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Olimpíadas e política: inseparáveis

Independentemente do país e da cidade, mais especificamente, responsáveis por organizar um grande evento esportivo, como os Jogos Olímpicos, as críticas em relação aos custos de sua realização e ao megaevento em si são latentes quando a população local é consultada em pesquisas de opinião (levantamento do IBOPE divulgado esta semana apontou que 60% dos entrevistados acreditam que as Olimpíadas trarão mais prejuízos do que benefícios). Entre as reações pessimistas, a que associa o esporte à alienação é a mais dura.

Apesar de ser perceptível na mídia local o direcionamento massivo às coberturas desses eventos, como ocorreu em 2014 na Copa do Mundo e assim está sendo nos Jogos Olímpicos de 2016, o que contribui para a construção da visão sobre o Brasil e o Rio de Janeiro, embora momentânea, moldada na harmonia, festa e euforia, não há como dissociar os megaeventos da política e da realidade socioeconômica de suas respectivas cidades-sede.

Por conta de sua grandiosidade econômica e midiática adquirida no mundo globalizado, os megaeventos esportivos transformaram-se em uma grande vitrine, capaz de escancarar a nivel mundial mazelas e contradições, mas também pautar debates construtivos, alguns inéditos, sobre os mais variados temas. Um deles ocupa um espaço de protagonismo desde o final do século XX, sendo também uma das principais exigências do Comitê Olímpico Internacional para aceitar candidaturas de  cidades aspirantes a sede das Olimpíadas: a sustentabilidade.

Há 24 anos, pela primeira vez, uma entidade esportiva acompanhou as negociações entre as lideranças mundiais da época assim como as mesas de debate sobre meio-ambiente e mudanças climáticas. Foi durante a ECO-92, conferência das Nações Unidas realizada no Rio de Janeiro, quando o COI enviou representantes; sinal dos novos tempos e tendências que norteariam em um futuro não tão distante as relações entre esporte, política, economia e cultura.

Hoje, as preocupações acerca dos impactos ambientais causados pelos megaeventos esportivos e as tentativas para atenuar ao máximo tais efeitos nocivos crescem na mesma proporção. A pegada de carbono dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos (o total de emissões de um dos principais gases catalisadores do aquecimento global, durante os últimos 7 anos de preparação, desde a escolha do Rio de Janeiro em 2009) está  estimada em 4,5 milhões de toneladas de CO2, segundo estudos do Comitê Rio-2016. E a busca pela descarbonização passou a ser regra entre os responsáveis pelo legado e sustentabilidade no Comitê.

Com a finalidade de aprofundar o debate e compartilhar experiências bem-sucedidas de gestão ambiental foi promovido nesta quinta-feira, no Museu do Amanhã, o seminário “Mudanças climáticas: o que os Jogos Olimpícos tem a ver com isso”. O ciclo de palestras contou com a presença de autoridades, como o ministro do meio-ambiente José Sarney Filho, representantes do Programa das Nações Unidas para o Meio-ambiente (PNUMA), da ONG SOS Mata Atlântica, do Observatório do Clima, do Banco Mundial e dos comitês  organizadores dos Jogos de Vancouver-2010, Londres-2012 e Rio-2016.

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Representantes de empresas, entidades ambientais e do Comitê Rio-2016 fazem campanha, no Museu do Amanhã, pelo combate à  elevação da temperatura média global.

A tarefa de realizar os Jogos Olimpícos “mais limpos possíveis” é desafiante e complexa. Requer uma organização praticamente perfeita em logística além de revisões e mais revisões para eliminar qualquer consumo, e consequentemente emissão de CO2, desnecessários, desde a alimentação de voluntários, atletas e torcedore até a utilização de materiais para a construção das arenas. No entanto, é uma oportunidade única para aproveitar a repercussão e a visibilidade de bilhões de expectadores dos Jogos e divulgar novas inovações do setor; um caminho sem volta na organização dos megaeventos. A responsabilidade socioambiental é pre-requisito para o sucesso de qualquer projeto no mundo corporativo atual. Apesar dos esforços empreendidos e dos resultados já obtidos, o fracasso da despoluição da Baía de Guanabara fez, na modalidade “sustentabilidade”, o Rio de Janeiro ficar de fora do pódio.

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Problemas na Baía de Guanabara mancharam a imagem da organização da Rio-2016. Despoluição seria a longo prazo, mas discursos políticos prometeram o que era inviável.

Na onda do otimismo criado pelo inesperado Acordo de Paris, firmado por mais de 195 países durante a conferência do clima na capital francesa em dezembro de 2015 e cuja meta principal é evitar que a Terra não tenha, até o final deste século, sua temperatura média elevada em 1,5°C, o COI também deseja fazer valer seu programa socioambiental. A já aprovada “Agenda 2020” irá reformular significativamente a organização das Olimpíadas a partir, mais precisamente, da escolha da sede de 2024. Seu foco será direcionado cada vez mais para o barateamento de custos sem a perda da eficiência, através da funcionalidade da estrutura montada para as competições e da utilização de instalações já existentes, em oposição ao estilo faraônico da edição de Pequim em 2008. A intenção é reduzir ao máximo os impactos causados pelos Jogos sobre a rotina da cidade-sede.

Todos esses conceitos e propostas só estão presentes de maneira mais intensa em  debates no Rio de Janeiro por conta da realização das Olimpíadas e Paralimpíadas na cidade. Sem elas, os problemas relacionados à despoluição da Baía de Guanabara, por exemplo, não ganhariam tamanha repercussão e não exerceriam, por sua vez, tamanha cobrança sobre a classe política e os órgãos encarregados do mal-sucedido projeto. Cada sede de Jogos Olímpicos possui suas peculiaridades na organização e também no que diz respeito às polêmicas. À medida que aumenta a expectativa com a proximidade das competições, o debate se intensifica em busca de soluções talvez nunca antes tratadas com a devida prioridade.

Uma Olimpíada, porém, não tem o poder de resolver todas as deficiências de uma cidade. Muitas vezes, superestima-se a capacidade dos Jogos em reinventar modelos de cidade. Discursos políticos desconectados da realidade e com viés de marketing eleitoral nos enganam. Mas megaeventos atraem oportunidades de variados tipos: as que envolvem a sustentabilidade são apenas uma amostra do quanto de idéias e investimentos podem ser aplicados a médio prazo em uma cidade-sede, ainda mais em países emergentes. Mesmo após os dias de competição, a “cidade maravilhosa” continuará partida. Se nossas expectativas em relação a uma metrópole desenvolvida de modo mais sustentável e igualitário não se confirmam, pelos mais variados motivos, não são ao esporte, ao descaso aos esforços de atletas e ao evento em si que devemos endereçar nossa indignação.

Acompanhe a íntegra do debate clicando nos vídeos:

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