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Para nunca mais…

Que orgulho. Pai e filho, abraçados, comemoram juntos mais um título. O terceiro em cinco anos, de um clube que de repente aprendeu a ser grande e temido. Era o sexto título da história, sendo que metade deles apenas naquelas poucas temporadas. Pai e filho, abraçados de vermelho e branco, transformados em apenas um ao serem envoltos por uma mesma bandeira, choram emocionados. Cantam o hino do clube do coração. E se deixam arrepiar de forma que só o futebol proporciona.

Só depois de muita emoção, eles, de mãos dadas, começam a deixar o estádio para pegar a estrada. Sim, porque ainda tem isso, o título foi fora de casa, o que dá um gosto a mais a todo aquele momento inesquecível.

Eles estão tão felizes, tão maravilhados, tão apaixonados, que ao deixarem aquele campo de jogo mágico, entretidos num bate-papo intimista, nem lembram de dar uma última olhadela naquele cenário histórico antes de deixá-lo para trás.

Vão-se. Indiscutivelmente felizes. E só dentro do carro imaginam que, talvez, deveriam ter ficado um pouco mais. Curtido um pouco mais o canto da torcida. Gritado um pouco mais, ao menos até a voz ter desistido de vez de se fazer vigorosa. Irritado um tanto mais os donos da casa, transformados em fregueses naquela noite de visitantes. Mas não. Na pressa de evitar engarrafamentos, chegar mais cedo em casa, amiudar o tempo de retorno, tinham aberto mão de parte importante de toda festa: a desforra.

O filho, na aflição típica dos mais jovens, chega a se desesperar: “Meu Deus, pai. Por que tanta pressa a nossa? Por que não curtimos um tico mais a glória?”.

O pai concorda, bem a princípio. Mas logo depois, na serenidade típica dos mais velhos, se recompõe: “Relaxa, filho. Mais cedo ou mais tarde estaremos vivendo tudo de novo. É só esperarmos um pouco mais, oras”.

Ambos voltam a sorrir. Confiantes. Seguros. Lembrando do histórico recente, vencedor, deslumbrante. Terão sim, como não, uma outra oportunidade para viver juntos aquilo tudo de novo. Como o “velho” mesmo tinha dito, é só ter um pouco de paciência e esperar os deuses do futebol voltarem a se empolgar e a se confabularem em prol do charme daquele time único.

Passam-se os anos, contudo. Passam-se as décadas. As derrotas se acumulam. A crise esportiva assombra. O ápice fica no passado…

O velho morre. Vai-se para sempre, sem nunca mais se ver campeão.

O filho, imediatamente, lembra daquele dia derradeiro de felicidade futebolística. Que dia. Que mágica. Mas também… que desespero. Que arrependimento. Lembra da pressa racional de deixar o estádio; que vencera a letargia emocional de se deixar levar para sempre pelo embalo da multidão.

Se ao menos pudesse voltar no tempo e viver aquilo tudo de novo. Apenas para eternizar o momento daquele abraço de campeão, daquele arrepio de gol de título, daquele observar o mundo se fazer perfeito bem diante de seus olhos lacrimejantes. Um cenário que, na época, não imaginara jamais como sendo o derradeiro entre ambos.

E o filho, abraçado ao pai morto, velando-o por uma última vez, perde o ar. Fecha os olhos. Chora. E se imagina de volta ao ano de muito tempo atrás. No fundo, ele sabe que viveu intensamente aquele dia de festas. É que… é que… Ah, vá saber. Como o danado poderia prever que seria a última vez? Os tabus do futebol, afinal, só se escancaram diante de nós quando já é tarde demais.

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