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Seleção ainda emociona… menos a nossa.

Messi chorando por conta de mais um vice e a falha nos pênaltis. Torcida da Islândia enlouquecida comemorando junto com os jogadores e fazendo história na Eurocopa. Para o bem ou para o mal, a ideia de nação associada ao esporte ainda mexe com o imaginário tanto de torcedores como de jogadores. Essa simbiose foi largamente utilizada pelos Estados-nação no início de século XX como uma forma de criar identidades através do esporte, por conta da fácil assimilação e entendimento, além de estimular o nacionalismo. Campanhas publicitárias procuram acionar este sentimento em épocas de grandes eventos esportivos como Copa do Mundo e Olimpíadas. Há quem diga que os valores do esporte foram totalmente seduzidos pelo lado econômico. Que a paixão pela seleção acabou! Que os jogadores não se importam e os torcedores preferem seus clubes.

Quando olhamos para o nosso futebol, essas argumentações fazem sentido. Para nosso maior nome, Neymar, “ninguém sabe o que os jogadores sofrem para estar ali”. Este “sofrimento” não tem aparecido nas últimas derrotas, considerada por alguns vexames, que sua geração coleciona, salvo o choro de David Luiz pós 7 a 1 e seu pífio discurso que a única alegria do povo brasileiro seria a seleção. Grosso modo, predominam discursos prontos, sem sentimento e vibração. Nem ao menos a dor do jogador por tentar algo com muito afinco e não conseguir temos observado. O “sofrimento” dos atletas de vestir a amarelinha tem sido reduzido com eliminações precoces, diminuindo o tempo de uma convocação que cada vez mais se assemelha ao desespero da obrigação militar de servir o país numa guerra. Perder logo é sinônimo de se libertar. O sentimento de intensidade é pouco visto pelos torcedores, que respondem na mesma moeda: desprezo. Se os jogadores, em grande parte, demonstram não querer estar ali, o torcedor entende e sente que investir seu sentimento em um jogo da seleção é “jogar dinheiro fora”, pois até mesmo correndo o risco de perder, ele quer perder sabendo e vendo a entrega de quem ele confiou e, na intensidade do jogo, “abraçou a causa”. Nos emocionamos quando sentimos a entrega do outro em tentar executar uma tarefa. No rescaldo pós sete a um, emocionar-se, envolver-se com a seleção tem sido um mal negócio.

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O choro de David Luiz após a derrota por 7 a 1 contra a Alemanha na Copa de 2014 foi uma das poucas demonstrações recentes e espontâneas de amor e dedicação de um jogador pela seleção brasileira.

 

Enquanto isso, uma ilha fria quase que perdida no mapa mundi, que era usada para fazer pegadinhas geográficas com os colegas de escola sobre capitais do mundo mostra um lado intenso do esporte que, por mais que tente ser incorporado ao lado financeiro pragmático e sem vida, revela traços lúdicos e sentimentos que o jogo desperta no ser humano. Jogadores e torcedores se entregaram a um sonho de disputar a fase final da competição. A cada resultado positivo, a noção de estar presenciando algo raro cresceu, e junto com ele a intensidade do empenho. Alguns jogadores podem conseguir belos contratos pós Eurocopa, mas, neste momento, creio que o fato de saber que estão realizando algo inesperado e que movimenta sua pequena população é o bastante e o combustível para jogar. Isso nos remete a uma comparação simples de compreender. Ali, os jogadores sabem por quem estão jogando e da arquibancada são acompanhados por seus vizinhos e até amigos. É como no time de bairro que a vitória no torneio início de domingo proporciona uma alegria imensa a todos que acompanharam e acreditaram na equipe. É o lado lúdico de comemorar junto após o jogo, perceberem que estão do mesmo lado, na mesma sintonia e “no mesmo barco”. Enfim, o jogo em sua mais simples concepção: empenhar-se e perder-se na sua intensidade.

“Ah! Mas também é a Islândia, nunca teve tradição no futebol, é uma novidade para eles!”, vão dizer alguns! Vimos Suárez, atacante uruguaio, se revoltar e demonstrar indignação e sofrimento por não jogar, mesmo machucado, e, assim, tentou demonstrar seu empenho em evitar a eliminação de sua seleção.

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Apesar de ter se envolvido em inúmeras polêmicas por seu comportamento em campo, a idolatria por Suárez existe por conta dadentificação dos torcedores com sua personalidade “raçuda”.

Outro exemplo. A derrota da Argentina mostrou como um atleta como Messi, que já ganhou tudo, ainda pode se comover ao não conquistar um título com sua seleção. Antes que os chatos de plantão digam que ele é mercenário e tudo mais, vamos lembrar que seu sonho de menino sempre foi jogar pelo seu país, rejeitando a seleção espanhola. Se lá estivesse já teria sido campeão do Mundo em 2010. Os gênios milionários do esporte também têm sentimentos, se emocionam, querem ganhar por outros motivos que não o financeiro e vivem a intensidade de uma partida de futebol. Sua dor ao não chegar ao objetivo nos induz a solidarizar com o sentimento do atleta, exatamente pela visível intensidade que ele demonstrou. Messi pode até ter sido individualista em pensar que ele não deu o título que sempre quis, mas seu empenho era algo compartilhado com os torcedores que ao saberem de sua “aposentadoria”, clamaram por sua volta, já que mesmo o criticando, compreendem sua vontade de jogar pela Argentina.

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Mesmo sendo o jogador de futebol mais vitorioso da década, Messi não conteve sua emoção com mais um vice-campeonato da Argentina, após a derrota nos pênaltis para o Chile na decisão da Copa América Centenário e pressões por um título do craque com a camisa da albiceleste. Diante de tudo o que Messi já fez no futebol, é injusto critica-lo e coloca-lo abaixo de Maradona, tendo como única justificativa o jejum de títulos do craque pela sua seleção.

O alemão Gumbrecht destrinchou bem essa intensidade que o esporte provoca tanto para jogadores como para torcedores. Quando nos entregamos a um jogo estamos depositando nossas emoções sabendo que podemos sofrer ou ter um instante mágico de felicidade. Acompanhar uma partida sem essa entrega é algo chato e burocrático. A intensidade da emoção só vem se ela for igualmente depositada na “brincadeira”. O futebol brasileiro supostamente tão moleque, brincalhão e atrevido cada vez mais não sugere esta intensidade no jogar. Nossas emoções diminuem, resultando no burocrático: “eu já sabia!”, sem nenhuma lágrima nos olhos de decepção, nem da torcida, nem do jogador. Por mais que o esporte moderno tente racionalizar, ver um choro de Messi e a alegria dos islandeses nos conforta ao saber que o jogo e sua intensidade ainda existem. Torcer para as seleções ainda emociona. Esperemos que a intensidade de torcer para a brasileira acorde desse sono profundo.

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