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Memórias sobre o 7 a 1

O futebol é um esporte singular, seja por sua popularidade, pela imprevisibilidade de seus jogos ou pelas histórias que são contadas sobre ele, ou a partir dele. Em meio às narrativas sobre o universo do futebol, que envolvem jogadores, equipes e partidas, destaca-se um elemento – a memória.

Nas últimas semanas a força da memória pôde ser vista especificamente nas narrativas da imprensa sobre um episódio, a derrota de 7 a 1 do Brasil para a Alemanha em jogo válido pelas semifinais da Copa do Mundo de 2014. Contudo, em de julho de 2015, a imprensa esportiva relembrou um dos episódios mais marcantes do passado recente da seleção brasileira – o “Mineirazzo” – popularmente conhecido como o 7 a 1 da Alemanha.

Este revés, que foi narrado pela imprensa brasileira, incialmente, como uma vergonha, uma humilhação ou uma tragédia, assume novos significados na atualidade. Ao retornar a 9 de julho de 2014, um dia após o jogo, pode-se observar que o jornal O Globo qualifica este episódio na sua manchete como “vergonha, vexame, humilhação”. Já no subtítulo desta manchete a publicação localiza este evento da seguinte forma: “seleção sofre em casa a maior derrota de sua história”.

Capa de O Globo após o 7 a 1
Capa de O Globo após o 7 a 1

No mesmo dia, a Folha  de São Paulo define o evento assim: “Seleção sofre a pior derrota da história”. E este foi o entendimento que a imprensa, de uma forma geral, teve do episódio. O objetivo parecia ser, em um momento inicial, o de localizar esta derrota na história da seleção brasileira. Para isto, uma memória foi constantemente acionada, a da derrota do Brasil para o Uruguai por 2 a 1 em jogo decisivo da Copa de 1950.

Folha de São Paulo destaca o "Mineirazzo"
Folha de São Paulo destaca o “Mineirazzo”

Um ano após o revés de 2014 a imprensa não se limita apenas em qualificar esta derrota, mas usa as memórias da mesma para avaliar o atual momento do futebol brasileiro, que vive em meio a muitas críticas, especialmente após uma campanha abaixo da média na Copa América de 2015. Em a Folha de São Paulo o colunista Tostão diz, por exemplo, que “passado um ano do vexame, o futebol brasileiro está no mesmo lugar, sem identidade, perdido”.

No mesmo dia, em O Globo, o jornalista Lauro Neto publica uma reportagem com a intenção de apresentar formas de resgatar o futebol brasileiro, a qual ele chama de sete pecados capitais: como a preguiça, que deve ser transformada em garra para correr em campo, e a ira, que deve virar jogo limpo. Ao observar as narrativas sobre o 7 a 1 publicadas em 2014 e em 2015 o que mais chama a atenção é o uso feito das memórias. Nas duas oportunidades elas funcionam como elementos que colaboram com o processo de construção de imaginários.

Se um dia após a derrota a maior preocupação parece ser a de localizar o 7 a 1 dentro da história da seleção brasileira e, para isso, são acionadas memórias de outros momentos da equipe, um ano depois o maior objetivo parece ser o de evidenciar a existência de uma crise no futebol brasileiro, crise esta que se materializa no revés de 7 a 1.

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