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“Não é mole não, o feminino é o orgulho da nação”

Dia 20 de outubro, terça-feira, aproximadamente 18h30, Bangu, Rio de Janeiro. Havia acabado de sair do estádio de Moça Bonita e o termômetro em frente à estação Guilherme da Silveira marcava 35°. Se em horário tão tardio o calor estava intenso, imagina às 16h daquele mesmo dia. Não sei dizer em termos precisos quantos graus deve ter feito nesse horário – horário de verão, aliás –, apenas posso afirmar que estava muito, muito quente.

Por isso, fui em busca de sombra, assim que entrei no Estádio de Moça Bonita, em Bangu. Lá no gramado, o mesmo não podia ser feito pelas atletas do Flamengo/Marinha e do Barcelona, os dois times que estavam ali para jogar a final do Campeonato Estadual Feminino – 2015.

E foi assim, debaixo de um sol impiedoso, que uma taça de campeonato foi disputada e sua conquista bastante comemorada ao final da partida. Na arquibancada havia cerca de 120 pessoas (1) e como no futebol feminino o mundo é meio às avessas, a maioria dessas pessoas torcia para o Barcelona e não para o Flamengo.

Na verdade, aquele estádio quase vazio, pouco fazia lembrar a atmosfera das finais de campeonato de futebol no Brasil, sobretudo, se considerarmos que não foi cobrado ingresso e que bastava chegar e entrar no estádio para assistir ao jogo.

Mas acontece que se tratava de uma final de campeonato de futebol feminino e esse é um detalhe importante que pode oferecer algumas pistas para explicar – mas, não justificar – possíveis motivos que nos façam compreender os porquês de no estádio de Moça Bonita, o clube mais popular do país tenha sido campeão carioca sem causar burburinho quase nenhum.

Os campeonatos de futebol feminino no Brasil

Os jogos dos campeonatos de futebol masculino têm suas tabelas acessíveis em diversas fontes que incluem os principais veículos de comunicação, sites dos clubes, sites de torcidas e diversas outras formas a partir das quais é possível obtermos o mínimo de informação.

Porém, caso desejemos saber sobre algum jogo de um campeonato de futebol feminino, ficaremos limitados ao site da CBF, da Federação local ou a algum site de clube, caso ele possua essa ferramenta.

A imprensa esportiva raramente divulga os jogos mesmo que seja uma final de campeonato, como foi o caso de Flamengo/Marinha x Barcelona – assunto deste post – ou mesmo quando é um jogo importante como Flamengo x Rio Branco, ocorrido sábado dia 16 de outubro que valia vaga para a fase final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino.

No dia de Flamengo x Rio Branco encontrei somente uma brevíssima indicação dessa partida no jornal Lance!, na sessão onde são alocadas as tabelas de campeonatos nacionais de todas as séries.

Lance!, sábado, 17 de outubro de 2015, página 23

Nos cadernos de esporte dos outros jornais, como O Globo, Extra, Meia Hora não havia nenhuma menção à decisiva partida do Flamengo/Marinha, ou melhor, nenhuma menção ao Campeonato Brasileiro Feminino quer fosse pelo menos uma referência à tabela dessa competição.

Tudo muito diferente do que ocorre com os clubes de massa ou com forte poderio financeiro que conseguem ter simples partidas amistosas, ou até mesmo treinos, transmitidos pela rádio. Foi o que ocorreu com o jogo amistoso entre Ferroviária Desportiva x Flamengo, realizado no Espírito Santo, às 16h do dia 11 de outubro de 2015. A Rádio Globo transmitiu a partida que foi narrada pelo principal locutor da emissora.

Já a modalidade feminina resta ter seus jogos transmitidos de modo um tanto irregular por algumas poucas emissoras de TV e, quase nenhuma emissora rádio (2). A dificuldade de acesso à informação e o raro interesse da imprensa pelos jogos de futebol feminino geram consequências importantes, entre as quais, a falta de promoção das partidas, quesito relevante, por exemplo, para a captação de público.

O fenômeno da “falação esportiva”, como mostrado – e criticado – por Umberto Eco em relação aos esportes, não é observável no caso do futebol feminino, no Brasil, modalidade praticada – às duras penas – e pouquíssimo falada. Em nosso país, o futebol feminino está longe de poder ser considerado como vinculado à matriz espetacularizada, categoria explicitada por Arlei Sander Damo. Há nessa prática esportiva uma série de problemas típicos dos futebóis que estão fora – ou inseridos de modo parcial – do circuito privilegiado do futebol brasileiro.

A discutibilidade que tanto marca o futebol masculino, como mostrado por Christian Bromberger, é fenômeno quase que inexistente na sua versão feminina. As conversas sobre os jogos se reduzem aos momentos de transmissão em que se pode ouvir as opiniões dos especialistas. Porém, poucos são os jogos transmitidos. Outra possibilidade são os comentários que surgem nas arquibancadas, também, no momento do jogo, comentários, aliás, marcados pelo sexismo, deboche e pouquíssimo interesse pela partida em si. Não há mesa-redonda sobre futebol feminino ou que pelo menos a ele faça referências dignas de nota.

Se os comentários e discussões acerca dos jogos não ultrapassam o tempo de sua realização, significa que muitas partidas do futebol feminino correm o sério risco de ficarem reduzidas aos 90 minutos do gramado, tendo, desse modo, seu poder de repercussão limitado e, consequentemente, vendo-se perder sua possibilidade de inserção no cotidiano, na memória e no imaginário individual e coletivo.

Em outras palavras, se joga futebol feminino, no Brasil, mas pouco se fala dele. Em um contexto miditiatizado, esse silenciamento é um dos fatores que prejudica, em demasia, o presente e o futuro da modalidade. Certamente que não há como responsabilizar somente a imprensa por esse problema, afinal também cabem aos clubes e federações a elaboração de estratégias de marketing que contribuam para dar mais visibilidade ao futebol feminino.

Visibilidade, aliás, é justamente o que procuram diversas jogadoras de futebol. Conversando pessoalmente com duas delas, cujos nomes prefiro omitir, ouvi o quanto é importante chegar às decisões dos campeonatos. Na opinião dessas jogadoras, o fato de o Flamengo/Marinha, não ter ido às fases finais do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil tirou a oportunidade de o trabalho das atletas em campo ser visto, principalmente por gente ligada à seleção brasileira. Além desse aspecto, ganhar títulos é fator fundamental para a manutenção dos times femininos. Resultados ruins podem fazer com que grupos sejam desfeitos do dia para a noite ou gerar dificuldade na captação de recursos para seu sustento mínimo.

Não desejo com isso fazer apologia ao futebol espetáculo e mercadorizado, sobretudo, em sua vertente predadora, como assistimos nos dias atuais. Apenas é importante atentar para o fato de que estar completamente fora desse contexto pode gerar prejuízos imensos para a sobrevivência de algumas modalidades esportivas.

É o que ocorre com o futebol feminino. Embora o ambiente futebolístico seja marcado pelo machismo e preconceito, esse fato não é suficiente para justificar todos os problemas acima citados e pela estrutura precária em que essa modalidade se encontra em nosso país, o “país do futebol”.

Em 2012, a FIFA lançou o Diretrizes dos Programas da FIFA para o Desenvolvimento do Futebol Feminino 2012-2015 (3), objetivando orientar as Federações e os Governos ao redor do mundo na busca por melhoras de condições da prática do futebol feminino. Nesse documento ressalta-se a necessidade de organização de competições, suporte por parte da mídia, assim como captação de incentivos privados para desenvolvimento da modalidade.

O futebol feminino é uma modalidade plenamente viável em termos econômicos, sendo capaz de atrair público, por vezes em grande número. No Pan de 2007, a final entre Brasil X EUA reuniu 67.788 torcedores no Maracanã, Rio de Janeiro. A disputa pela medalha de ouro entre EUA x Japão, nas Olimpíadas de Londres 2012, juntou mais de 80 mil pessoas no Estádio de Wembley. Para finalizar, trago o exemplo da UEFA Women’s Champions League que neste ano de 2015 foi conquistada pela equipe do Frankfurt que venceu o Paris Saint Germain por 1 x 0. A partida decisiva foi jogada no Friedrich-Ludwig-Jahn-Sportpark, em Berlim, com um público de 18.000 presentes que, aliás, é a capacidade máxima desse estádio (4).

Obviamente, há de se considerar que estamos falando de jogos envolvendo seleções nacionais, realizados em finais de importantes competições. Porém, esse aspecto apenas reforça que o futebol feminino, com o devido tempo e investimento, tem capacidade de se tornar uma modalidade popular. Afinal imaginemos que nem mesmo as partidas decisivas de megaeventos como olimpíadas e mundiais, fossem capazes de atrair público espectador. Nesse caso sim, seria temeroso cogitar alguma viabilidade do futebol feminino.

Mas, havendo investimento e organização nas competições, o que inclui a presença de clubes competitivos, percebe-se a possibilidade de tornar o futebol feminino uma modalidade esportiva financeiramente sustentável, sendo capaz de atrair novas praticantes, assim consolidar um público torcedor.

Entretanto, partindo esse prisma, a situação do futebol feminino, no Brasil, é bastante preocupante.

As competições estaduais e nacionais sofrem com o curto calendário, a pouca estabilidade dos clubes participantes, a falta de torcedor e carecem da atenção da imprensa. Em 2007, a CBF criou a Copa do Brasil de futebol feminino que até 2013 era a única competição em nível nacional. A última edição da Copa do Brasil teve início em janeiro de 2015, contando com a participação de 32 equipes, vindas de 25 estados. O sistema de competição é o mata-mata desde o primeiro jogo, o que faz com que a competição seja breve, pois várias equipes podem ser eliminadas já na primeira partida (5). Esse tipo de organização tem como fator negativo não dar “garantias de sustentabilidade competitiva aos participantes” (6).

O Campeonato Brasileiro, existente desde 2013, possui duas fases, a primeira composta por 4 grupos com cinco clubes. A segunda etapa é composta pelos dois melhores clubes de cada grupo da primeira, formando assim a fase decisiva com jogos de ida e volta. A competição começou dia 09 de setembro, ainda sem data para o término.

Por sua vez o Carioca tem uma história mais longa, embora inconstante. Essa competição existe desde 1983 (7) e neste ano de 2015, o Campeonato foi disputado por seis equipes que na primeira fase jogaram entre si em turno e returno. A segunda fase consistiu na final, composta pelas duas equipes melhores colocadas na etapa anterior (8).

No Brasil, em julho, o Senado aprovou a MP do futebol, uma medida provisória referente à possibilidade de refinanciamento de dívidas dos clubes de futebol com o governo Federal. Como contrapartida ao refinanciamento, seria exigido dos clubes, entre outras coisas, o uso de 20% do seu faturamento em investimento em outras práticas esportivas, entre as quais o futebol feminino (9). Essa medida pode gerar consequências positivas à modalidade, desde que de fato seja conduzida com seriedade.

Mas é fundamental um maior compromisso dos clubes de futebol com a modalidade feminina. No caso do Flamengo, por exemplo, o time campeão carioca foi montado e é sustentado pela Marinha do Brasil, tanto que participa de competições militares como foi o caso dos Jogos Mundiais Militares realizados recentemente na Coreia. O Flamengo somente cedeu sua “marca”, por isso as meninas entram em campo com o uniforme que ostenta o escudo do clube da Gávea ao lado do símbolo da Marinha.

Fonte: http://www.flamengo.com.br/site/noticia/subcategoria/111

Ambas as instituições, de algum modo, ganham com o acordo. O time da Marinha sem a parceria com um clube civil não poderia participar de competições como o Carioca, Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil. E o Flamengo, por sua vez, pode ostentar sua marca em competições nacionais e internacionais. Cabe lembrar que esse tipo de parceria não é inédito, no Rio de Janeiro, tendo ocorrido em 2010, entre Marinha e Vasco da Gama.

Acredito que esse não seja o melhor meio de se manter o futebol feminino. O ideal seria que os clubes do Rio – e do país – tivessem seus projetos próprios e investissem na formação de jogadoras e na manutenção de times que atuassem com frequência, gerando assim uma estrutura de organização mais estável para a modalidade.

Da Gávea para Bangu

Na verdade, este post era para ser sobre Flamengo x Rio Branco, jogo da última rodada da primeira fase do Campeonato Brasileiro. Até o início da semana da partida, o local onde ocorreria o jogo seria o Estádio da Gávea, sábado, dia 17/10, às 16h30. Era essa a informação que constava no site da CBF pelo menos até o dia 13/10.

Sábado, amanheci preparada para rumar para a Gávea, bairro de razoável acesso e com possibilidade de uso de metrô. Entretanto, sabendo o quão comum são os imprevistos, fui olhar a tabela no site da CBF e lá verifiquei o que temia: o jogo havia mudado de local. Uma mudança drástica, pois da Gávea a partida foi para o bairro Recreio dos Bandeirantes, estádio Arthur Antunes Coimbra. Da Gávea para o Recreio são cerca de 28 km de distância. Partindo do bairro onde moro – Grajaú – seriam 31 km, com poucas opções de transporte público.

Imaginei todas as dificuldades de chegada e, sobretudo, de retorno. E, assim, desisti.

Não houve descumprimento do Estatuto do Torcedor que prevê que qualquer mudança de local da partida, deve ocorre no prazo máximo de 48h antes do jogo, o que foi feito, pois segundo consta no site da CBF a mudança ocorreu dia 14/10 (10). O problema é que a circulação de informações no futebol feminino é bastante precária.

O jornal Lance, do dia do jogo, indicava, equivocadamente, o Estádio da Gávea como local da partida.

 

Lance! 17 de outubro de 2015, página 23

O que impressiona nessa mudança é que se tratava de um jogo importante que decidiria qual dos times permaneceria na competição. A justificativa da alteração consta no documento Informação de Modificação de Tabela (IMT 17BFF/15), onde a troca de local se explicava pela necessidade de “Realizar partida em estádio que possui iluminação artificial” (11).

Todos os jogos do Flamengo/Marinha, até então, haviam sido realizados no Estádio da Gávea, com início previsto para as 15h. Porém, o jogo contra o Rio Preto-SP seria às 16h30 e pelo que parece somente em cima do prazo percebeu-se que o Estádio da Gávea não possuía refletores.

Fiquei desanimada, mas lembrei que ainda restava uma esperança para fazer esta postagem sobre o futebol feminino: o campeonato Carioca que – dia 20/10, uma terça-feira! – teria a sua final entre Flamengo X Barcelona, em Moça Bonita.

Pensei: É para lá que eu vou. E de fato fui.

Flamengo/Marinha x Barcelona, final do Carioca Feminino de 2015

De acordo com o regulamento da competição, em seu o Art. 6º “Os jogos serão disputados nos estádios e horários indicados pelos clubes, quando da aprovação da tabela” (12). Segundo a tabela, das 10 rodadas, somente um jogo, com mando de campo do Flamengo/ Marinha, fora realizado no Estádio da Gávea (13), o restante havia ocorrido no CEFAN (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes), no bairro da Penha.

Não são claros os motivos que levaram a final do campeonato para Bangu, bairro que não possui relação nem com Flamengo (Gávea), nem com Barcelona (Curicica). Mas pelo menos não houve troca abrupta de local de jogo.

Antes de ir para Moça Bonita, comprei o mais importante jornal esportivo do Rio de Janeiro em busca de notícias sobre o jogo que decidiria o Carioca Feminino de 2015. Encontrei uma breve menção, no canto de página que trata da cobertura da semana do clube da Gávea.

 

Lance! 20 de outubro de 2015, página 23

No caminho para Bangu nada fazia parecer que eu estava indo assistir a uma decisão de campeonato de futebol e que nela estaria em campo o time mais popular do país. Somente quando cheguei à praça Guilherme Silveira comecei a avistar parte das cerca de 120 pessoas que foram ao jogo.

Não houve venda de ingressos, podendo-se entrar no estádio enquanto nele houvesse espaço. O público presente era basicamente composto por parentes, colegas, curiosos, por alguns meninos das categorias de base do Bangu, enfim um público com interesses diversos, muitos dos quais sem vínculo de pertencimento clubístico com os times em campo.

O horário e dia do jogo também não eram nada atrativos, impossibilitando, por exemplo, a presença daqueles que trabalham em horário comercial. O sol forte, em Bangu, em pleno horário de verão, também não era convidativo. E se ficar parada na arquibancada já era difícil, imaginem correr durante 90 minutos. É válido lembrar que o horário das 11h, do campeonato brasileiro masculino da série A, foi extinto pela CBF devido às diversas reclamações de jogadores e imprensa, por causa do calor.

Estar fora do circuito futebolístico principal – o que inclui as séries inferiores dos campeonatos locais e nacionais – tem seus problemas, entre os quais, a falta de planejamento e cuidado com atletas e público. Isso sem mencionar, alguns episódios esdrúxulos que acontecem.

O Barcelona, adversário do Flamengo/Marinha, já protagonizou um jogo cercado de inusitados problemas como, por exemplo, a presença de indivíduos consumindo drogas no campo e um enfermeiro fazendo-se passar por médico, fatos que constam na súmula do jogo (14). Bizarrices como essas dão mostras do baixo nível de organização da competição.

Mas voltando ao jogo final do Campeonato Carioca, é preciso dizer que havia consideráveis diferenças entre as duas equipes que estavam em campo. O Flamengo tinha o melhor ataque da competição, com 59 gols, enquanto o Barcelona apenas 12. Talvez isso seja reflexo da diferença de estrutura entre os times. As meninas do Flamengo/Marinha recebem salário pago pela Marinha do Brasil, instituição com a qual mantém contrato de oito anos. As jogadoras do Barcelona ganham somente uma pequena ajuda de custo para o transporte (15).

A luta do time de Curicica foi grande, mas ao final o troféu ficou com o Flamengo/Marinha. Nem sempre dá para o futebol ser uma caixinha de surpresa.

Ôooooo, vai pra cima DELAS Mengo!

Como demonstrou o pesquisador Gustavo Bandeira, as arquibancadas de futebol são um currículo de masculinidades (16). Particularmente, tenho a impressão de que quando há mulheres atuando em campo, a necessidade de afirmação de machezas ganha estratégias mais perversas. Quando uma mulher está em campo, os comentários sexistas são constantes, alguns vindos até mesmo de outras mulheres. Pouco se fala do jogo, do desempenho das jogadoras ou árbitras seja para elogiar ou reclamar. Mas, sobram comentários de extremo mau gosto, saídos da boca de gente que pouco se importa com os ouvidos alheios e que pouco se importa com a dimensão das frases que proferem.

Faz-se análises maliciosas do corpo das jogadoras, enfocando-se detalhes considerados feios, ridículos ou exaltando-se traços que despertem desejos que são verbalmente explicitados do modo mais sórdido possível.

Às vezes impressiona a naturalidade com que tudo isso é dito.

Porém, pude encontrar abrigo dessas demonstrações de macheza agressivas e exaltadas, justamente onde poucos esperariam: perto de uma torcida organizada. Quase sempre relacionada à violência, a comportamentos considerados nocivos ao futebol, poucos imaginariam que dela algo de positivo pudesse ser esperado, ainda mais sabendo que grande parte de seus cânticos de ofensa ao adversário se fundamentam na feminização do outro, sendo, portanto, de fundo machista e preconceituoso.

A organizada presente em Moça Bonita era a Flamanguaça que estava representada por um pequeno grupo animado de pessoas que incentivaram do início ao fim às jogadoras do Flamengo. Suas faixas foram colocadas no alambrado, ritual comum das torcidas em todos os jogos.

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Eles cantaram o hino do clube, assim como algumas conhecidas músicas que costumam ser entoadas nas arquibancadas dos jogos do time masculino. Algumas vezes, adaptações foram necessárias, e bem-vindas, como no caso do “ôooooo, vai pra cima DELAS Mengo”. Ao final do jogo, cada nome de jogadora foi gritado por esses torcedores, em especial, a de Pâmela, autora dos dois gols do Flamengo: “Olê, olé, olé, olá Pâmela, Pâmela”

No decorrer da partida, o pessoal da Flamanguaça apoiou o time e exaltou a conquista das meninas ressaltando o fato de que foi pelo futebol feminino que tanto o clube quanto seus torcedores puderam sentir o gosto de uma conquista no ano de 2015. Esse reconhecimento ficou explícito no grito: “Não é mole não, o feminino é o orgulho da nação”. Para comemorar a conquista, muitos torcedores conseguiram entrar em campo e tirar foto com as jogadoras.

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Caso os principais clubes do país possuíssem um time feminino, essa modalidade poderia ganhar bastante fôlego, afinal a grande maioria dos times que jogam o campeonato feminino não possui vínculo algum com clubes já tradicionais no país. São, portanto, desconhecidos do grande público, fator que provavelmente interfere de modo negativo na promoção da competição, assim como dificulta a captação de público torcedor.

Não sei dizer a média de público do campeonato estadual feminino, pois no site da FERJ, consta apenas a súmula dos jogos, sem o indicativo do borderô. É possível que isso ocorra devido a não cobrança de ingressos. No caso do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, o Boletim Financeiro dos jogos está indisponível até o momento. Porém, pelas imagens que podem ser vistas na TV, os jogos costumam ter pouquíssima presença de torcedores.

A torcida é parte fundamental do futebol, sendo, portanto, necessário buscar estratégias que visem incentivar a frequência aos jogos das meninas. Para isso, seria importante melhorar a organização dessa modalidade no Brasil e, nesse caso, a participação dos clubes, sobretudo os tradicionais, se mostra fundamental. Podemos usar como exemplo, o caso do time basquete do Flamengo que sempre leva excelentes públicos aos ginásios onde joga, principalmente, se for decisão.

Certamente que este não é o único caminho e nem mesmo podemos afirmar ser o melhor. Apenas pode-se dizer que o futebol feminino precisa de mais esforços para que se torne uma modalidade capaz de manter-se financeiramente e oferecer condições de atuação às jogadoras, o que inclui sua plena profissionalização. Melhores condições, também significa horários menos ingratos e estádios mais acessíveis ao público e nos quais se possam realizar jogos à noite.

Que o futebol feminino não seja apenas praticado, mas falado pelos cantos do país, contando com a participação dos meios de comunicação nesse processo de “falação esportiva”, que no momento seria importante para as meninas da bola. O futebol feminino também precisa ser cantado nas arquibancadas, como o fez a Flamanguaça em Moça Bonita.

Finalmente, fica a curiosidade em saber o que aconteceria caso o futebol feminino se popularizasse, sobretudo, por conta da sua adoção pelos principais clubes do país. Como ficariam os cânticos, que tipo de mudanças poderiam ser percebidas na cultura torcedora a partir desse novo fenômeno? Que tipo de público seria construído em torno dessa modalidade?

Espero que essas perguntas ganhem respostas em breve e tenho a impressão de que isso só tem a enriquecer a cultura futebolística e torcedora do país.

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