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Os Jogos Olímpicos de 1920: um episódio da rivalidade Rio/São Paulo

“Mais do que em S. Paulo agita-se agora no Rio a questão da nossa participação ou não á grande olympiada que em agosto deste 1920 commemorá a paz, em Antuerpia na Belgica. Essa agitação vem de um convite que recebemos para nos fazer representar nessa grande reunião sportiva e vem também de um facto de psychologia muito característico da mentalidade carioca. É que aos ‘sportsmen’ do Rio tudo que lhes cheira a pagodeira, a festança e bamburrio logo lhes incendeia a imaginação. Iniciado esse incêndio há uma completa obleteração do senso critico. Dizem os cariocas que o que querem é…gozar. Para que essa historia de preparo, de treino, de esforço methodico, lento e progressivo. Dá tanto trabalho, custa tanto esforço e cansa tanto a intelligencia. Aqui em São Paulo encara-se a questão seriamente”. (Correio da Manhã, 23/01/1920, p. 5).

O trecho acima, publicado originalmente na Gazeta de SP, tratava dos esforços visando a participação brasileira nos Jogos da Antuérpia-1920. O articulista paulista opunha o que seriam as opiniões compartilhadas pelos esportistas (atletas, dirigentes e jornalistas) do Rio de Janeiro e pelos de São Paulo.

Antes de adentrar nessa briga, é importante situarmos o episódio que ocupava e preocupava a imprensa esportiva carioca e paulista no começo da década de 1920. A Olimpíada de 1920 era a primeira ser realizada depois da Primeira Guerra Mundial. Tendo como sede a Bélgica, um dos principais países afetados pela guerra, os Jogos carregavam o simbolismo da superação europeia e da resiliência do povo belga. Não à toa, o evento era chamado pelos jornais da época de “Olimpíadas da Paz”. O Brasil, que fundara seu Comitê Olímpico em 1914 para participar dos Jogos de 1916, estava ansioso para debutar nas Olimpíadas. O COI e o governo belga também viam com bons olhos a participação da maior nação da América Latina. Em 1914, o processo de reconhecimento de nosso Comitê Nacional fora largamente apoiado pelo próprio Pierre de Coubertin, que cobrara de Raul do Rio Branco, ministro brasileiro na Suíça, um envolvimento mais direto na constituição da referida instituição. Em 1920, os belgas enviaram ofício convidando formalmente os atletas brasileiros a estarem representados nos Jogos de 1920.

Dito isso, temos de tentar identificar alguns dos motivos da rixa entre cariocas e paulistas em torno da delegação brasileira que iria aos Jogos de 1920. No Rio de Janeiro, estavam sediadas as duas principais instituições que cuidavam da preparação da delegação brasileira: a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Na então capital federal, era, de fato, grande o burburinho da mídia em torno da primeira participação olímpica brasileira. As narrativas jornalísticas mesclavam entusiasmo, curiosidade e certa dose de apreensão diante dos Jogos de 1920. A pressão realizada pelos jornais ia muito mais em direção da viabilização da participação brasileira em si do que do treinamento e dos resultados que poderíamos obter nessa competição internacional.

Em São Paulo, contudo, como se pode depreender das palavras do jornalista da Gazeta, buscava-se, em primeiro lugar, cotejar os resultados brasileiros com o dos demais atletas sul-americanos. Ou seja, adotava-se um método que seria mais racional, em oposição ao apelo emocional que seria predominante entre os cariocas. Além disso, o sucesso brasileiro era esperado apenas em alguns esportes, notadamente, no futebol e nos esportes aquáticos (remo, polo e natação), porém não nas diferentes modalidades do atletismo. Esses prognósticos, deve-se dizer, eram compartilhados também pela imprensa carioca. Em São Paulo, no entanto, parecia existir um interesse maior ou igual pelos nossos próprios jogos olímpicos, a ser realizados por ocasião do centenário da Independência, em 1922. Outros textos, publicados por jornais do Rio e de São Paulo, guardavam divergências sobre o real estado do campo esportivo nas duas cidades, o que alimentava a rivalidade existente. A mídia carioca valorizava os atletas da capital federal, e a mídia paulista fazia o mesmo pelos seus conterrâneos.

Na continuação do texto, o jornalista alfinetava também a CBD, que, apesar de ser uma entidade nacional, parecia não estar apartada das picuinhas envolvendo as burocracias locais. Dizia ele que “sendo a nossa representação dirigida pela Confederação, ella não deixará de encartar entre nossos athletas quantos meninos bonitos do Fluminense e do Botafogo lhe merecem o favor de uma viagem de recreio á Europa. Muito athleta de valor ficará literalmente a ver navios, somente pela nefanda culpa de ser paulista. E ainda por isso o nosso fracasso ficará seguramente garantido”. Fica evidente o que seria uma predileção da CBD por incluir na delegação olímpica brasileira atletas de origem carioca.

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Os conflitos entre as imprensas paulista e carioca também se deram nos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro. A capital fluminense sempre obteve a preferência nas candidaturas brasileiras à sede das Olimpíadas e de outros eventos esportivos, como a final da Copa do Mundo. Foi possível perceber um posicionamento muito mais crítico em veículos paulistas, como a “Folha” e o “Estadão” do que no “O Globo”, por exemplo.

A rivalidade existente entre Rio e São Paulo, escancarada pelo referido artigo de opinião, penetrava, assim, na esfera das relações formais entre as instituições que cuidavam do esporte nas duas cidades. No início de 1920, a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (RJ) e a Associação Paulista de Sports Athleticos (SP) estavam com suas ligações interrompidas. A querela só pôde ser resolvida com a intervenção pessoal do presidente da CBD, Major Ariovisto Rego, durante uma reunião da entidade no Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 1920. Clamando pela unidade em torno da participação brasileira nos Jogos da Antuérpia, Ariovisto conseguiu reconectar as duas instituições.

Muito mais poderia ser dito em torno das desavenças envolvendo cariocas e paulistas quando o assunto era a organização esportiva nacional no começo do século XX. Por ora, relato apenas esse episódio. Outros mais poderão aparecer, frutos da pesquisa de Doutorado que desenvolvo no momento. Quem se interessar, pode acessar outros textos relacionados à história do olimpismo nacional no meu Lattes ou no meu perfil no Academia.edu.

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