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A arquibancada é o lugar mais alto do podium na Rio-2016

A América do Sul, nos anos 1980 e 1990, sofreu os efeitos das mais cruéis mazelas sociais, políticas e econômicas. Os anos 2000 vieram, a desigualdade na região diminuiu significativamente – não ao ponto de estarmos satisfeitos-, mas avançamos o suficiente para entrar no mapa da confiança global e dos grandes eventos. O Brasil, por conta de sua estrutura econômica em 2009 (maior PIB da América Latina e que se aproveitava de um período de alta no preço das commodities), reunira pela primeira vez as condições para a realização de um sonho: sediar os Jogos Olímpicos.

Do anúncio do ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, em 2 de outubro de 2009, que coroou a “Cidade maravilhosa”, como “Olímpica” também, até às vésperas do pontapé inicial das competições, polêmicas surgiram (algumas delas sensacionalistas, outras, porém, justificáveis), a incompetência das autoridades e da organização em questões como legado e sustentabilidade foram evidentes e os custos, alvo de indignação e suspeitas. O Rio de Janeiro, porém, chegou lá e mostrou sua criatividade, acertos e carisma nesta grande festa mundial. A cerimônia de abertura foi metáfora de tudo isso.

Com as competições rolando, a preocupação com o conforto e a segurança de todos os envolvidos nos Jogos (atletas, voluntários e torcedores e dirigentes) é constante. No entanto, é a vez do espírito olímpico, mesmo que instrumentalizado por interesses políticos e econômicos, bater no peito e fazer sua parte nesses 18 dias de congraçamento entre os povos.

Apaixonado por esportes desde pequeno, vibrei demais com as realizações da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no Brasil. Carioca da gema, não deixei o gol, o ponto, a cesta, o sprint, ou o qualquer que seja, escaparem. Garanti minha medalha, ou melhor, meus ingressos para esses momentos únicos. Nas Olimpíadas, fui, nesta semana à cerimônia de abertura, à uma partida da 1ª fase do vôlei feminino e contarei, a partir da minha experiência de espectador, o que presenciei nestes eventos.

05 de Agosto: Bem-vindo à magia dos Jogos, Rio!

Maior momento das Olimpíadas, a abertura tem a missão de mostrar o país-sede ao mundo. Com 10% dos custos da cerimônia de Londres-2012, o pontapé inicial e oficial foi, 4 anos depois, mais simples, porém que não deixou de ser emocionante, lindíssimo e em perfeita sintonia com o seu objetivo final: fazer mais com menos. A sustentabilidade foi protagonista do espetáculo e propagou sua mensagem para uma audiência de 3 bilhões de pessoas. Nada mais midiático!

Se o espetáculo da cerimônia de abertura, em si, encantou a opinião pública, sua organização ficou devendo em alguns aspectos:

Na chegada ao Maracanã, um idoso americano demonstrava nítido cansaço nos acessos do estádio e pediu-me para buscar alguém da organização que pudesse providenciar uma cadeira de rodas. No entanto, as cadeiras estavam disponíveis apenas dentro do estádio. E o já conhecido empurra-empurra entre guardas-municipais, bombeiros e voluntários aconteceu mais uma vez.

Após uma rigorosa checagem por detectores de metais e máquinas raio-x que, no entanto, não gerou enormes filas, os próximos passos dos espectadores eram a apresentação e validação, por scanner, dos ingressos. Os meus tickets foram comprados através do site oficial de vendas da Rio-2016 no domingo anterior à cerimônia de abertura e retirados na terça-feira (02/08) em uma bilheteria do Maracanã. Mesmo sendo oficiais, os ingressos foram rejeitados pelos scanners portados por voluntários nas catracas. Em seguida, fui direcionado à bilheteria, onde novos ingressos foram emitidos, mas o problema persistiu. A oportunidade de presenciar, in loco, um momento histórico estava em risco. Mesmo diante do impasse, minha entrada foi autorizada por membros da Força Nacional de Segurança.

Antes mesmo do início da cerimônia de abertura, lanchonetes proximas ao meu assento na arquibancada já enfrentavam desabastecimento de alimentos, como hambúrgueres e hot-dogs. Até o final do espetáculo, 4 horas depois, alguns itens ainda estavam em falta.

Em 2007, na cerimônia de abertura dos Jogos Panamericanos, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, quebrou o protocolo e os declarou abertos, com o intuito de evitar vaias ao, à epoca, presidente Lula, ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito César Maia. A atribuição de declarar a abertura de megaeventos esportivos é exclusiva ao Chefe de Estado. Nove anos depois, o constrangimento era inevitável por conta da instável situação política do Brasil, mas a organização tentou evitá-lo a todos os custos com uma estratégia polêmica.

Nuzman, ao terminar seu discurso, não anunciou o pronunciamento de Michel Temer, e os telões do Maracanã permaneceram exibindo a imagem do presidente do COB e do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de 2016 enquanto o presidente interino falava suas breves palavras. Por isso, muitos não perceberam o momento do pronunciamento de Temer. Seria essa uma tentativa de evitar vaias? Se foi, não deu certo.

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06 de Agosto: a felicidade das “pequenas” coisas.

No dia seguinte à abertura das Olimpíadas de 2016, compareci ao Maracanazinho para a partida entre Rússia e Argentina, válida pela 1° fase do torneio de vôlei feminino. Confesso minha frustração ao sair de casa em direção ao ginásio: desejava intensamente assistir à seleção brasileira feminina atuando em sua saga pelo tricampeonato olímpico. Não foi possível, e, novamente, algumas falhas da organização ficaram nítidas em relação à alimentação: enormes filas nas lanchonetes antes do jogo, no intervalo entre os sets e enquanto a bola estava no alto faziam a espera dos torcedores chegar a até 35 minutos, o equivalente à duração de um set inteiro, disputado e em 25 pontos.

Pelas informações contidas no ingresso, ainda teria direito a assistir a outra partida logo após Rússia x Argentina, entre Servia e Itália, prevista para as 22:30hs. Mas como isso seria possível para alguém dependente de um metrô que, em plena Olimpíada, encerra duas atividades na linha 2 à meia-noite? Ficou clara a falta de planejamento entre os horários de término das competições e os de expediente dos serviços de transporte do Rio de Janeiro; uma das principais críticas dos torcedores.

Apesar desses problemas e do jogo ter sido facilmente vencido pelas russas, a experiência de ter presenciado a partida foi fantástica. Ela representou muito do espírito olímpico. O time argentino apresentava serias deficiências técnicas, faltva entrosamento, mas a torcida, brasileira em sua maioria nas arquibancadas, o apoiou. A cada set, as argentinas ganhavam confiança. A derrota era inevitável, mas foi um privilégio ver o primeiro ponto da seleção argentina feminina de vôlei na história dos Jogos Olímpicos. Um time que encarou, de cara, vice-campeãs olímpicas e bicampeas mundiais. Histórico. Inspirador.

Independentemente se, daqui a algumas décadas, a Argentina se tornar uma potencia olímpica ou não na modalidade, a equipe que vi jogar no último sábado será motivo de orgulho pelo pioneirismo. Michael Phelps, detentor de 26 medalhas em Jogos, sendo 22 delas de ouro, que me perdoe, mas essa história é tão marcante quanto o brilho de suas conquistas. São histórias como a da seleção de vôlei feminino da Argentina, dos refugiados competindo pela primeira vez nas Olimpíadas e tantas outras que merecem também o lugar mais alto no pódio dos exemplos capazes de inspirar as próximas gerações.

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Na próxima semana, estarei presente na semifinal do futebol feminino – tomara que nossas meninas estejam em campo – e na grande final do revezamento 4×100 no atletismo. Aguarde: vêm muito mais emoção e inspiração!

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