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Rogério, me cale!

Quando entrar em campo no próximo dia quatro diante da África do Sul, a Seleção Brasileira masculina de futebol vai ter a chance de começar uma saga que pode dar o inédito ouro olímpico ao país. Mais do que isso, o time de Rogério Micale terá a oportunidade de se reaproximar do torcedor. A equipe, que ao longo de cem anos foi solidificada como um dos principais instrumentos de unificação nacional, convive hoje com uma queda de identificação entre os brasileiros.

Já não sofremos as derrotas como em outros tempos. Lembro-me de chorar após a dança de Kanu na derrota na morte súbita de Atlanta-1996. Era um período após o tetra, nos mesmos Estados Unidos onde foram os Jogos. Estávamos entusiasmados com a consolidação do menino Ronaldinho – que se tornaria “Fenômeno” tempos depois – como o sucessor de Romário. Ufanistas com as ruas e bandeiras em verde e amarelo.

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Em Atlanta-1996, a seleção olímpica da Nigéria, comandada pelo atacante N.Kanu, venceu o Brasil nas semifinais e chegou pela primeira vez a uma final olímpica no futebol masculino, vencendo, posteriormente, a Argentina na decisão. Foto: Getty images.

Vinte anos mudam muita coisa. Muda o Jornalismo. Mudam as coberturas. O tempo real da internet, com o mundo em noticiários diversos, nos permite criar percepções distintas sobre um mesmo fato. A globalização nos abriu novas possibilidades de afinidades. Nossa sensação de pertencimento a uma única seleção, a brasileira, vai diluindo. Esta hipótese é apontada por autores, como Ronaldo Helal e Antônio Jorge Soares (2004). No texto “O Declínio da Pátria de Chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002”, os pesquisadores sugerem que elementos como a globalização e a diminuição da representação dos Estados-nações, o êxodo de craques para o exterior, entre outros fatores teriam afastado a torcida do time que simboliza o seu país. Esse sentimento teria sido fortalecido a partir dos anos 1990.

A verdade é que, desde 2002, temos picos de aproximação – como as Copas das Confederações de 2005 e 2013 – com uma maioria de afastamento. Até mesmo o olhar da imprensa não é o mesmo na cobertura das derrotas. Pesquisei sobre isso na minha tese de doutoramento em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e que, agora, vai virar um livro: “Maracanazo e Mineiratzen: Imprensa e Representação da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1950 e 2014”. Nele, analiso como os mesmos jornais impressos modificaram o tratamento em relação às derrotas do selecionado. Se em 1950, tínhamos um sentimento de tristeza predominante, o país inteiro tinha perdido para o Uruguai, em 2014, vexame e deboche são as construções discursivas majoritárias. Amenizamos o 7×1 para a Alemanha pela ironia. A vergonha é dos atletas, não minha.

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A mudança de abordagem feita pela imprensa brasileira nas recentes derrotas da seleção – da tristeza para a ironia – mostra, sob uma perspectiva mais ampla de análise, o enfraquecimento de identidades nacionais, intensificado pela globalização.

Reforçado pelas péssimas atuações nas competições que vieram a seguir – Copas América e Eliminatórias – e já com uma troca de treinador em menos de dois anos, acredito que hoje, a relação do torcedor com a Seleção Brasileira está muito estremecida. Não venha me dizer que isso é algo inerente a todas as seleções. Acabamos de ver uma Eurocopa com torcidas que marcaram pela paixão ao seu país.

Contudo, temos os Jogos do Rio-2016 pela frente. Um time com um ataque talentoso e apenas Neymar como remanescente da Copa de 2014. E mais: com o comando de um técnico que estava fora dos holofotes da grande mídia, mas que faz um bom trabalho nas seleções de base, como o vice-campeonato mundial sub-20. O treinador que assumiu às pressas, 20 dias antes daquele torneio, em maio do ano passado, foi confirmado pela CBF nas Olimpíadas após a chegada de Tite. Rogério fez um trabalho que teve um calendário de jogos espelhado no da seleção principal. De lá pra cá, são 11 vitórias, 3 empates, 4 derrotas que vão desde a final do sub-20 para a Sérvia, por 2×1, até amistosos como o 1×0 para a Nigéria.

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Rogério Micale possui um vasto e vitorioso currículo em categorias de base de clubes brasileiros. Pela seleção, chegou ao vice-campeonato do Mundial Sub-20, após ter assumido o cargo às vésperas do início do torneio, e o bronze nos Jogos Panamericanos de Toronto, ambos em 2015. Foto: CBF

Parece um bom nome, com ideias que são fruto de muito estudo. Foge do estilo do técnico medalhão consagrado. Tem uma leitura interessante das partidas e geralmente suas equipes têm um padrão de jogo ousado e atraente. Gosta do “jogo bonito”, se é que podemos dizer assim. Foi coerente na convocação, e terá que lidar com um Neymar que não sabemos qual: o craque de 2013 ou o mimado de 2015?

Se conseguir implantar um estilo ofensivo, aproveitando do carisma de nomes como Gabriel Jesus, Renato Augusto, Prass e o próprio Neymar; se conseguir não se abalar com fantasmas de Maracanzo e Mineiratzen e se impor em casa; se colocar a medalha dourada no peito no dia 20 de agosto, Rogério reaproxima os torcedores da Seleção e cala os discursos de que a “amarelinha” não importa mais.

Referências:

BRINATI, Francisco Ângelo. Maracanazo e Mineiratzen: Imprensa e Representação da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1950 e 2014. 2015. 260 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.

HELAL, Ronaldo; SOARES, Antonio Jorge G. O Declínio da Pátria de Chuteiras: imprensa, futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002. In: PEREIRA, Miguel; GOMES, Renato Cordeiro; FIGUEIREDO, Vera Lucia Follain de. (Org.). Comunicação, Representação e Práticas Sociais. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2004, v. 1, p. 257-277

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