecimento intuitivo da sociedade e de sua história vincula por excelência a esgrima ao campo das atividades masculinas, quer militar, quer esportiva. Imaginamos homens carregando espadas ou sabres. E isso apesar da marca feminina no nome: a esgrima. A defesa da honra na ponta da espada está em nossa imaginação pelo menos a partir da obra de Dumas. Contudo, há indicações de que as mulheres também podiam defender sua honra com a espada. Perez Reverte colocou uma figura feminina central no seu romance O Mestre de Esgrima. Não conheço ainda trabalhos sobre a defesa feminina da honra no desafio das espadas, embora a personagem de Reverte procure a estocada indefensável. Contudo, os dados disponíveis apontam uma participação ativa das mulheres aristocráticas no campo da prática e de sua incorporação como esporte. O financiamento da atividade foi familiar ou pessoal, embora as instituições possam ter criado espaços de aprendizagem e de prática, sobretudo, para os homens, (o caso particular dos exércitos nacionais que impulsionaram seu ensino e prática).

Entretanto, já em 1924 (Paris) se incorpora a categoria feminina individual (florete) e por equipe em 1932 (Los Angeles). Diante do imaginário dominante sobre a esgrima, a incorporação feminina parece ter sido realizada bastante rapidamente. Uma boa história deveria narrar as vicissitudes dessa incorporação, o papel das mulheres, os argumentos a favor e contrários e, de modo especial, a origem e formação das esgrimistas. Os preconceitos machistas não teriam tido peso no caso da esgrima das mulheres?  Ou será que apenas por ser financiamento familiar ou pessoal, mercado ausente, o problema dos retornos dos investimentos não foi colocado?

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Ibtihaj Muhammad se tornou a primeira americana a competir na Olimpíada com o véu muçulmano. Mas será que o machismo e a islamofobia foram os únicos obstáculos que ela enfrentou em sua modalidade? (Foto: REUTERS)

A equitação tem uma longa história no campo do transporte, da guerra, dos esportes e do entretenimento. A mulher ocupa um lugar significativo pela forma de montar e no desenvolvimento de selas a elas adequadas, desde a monta perpendicular e com as duas pernas para o lado esquerdo do cavalo até a atual (dizem que o costume de montar pelo lado esquerdo foi consequência da forma dos destros carregar a espada sobre esse lado. Como seria e é entre os canhotos?). As mulheres então não podiam montar como os homens tanto pelo tipo de roupas quanto pela ideia de que seria prejudicial para a fertilidade.  As mulheres aristocráticas tiveram um papel ativo tanto na prática da equitação quanto em sua mudança, especialmente na criação de selas que permitissem cada vez maior liberdade da mulher na prática, até se tornar quase a mesma que a dos homens.

O hipismo em saltos aparece em 1912. As mulheres apenas começaram a participar na categoria em 1956. A demora na incorporação aparece como superior ao caso da esgrima, embora a história da equitação feminina seja talvez melhor conhecida que a da esgrima. Teriam as amazonas reivindicado sua participação com anterioridade ao seu reconhecimento sem êxito ou apenas a teriam reivindicado mais tarde do que as esgrimistas?

As modalidades de participação, profissional ou amadora, os mecanismos de financiamento, familiar ou via mercado, e as formas de reivindicação para participar talvez expliquem melhor a entrada das mulheres nos diversos esportes que a menção de preconceitos e de enunciados por vezes misteriosos ao poder.

Parecem bons tema para investimento de pesquisas.

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