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Lembrando do Tri

O Sportv exibiu, na última sexta-feira, dia 25 de novembro, a partida completa entre Brasil e Itália, na final da Copa de 1970. O jogo foi recontado com uma narração atual de Jader Rocha e os comentários de Lédio Carmona. Os jornalistas estavam acompanhados do camisa 7 daquela seleção: Jairzinho, o Furacão da Copa. A iniciativa serviu para homenagear Carlos Alberto Torres, líder e capitão do Brasil naquela ocasião, que morreu há pouco mais de 30 dias.

A partida frequenta o imaginário de boa parte dos brasileiros que se interessam pelo esporte. Na imprensa ela é costumeiramente destacada como a melhor apresentação de um time de futebol em todos os tempos. A vitória por 4×1 consagrou aquele time e ratificou Pelé como um atleta acima de todos os outros.

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Carlos Alberto Torres no momento em que marca o gol que sela o tricampeonato mundial, em 1970. Aquela seleção é considerada por muitos o melhor time de todos os tempos. (Foto: site “Trivela”)

O livro “A memória da Copa de 1970”, escrito por Marco Antonio Santoro Salvador e Antonio Jorge Gonçalves Soares desconstrói de forma definitiva a ideia de que aquele time conquistou suas façanhas baseando-se apenas no talento dos seus jogadores. Ao iluminar o que foi esquecido e dialogar com as lembranças dos principais personagens, os autores mostram como algumas inovações científicas, junto com um relevante suporte teórico ajudaram a formar aquela grande equipe.

Tostão, camisa 9 do time de Zagallo, publicou recentemente o livro: “Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar sobre o futebol”. O ex-jogador, médico e professor aposentado e hoje cronista esportivo dedica uma importante parte da publicação a relatar suas memórias sobre a preparação e a conquista no México. Chama a atenção como o discurso de Tostão, de certa forma, se aproxima do texto dos professores Marco Antonio e Antonio Jorge. Tosão não cai na armadilha, que alguns de seus ex-companheiros não conseguem evitar, de valorizar apenas o talento e a técnica daquele time. Ele lembra como a preparação física, inovadora para a época, além das alterações táticas foram relevantes para o triunfo do “escrete canarinho”. A adaptação à altitude, os treinos físicos específicos, as opções táticas na formação da equipe feitas pela comissão técnica e algumas vezes alteradas pelos próprios jogadores e até o uso de um jogo de futebol de botão para demonstrar aos jogadores quais espaços eles deveriam ocupar são apontadas por ele como determinantes para a vitória.

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O então capitão do Exército e preparador físico Carlos Alberto Parreira ajudou a revolucionar a preparação física do futebol, em 1970. (Foto: Zeka Araújo)

A leitura dos dois livros é prazerosa pois de formas distintas ambos desafiam o lugar comum. Um deles faz isso reunindo uma robusta pesquisa acadêmica traduzida num conhecimento acessível totalmente respaldado em fontes verificadas com precisão. O outro conta uma história grandiosa de forma despretensiosa, em primeira pessoa, mas sem arrogância. Com a simplicidade dos craques.

Assistir à final de 1970 após ler esses dois livros ganhou novos contornos. Com mais informações para entender aquele jogo, ficou ainda mais saboroso admirar o espetáculo. As ponderações não diminuíram o tamanho daquela façanha. Ao contrário, tornaram-na maior e mais impactante. Além disso, perceber que a academia pode gerar reflexões que chegam até a maior parte da população é motivante. Prova disso é que durante a transmissão não foram poucos os momentos em que os jornalistas ressalvaram que, naquele time, o talento estava sempre respaldado por uma preparação eficiente.

Termino com o trecho emblemático do livro de Tostão:

“Foi uma grande seleção, considerada por muitos a melhor de toda a história, mas não era uma equipe perfeita. A perfeição não existe. Alguns jovens, influenciados pelos pais, falam da Seleção de 1970 com o mesmo fascínio de seus pais, como se tivesse visto as partidas ao vivo. Outros jovens, mais críticos, quando veem filmes daquela Seleção, acham que era muito lenta em relação ao futebol atual, o que é verdade, e que não era tão espetacular, o que discordo. Nelson Piquet falou, certa vez, que achava a Seleção de 1994 melhor que a de 1970. Sugiro que sejam apagadas todas as imagens, para que fique a ilusão, o mito, de que a Seleção de 1970 foi perfeita”

*A única correção que gostaria de propor ao craque Tostão é a seguinte: não ganharíamos mais apagando as imagens do 7×1 de 2014 e deixando a transmissão de 1970 intacta?

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