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E agora, Michel?

Desde que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas e Paralimpíadas de 2016, vivemos uma grande expectativa sobre os impactos que essas duas competições esportivas iriam trazer para o país. O anúncio de que o Brasil receberia a Copa foi feito no dia 30 de outubro de 2007. Dois anos depois, em outubro de 2009, o Rio de Janeiro superou Madri, Tóquio e Chicago, e foi escolhido como sede dos jogos olímpicos. De lá pra cá, vivemos a espera por esses dois megaeventos sempre recheada de dúvidas e desconfianças. E agora com o fim desse ciclo, será que valeu a pena? A sociedade e o esporte brasileiro conseguiram aproveitar essas oportunidades?

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Antes do Brasil, somente México, Alemanha e Estados Unidos conseguiram sediar em apenas 2 anos – diferença mínima de tempo entre Copa do Mundo e Jogos Olímpicos – os maiores eventos do planeta. As imagens de Blatter, à época presidente da FIFA, e Jacques Rogge, então presidente do COI, apontando o Brasil como a próximo destino do esporte mundial contagiaram o país. Mas agora, com a ‘crise do saudosismo’ em voga, o que teremos pela frente? Fotos: Veja.

É evidente que não é possível responder a essas perguntas de forma superficial. Muitas questões estão envolvidas. No entanto, acho que individualmente vivemos experiências positivas. Mas pensando no coletivo, fracassamos. No individual, vários atletas se beneficiaram de programas de alto rendimento. Quem participou das festas no Rio e nas cidades que sediaram a Copa também vai carregar uma lembrança feliz. Sem falar nos que organizaram a festa. Quem tinha a chave do cofre tanto nas organizações públicas quanto privadas, sem dúvida nenhuma lucrou. Infelizmente.

Já para a coletividade, acredito que tenha sido uma oportunidade praticamente desperdiçada. Apesar de algumas mudanças importantes, como as reformas de aeroportos e algumas tímidas intervenções urbanas, o sentimento é de que poderia ter sido feito mais. Em vários momentos, o discurso oficial foi de que os dois eventos poderiam provocar uma transformação definitiva no Brasil. Isso não aconteceu.

É verdade que reformamos um grande número de estádios e ganhamos novos equipamentos esportivos. A suspeita sobre a corrupção e o desvio de recursos públicos são uma mancha que teremos que carregar. Além disso, houve uma outra transformação. Com novas instalações, um novo grupo de pessoas foi convidada a frequentar os estádios. Com ingressos muito caros e uma noção de que tudo ali é “apenas entretenimento”, está sendo mudado o perfil dos torcedores no país. Particularmente, acredito que esse seja o nosso pior legado. Uma parcela importante da população brasileira está sendo alijada das arquibancadas, o nosso jeito de torcer está sendo massacrado por uma nova torcida passiva e que sabe apenas cobrar ao invés de apoiar as equipes. E o resultado disso tudo é tão ruim que os estádios ficam cada vez mais vazios.

Nossos atletas olímpicos de ponta viveram uma década privilegiada. Foram construídos novos centros de treinamento e houve um investimento significativo na preparação para o jogos. Resta saber se isso será mantido. Tudo indica que não. Seria fundamental também, manter os investimentos feitos para a manutenção dos centros de treinamento de alta performance que foram criados. Por outro lado, não houve um incentivo real para a massificação dos esportes ou um estreitamento das políticas esportivas com as políticas educacionais.

O cidadão comum festejou. Foi prazeroso, divertido e emocionante acompanhar as competições esportivas no quintal de casa. Durante os eventos tudo aconteceu dentro de relativa normalidade. O poder público conseguiu viabilizar a realização das competições e os turistas estrangeiros, em geral, saíram com a uma imagem positiva do país. A sensação de dever cumprido gerou alguma satisfação e pode ter melhorado a autoestima da população. Mas o custo disso foi alto. O morador do Rio de Janeiro, em especial, conviveu por dez anos com obras ininterruptas. Ao mesmo tempo que elas mudaram a cara da cidade em alguns pontos, trouxeram muito sofrimento para famílias que foram tiradas de suas casas. Se o Brasil não deu o salto de infraestrutura que se esperava, ao menos conseguiu eliminar alguns gargalos. Mas é preciso lembrar também que inúmeras construções estão inacabadas pelo país, com canteiros de obras parados evidenciando que muito dinheiro foi jogado fora pelas administrações municipais, estaduais e federal.

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Vila autódromo, vizinha ao Parque Olímpico da Barra da Tijuca, foi foco de resistência contra o planejamento das autoridades brasileiras para os Jogos Olímpicos de 2016 e expôs os paradoxos do megaevento. Foto: Agencia Brasil/EBC.

 

Durante a última década convivemos com uma imprensa que oscilou na avaliação dos acontecimentos. Em alguns momentos, criticava exaustivamente os gastos públicos com as obras exigidas pelos comitês organizadores. Em outros fechava os olhos para os abusos cometidos contra a população mais pobre. No fim, tentou estimular a participação da população brasileira e realizou uma cobertura, via de regra, rasteira sobre o que acontecia no entorno das competições. A impressão era a de que a mídia não queria, em momento nenhum, desvalorizar o produto que exibia e pelo qual pagou caro para comprar os direitos de transmissão.

Na população também nunca houve consenso se estávamos ou não diante de uma oportunidade de ouro. A verdade é que o país viveu o sabor de uma grande expectativa. E agora não sabe pelo quê deve esperar. Talvez queiramos um novo motivo para acreditar que as coisas podem melhorar. Precisamos de uma nova utopia para voltar a sonhar. No momento, o pesadelo de uma ruptura da democracia como a que acabamos de presenciar só deixa a certeza de que quem governou o país até aqui cometeu uma sucessão de erros imperdoáveis, mas não há nenhuma esperança de que um governo ilegítimo comandado por Michel Temer tenha a capacidade corrigi-los.

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Passada a empolgação natural proporcionada pelos Jogos, a realidade de um país cuja democracia foi abalada com a chegada ao poder de um presidente e de um grupo político pouco representativo na sociedade. Foto: Mídia Ninja

O melhor da festa não foi esperar por ela. Apesar da festa ter sido boa, a espera custou caro. E a ressaca parece interminável.

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