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Futebol, televisão, dinheiro e notícia

Deixei de acreditar na possibilidade da existência de uma mídia independente ainda no começo da faculdade de Jornalismo. Depois que se compreende o processo de produção da notícia, descobre-se que ele é o resultado de uma série de escolhas, que são feitas desde a pauta até a publicação. Essas decisões são tomadas a partir dos mais diferentes critérios. Ainda que sejam apenas baseados na relevância do fato, necessariamente o texto final carregará consigo a interferência de quem o redigiu. Além disso, existem interferências menos glamourosas, como as limitações impostas pelos recursos técnicos (que podem ser escassos) ou mesmo pelas ordens de profissionais hierarquicamente superiores, responsáveis por definir a linha editorial do veículo.
As organizações que produzem notícia, assim como qualquer outra empresa, visam o lucro. Isso não seria suficiente para comprometer o exercício do bom jornalismo, mas quando um dos atores da notícia se confunde com a própria empresa de comunicação, a corrente inevitavelmente se rompe. Isso acontece o tempo inteiro no futebol mundial. As principais emissoras de TV que noticiam também transmitem os torneios. E mesmo que não tenham o direito de transmissão, dificilmente não participaram de alguma negociação para tentar comprar seus direitos.
A verba que os clubes recebem da televisão tornou-se, há alguns anos, tão importante quanto as arrecadações de bilheteria e patrocínio. Criou-se uma relação de dependência muito perigosa. Não tentaremos aqui discutir se os valores pagos aos clubes são justos ou qual seria a forma mais honesta de dividir esse bolo. A questão que pretendo levantar é: as emissoras que pagam para transmitir os torneios estão em um lugar confortável para noticiá-lo de forma competente, com o mínimo necessário de isenção?
Quando se é dono (ou sócio) de um evento, ao invés de notícia o que produz é publicidade. Mesmo que você classifique o esporte apenas como entretenimento, contar as histórias que acontecem no campo é muito diferente de apenas promovê-las. Se um jogo é ruim, com pouco público e sem graça, a narrativa construída a partir dele não pode fugir da realidade. Quando o interesse econômico de uma emissora pauta suas decisões editoriais, está provado que estamos no caminho errado.
Nesse começo de ano, a polêmica da realização da Primeira Liga evidenciou isso. A informação era a criação de uma nova liga para se contrapor aos interesses das federações estaduais e da CBF. Os clubes fundadores da nova entidade se mantiveram fortes e decididos a realizar o torneio, deixando os campeonatos estaduais em segundo plano. A voz firme dos presidentes das agremiações só começou a fraquejar quando a Rede Globo mostrou sua força. Bastou lembrar que a organização pagou caro pela compra dos direitos de transmissão dos estaduais e que por isso não aceitaria a desvalorização do seu produto. Na mesma hora, os clubes recuaram e garantiram que escalariam força máxima também nos torneios regionais. A competição da Primeira Liga saiu do papel, inclusive com transmissão do Sportv (canal fechado da emissora dos Marinho). Ainda assim, é nítida a má vontade da TV Globo em abrir espaço para a cobertura do evento.
Nem é preciso voltar no tempo, para fazer uma outra analogia. Basta lembrarmos dos escândalos na Fifa e Conmebol. Boa parte do imbróglio diz respeito à corrupção durante as negociações dos direitos de transmissão dos maiores torneios internacionais. Executivos de grandes empresas de mídia de todo o mundo são suspeitos de pagar propina a dirigentes para conseguirem os direitos de transmissão. E por quem somos informados sobre esses acontecimentos? Por estas mesmas empresas que participaram, ainda que indiretamente, dessas negociatas.
Se é impossível crer na viabilidade de uma grande mídia independente, poderíamos pelo menos exigir que elas identificassem de onde estão falando. E já que elas não fazem isso, precisamos, nós mesmos, nos esforçar para descobrir quem é quem nesse grande negócio.
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