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O épico, o trágico e o espetáculo, no “adeus” de Messi.

Em 113 jogos pela Argentina, Messi fez 55 gols [1], o que pode ser considerada uma excelente média, sobretudo considerando que o jogador ainda teria uma longa trajetória futura na seleção do país onde nasceu. Digo teria, porque após a derrota da Argentina para o Chile, na final da Copa América Centenário, Messi afirmou que sua história com a seleção havia chegado ao fim. Essa declaração transformou em detalhe a segunda e consecutiva perda de título da Argentina, que completou um jejum de 23 anos sem títulos.

Em 2015, a derrota para o Chile foi recebida por parte da imprensa portenha como resultado de um futebol de baixo nível apresentado pela seleção. E um dos principais periódicos, o Olé, depositou sobre Messi o peso da derrota ao fazer o trocadilho Mession imposible.

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Primeira página do diario esportiva da Argentina “Olé” no dia seguinte à derrota para o Chile na decisão da Copa América de 2015. Fonte: Charla Tecnica.

Em 2016, o diário Olé na véspera da final da Copa América Centenário estampou em sua capa “Hoje não podemos perder”, frase com tom de ameaça, o que indicava que caso a seleção não ganhasse do Chile, o jornal seria implacável. E de fato, a Argentina não consegui o título de campeã. Porém, o periódico preferiu dar atenção ao sofrimento de Messi diante de seu quarto vice-campeonato jogando pela Argentina. É certo que no futebol chorar faz parte do que Marcel Mauss chamou de expressão obrigatória dos sentimentos. Porém, expressão de sentimentos não é o forte de Messi, jogador que, por exemplo, se nega deliberadamente a cantar o hino nacional, que pouco ri e raramente chora.

Mais importante que a derrota, o Olé preferiu pedir que Messi não deixasse a seleção.

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Primeira página do “Olé’, no dia da final entre Argentina e Chile (26/06/2016). Fonte: Globo Esporte.

 

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Primeira página do “Olé” em dia 27/06/2016. Fonte: Esporte UOL.

 

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Primeiras páginas do Clarín (à esq.) e La Nación (à dir.). Fonte: Fotos públicas.

Apesar de não se adequar ao perfil de líder e ter um comportamento diametralmente oposto a Maradona, Messi é frequentemente representado como alguém cujas habilidades pertencem à ordem divina ou a forças extraterrestres. A manchete do Olé para a vitória da Argentina sobre os EUA dizia “Houstoun bajó un Marciano” em referência a atuação do jogador que levou os argentinos à final da competição. Esse mesmo periódico ao longo de alguns anos já havia chamado o jogador de rei e gênio, seguindo a tendência de diversas outras publicações esportivas ao redor do mundo. Essas representações são fundadas no ótimo futebol do jogador, que com seus 29 anos foi eleito cinco vezes o melhor do mundo. Pelo Barcelona, clube em que atua, marcou mais de 500 gols e por ele conquistou todos os títulos possíveis.

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“Olé” repercute a classificação da Argentina para a final da Copa América Centenário. Houston foi o palco da semifinal entre Argentina e EUA, a cidade americana é a sede da Agencia espacial dos EUA, a NASA. Por todos esses aspectos, o trocadilho feito pelo jornal.    Fonte: Sportéxitos.

Trata-se de um perfil adequado ao herói épico que Messi costuma encarnar, em especial atuando pelo clube Catalão. A esse tipo não cabem falhas, mas, ao contrário, sua simples presença é sempre percebida como fundamental ao triunfo de uma comunidade. Aquiles e Ulisses são exemplares nesse aspecto. Ambos perseguem o triunfo, seja pela força no caso de Aquiles, seja pela astúcia no caso de Ulisses, e o triunfo parece ser parte inalienável de suas trajetórias, os acompanhando mesmo após a morte. Em suas ações há poucos vestígios de mundanidade. E é assim, como alguém que está acima da média humana, que Messi costuma ser representado.

Porém, após mais uma derrota, Messi desabafou dizendo que a seleção Argentina “Não é para mim”. Essa frase chama atenção porque indica que Messi chegou à conclusão de que na seleção argentina seus caminhos estão fechados para a glória. Sua origem divina ou extraterreste, portanto, teria um limite. Jogando pela seleção Messi não consegue os mesmos elogios que têm quando atua no Barcelona e não consegue algo fundamental: a conquista de títulos. Para tornar tudo mais difícil, dias antes da final da Copa América Centenário, o mundo comemorava os 30 anos do histórico jogo Inglaterra 1 x 2 Argentina, em que Maradona foi personagem central.

Deixar a seleção poderia ser considerado um gesto de desistência, o que contraria diversos discursos em torno do esporte e da imagem do atleta herói, discursos que pregam a necessidade de lutar sempre contra todos os obstáculos.

Deixar a seleção, também, poderia ser compreendido como uma atitude derivada do contexto de um futebol globalizado em que as seleções nacionais não têm o mesmo papel central de outrora. Por esse prisma, Messi poderia confirmar a desconfiança quanto a sua falta de apego à identidade argentina e assim ser considerado uma espécie de traidor.

Porém, grande parte da imprensa argentina e vários torcedores viram no gesto de Messi a sua face humana, algo típico dos heróis trágicos. Daí se sentiram identificados com o camisa 10, que diante das câmeras demonstrou uma convincente tristeza pela perda do título da Copa América Centenário. Messi chorou, o que não é comum a alguém que, como ele, pouco sorri. Escancarou sua humanidade ao errar um pênalti e, sobretudo, ao declarar que a seleção “não é para mim”, passando-nos a impressão de que humildemente, ele aceitaria o destino de não ser campeão pela Argentina.

Embora o herói trágico seja uma figura revestida de poder, sua trajetória é de queda. Queda na qual revela toda sua humanidade e impotência diante das tramas de um destino do qual não consegue fugir. Na tragédia grega, as esferas do humano e divino estão entrelaçadas de tal modo que o infortúnio tanto pode ser compreendido como derivada da ação humana, assim como algo predeterminado. A esse respeito, Terry Eagleton diz que “Édipo horrorizado pela profecia do oráculo, foge de Corinto e cai diretamente nos braços do destino; em seu caso, ‘Eu estava predestinado’ e ‘Eu mesmo me condenei’ vêm a ser praticamente a mesma coisa (…) Destino e liberdade não são inseparáveis” (Doce Violência. A ideia do trágico. p.175).

O pênalti perdido por Messi contra o Chile foi um erro seu, mas também um acontecimento passível de ser interpretado como uma predestinação ao vice-campeonato. Com o resultado do jogo, o jogador passou a acumular quatro derrotas em finais de importantes competições – Copa América (2007, 2015 e 2016) e a Copa do Mundo de 2014, contra a Alemanha. Por isso, diante das câmeras do canal TYC Sports, o jogador disse: “É incrível, mas não dá. Não passamos outra vez nos pênaltis. É a terceira final seguida. Nós buscamos, tentamos. É difícil, o momento é duro para qualquer análise. No vestiário pensei que acabou para mim a seleção, não é para mim. É o que sinto agora, é uma tristeza grande que volto a sentir. Foram quatro finais, infelizmente não consegui. Era o que mais desejava. É para o bem de todos. Por mim e por todos. Muitos desejam isso. Não se conformam com chegar a final, nós também não nos conformamos. Perdemos outra vez nos pênaltis” .

 

Se Messi costumava ser questionado, sobretudo, porque ainda não havia conquistado um título de relevância pela Argentina, é justamente em uma derrota que o jogador consegue despertar em seus conterrâneos o sentimento de compaixão, típico daqueles provocados pelos heróis trágicos.

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Manifestação de torcedores a favor de Messi, realizada em Buenos Aires em 02/07/2016. Fonte: Globo Espore.

Em sua queda, Messi mostrou-se grande. Mobilizou a imprensa e os argentinos para pedir que ele “não se vá”, dando mostras de que talvez o jogador seja mais importante para a seleção argentina do que o contrário, dando mostras também de que o espetáculo e o mercado futebolístico ainda precisam de Messi, seja ganhando ou perdendo.

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O mercado da derrota. Camisas à venda de apoio a Messi. Fonte: Globo Esporte.

[1] Fonte: FutDados.

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