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Os “sem-time” e as “ovelhas negras”

Qual a maior torcida do Brasil? Fãs de futebol cientes de levantamentos feitos anteriormente afirmariam, sem dúvidas, que é a do Flamengo, seguida de perto pela do Corinthians. No entanto, há uma outra “torcida”, oculta e maior que as nações rubro-negra e corinthiana: a dos sem time.  
Segundo pesquisa divulgada na semana passada pelo instituto “Paraná Pesquisas”, eles são 19,5% dos 10.500 entrevistados em 25 estados do entre março e dezembro deste ano. Os flamenguistas, consolidados na liderança do ranking desde os anos 1980, compõem atualmente 16,2 % do total.   
Após a divulgação desses dados, sites especializados em esportes publicaram artigos que associavam, em coro uníssono, a superioridade numérica dos “sem-time” à falta de gestão dos clubes, “incapazes de ampliar seu mercado consumidor no ‘País do futebol’, e que, por isso, não conseguem competir com a estrutura desenvolvida pelos gigantes europeus da bola”. Leia alguns deles: [1] [2]. 
Apesar do surgimento de uma nova geração de brasileiros entre 12 e 18 anos que possui uma cultura de torcer com fervor por clubes europeus, como descreve um artigo de Rafael Albérico, será esse incontestável fenômeno fruto do futebol globalizado/espetacularizado o único fato que comprova o atraso da gestão nosso futebol? Por esse motivo, um quinto do país não torce para times brasileiros?  
Seria interessante analisar se os percentuais daqueles que não torcem para time algum na Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha, Argentina e em outros países cujas ligas nacionais possuem destaque no cenário internacional se equiparam ao do Brasil. Por aqui, apesar dos 19,5%, esse índice está em queda na última década, mesmo com o encantamento crescente do brasileiro pelo futebol europeu, ou melhor, somente pelos grandes times europeus (Já experimentou assistir a um  “Leganés x Alavés” pelo campeonato espanhol?). No entanto encontrar levantamentos semelhantes sobre os “sem-time” não é uma tarefa fácil apesar da variedade atual de plataformas de informações. 
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Se analisados os últimos 10 levantamentos feitos pelo Datafolha sobre o tema, os “sem-time” sempre foram maiores do que qualquer torcida do país. Gráfico: Globoesporte.com
De fato, a administração não só dos clubes mas também da CBF está aquém do profissionalismo, da transparência e do bem-estar comum que um patrimônio cultural e democrático como o futebol exige. Há vários estudos que comprovam o quanto os clubes podem expandir suas marcas e mercados no país, sobretudo em produtos e serviços para as mulheres, cuja presença em estádios e em debates sobre o futebol tem crescido. No entanto, quanto “aos sem-time”, algo que parece ter sido desconsiderado nas análises é: até onde vai o limite da demanda pelo produto ‘futebol’ e seus derivados (camisas, outros produtos licenciados, programas de sócio-torcedor, audiência na TV e etc)?
Não importa o quão fanático um torcedor possa ser. Manifestar-se, em uma pesquisa de opinião, como torcedor de um time de futebol é ter, mesmo que minimamente, uma identidade com esse esporte e com um determinado clube. Essas pessoas sempre comporão um mercado consumidor em potencial, a ser explorado e que pode expandir-se graças ao momento do time dentro de campo, às estratégias de marketing e à própria paixão e fidelidade. O futebol não é uma ciência exata e possui exceções: existem apaixonados por futebol, mas que não torcem para nenhum time. Entretanto, a partir do momento em que não se declara identificação com nenhum clube de futebol, há, na mais otimista das hipóteses, um torcedor somente de uma seleção nacional de futebol, geralmente a de seu país de origem.
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Diversos grupos, como o “Maldita tela verde”, reúnem comunidades na internet de “sem-time” e que não possuem interesse algum pelo futebol.
Portanto, como é possível para um clube, por mais estruturado financeiramente que seja, expandir seu mercado e influência midiática para esse segmento, em tese, “não-torcedor” e que provavelmente, em sua maioria, não gosta de futebol e prefere outras modalidades? Mesmo sendo o esporte mais popular da Terra, o futebol não é unânime, seja na Inglaterra, onde ele foi supostamente criado, no Brasil, ‘A Pátria de chuteiras’, ou em qualquer outro canto do planeta, apesar das tentativas de espetacularização que estão cada vez mais sendo utilizadas nas partidas com o intuito de atrair e, ao mesmo tempo elitizar o público frequentador de estádios e arenas.
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