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Da várzea à Fifa

No Sertão da Paraíba, nos recantos de uma cidadezinha qualquer, há um clube amador de futebol. Um time de peladeiros, com poucos recursos, sem campo próprio, sem dinheiro para manter o jogo de bola em níveis aceitáveis de qualidade. Jogam em nome do prazer. Para se socializar na base da cachaça e da feijoada ao fim do jogo. Pelo prazer de tirar sarro do rival, igualmente pobre, do bairro vizinho, no famoso clássico entre “com coletes” e “sem coletes” que embalam a comunidade em um domingo de manhã.

Nenhum dos dois jogam por dinheiro. Nenhum dos dois vende ingressos para os jogos. Nenhum dos dois joga em estádios. O palco maior do clássico, em regra, é o campinho de barro, de metas de madeira podre ou de ferro enferrujado, mais famoso por suas irregularidades e imperfeições do que pelas marcações que lembrariam um decente campo de futebol.

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Eles não sabem. Não têm a menor ideia disso. Mas ambos os presidentes de clubes amadores (chamados de clubes muito mais por um formalismo de cartório do que por qualquer sede social que exista) são alguns dos colaboradores da imensa teia internacional que mantém a Fifa na mão de poderosos. Muitos deles corruptos. Todos milionários. Entre eles, afundado em denúncias, Joseph Blatter, o suíco que acaba de renunciar ao cargo de presidente da Fifa.

O caminho é longo. Mas homogêneo. Muda apenas os agrados. Os conchaves. Os comportamentos. Do amadorismo até a cúpula da cartolagem mundial. Porque um belo dia, os “presidentes” destes “clubes amadores” recebem uma visita. Da liga amadora da região que tem direito a voto na eleição da Federação Paraibana de Futebol. Conversa vai, conversa vem, fecham um acordo. A final do campeonato amador do tal município, por exemplo, graças aos contatos políticos do presidente da liga, vai acontecer no modesto estádio de futebol da região. Modesto, é verdade, mas com ares de arena a quem nunca jogou em canto algum.

Em troca, claro, de apenas alguns votos e apoios para a manutenção do presidente da liga no cargo. Afinal, enquanto ele estiver lá as esmolas, as barganhas, as migalhas continuarão chegando. Claro que revestidas de benfeitorias de um para com o coletivo e para com o futebol como um todo.

Uma semana depois, o presidente da tal liga amadora é chamado a João Pessoa. Vai conversar com Rosilene Gomes, por exemplo, a ex-presidente da Federação Paraibana de Futebol que até o ano passado, antes de ser deposta do cargo pela Justiça, deu por 1/4 de século as cartas do futebol estadual. Rosilene conversa. Se apresenta como “doutora” e promete um futuro melhor para o presidente da liga. Dá a ele um kit esportivo, composto por padrões de futebol, chuteiras, bolas. Tudo de graça. É um agrado e tanto para o pobre e sofrido dirigente dos “cafundós” da Paraíba. Como um mimo especial, oferece um ingresso para o próximo jogo da Seleção Brasileira. Um amistoso ou um jogo de eliminatórias de Copa no Recife, no máximo.

Os kits, claro, jamais chegarão aos eleitores do presidente da liga, aqueles mesmos do jogo na terra batida. Estes, a seu modo, já foram regiamente pagos. Não! O kit será integrado ao patrimônio pessoal do presidente da liga. Ou será vendido para seu benefício próprio. Em troca, claro, de apenas alguns votos e apoios para a manutenção da presidente da FPF no cargo. Afinal, enquanto ela estiver lá as esmolas, as barganhas, as migalhas continuarão chegando. Claro que revestidas de benfeitorias de um para com o coletivo e para com o futebol como um todo.

O tempo passa mais um pouco. Rosilene Gomes é chamada por Ricardo Teixeira ou José Maria Marin. Ambos ex-presidentes da CBF. O primeiro renunciou ao cargo e se exilou nos Estados Unidos. O outro foi preso pela polícia suíça a pedido da Justiça norte-americana.

O presidente da CBF, independente de quem seja, beija a mão de Rosilene Gomes. Recebe-a com tapetes vermelhos, Champanhe e agrados financeiros vultosos. Surge um convite: ser a chefe da delegação do Brasil na Copa do Mundo de Futebol Feminino. Ela aceita. Sorri, ao aceitar. Recebe também kits, vários deles, da Seleção Brasileira. E é convidada para assistir copas do mundo, mundo afora. Vive em um conto de fadas do futebol.

Claro que os kits da seleção não chegarão aos presidentes de ligas. Claro que os grandes jogos de Copa do Mundo não serão para ninguém mais do que é para ela e para os seus. Afinal, os presidentes de ligas, a seu modo, já foram regiamente pagos. Não! O gosto doce do champanhe francês servido em banquetes no Rio de Janeiro é restrito aos presidentes de federações estaduais.

Em troca, claro, de apenas alguns votos e apoios para a manutenção do presidente da CBF no cargo. Afinal, enquanto ele estiver lá as esmolas, as barganhas, as migalhas continuarão chegando. Claro que revestidas de benfeitorias de um para com o coletivo e para com o futebol como um todo.

Até que Teixeira ou Marin é recepcionado na sede da Fifa, na Suíça, por Joseph Blatter. O tal presidente que agora renuncia. Ele é o anfitrião dos anfitriões. E recebe a todos com mulheres bonitas, bebidas raras e caras, carros luxuosos como brindes. Relógios Rolex, canetas Mont Blanc, todos de ouro. Mimos e presentes sem penas ou economias. Salários inimagináveis. Comissões milionárias. Viagens sem fim. Cargos. Escolhas para sede de Copa. Escolhas para comissões da Fifa. Eleições para cargos chaves que dão poder e nutrem vaidades. Verdadeiras fortunas rateadas para poucos. Ingressos para a Copa do Mundo. Para grandes jogos. Para shows que nada têm a ver com futebol. Passe grátis para congressos em hotéis sete estrelas. Uma festa. Uma farra sem fim.

Claro que esta farra é para um grupo para lá de restrito. Aos presidentes de federações estaduais, nem um centavo a mais. Estes, a seu modo, já foram regiamente pagos. Não! As farras homéricas na Suíça não são para o bico de reles presidentes de federações. Apenas à alta cúpula é destinado os ovos de ouro.

Em troca, claro, de apenas alguns votos e apoios para a manutenção do presidente da Fifa no cargo. Afinal, enquanto ele estiver lá as esmolas, as barganhas, as migalhas continuarão chegando. Claro que revestidas de benfeitorias de um para com o coletivo e para com o futebol como um todo.

Eis o ciclo eterno e vicioso que move o futebol. Da várzea à Fifa. Dos campos de terra aos salões suíços. A regra é a mesma. A relação é a mesma. Os apegos são os mesmos. Este é o caminho do interior da Paraíba para a sede da Fifa. Cada cidade, cada Estado, em cada país diferente do mundo tem o seu próprio caminho. Todos com a mesma troca de interesses, com os mesmos vícios e com o mesmo destino: o coração da Fifa, em Zurique. Um caminho sem volta que agora começa a ruir com quedas de cartolas em diferentes níveis. Contudo, apenas para a sazonal troca de personagens que manterá o mesmo esquema vivo e intocável.

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