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O algoz e o rival!

Imagine que, certo dia, você é abatido. De forma cruel, impiedosa, virulenta. Numa cena de puro sadismo, você saberá depois. Porque o ato (quase criminoso) é cometido dentro de sua própria casa, diante de sua família, daqueles que você tem como heróis. E para piorar, o algoz comemora, ri, se esbalda. Festeja feito um louco pelo que, para você, é apenas dor, sofrimento e lágrimas.

É claro que num ato mecânico e até entendível do ponto de vista humano, você, onde estiver, vai torcer contra seu algoz. Torcer para que ele seja identificado e capturado, ou, como muitos hão de preferir, que ele tenha o mesmo fim que lhe proporcionou. É parte da vida. Da fraqueza da vida, melhor dizendo. Da necessidade, ainda que inconsciente, de só ficar em paz quando se descobre que a justiça foi feita.

Mas eis que o futebol está aí para reverter a ordem vigente da vida. De repente, o algoz nem é tão algoz assim. De repente, a justiça nem se faz tão necessária. Não mais do que após um instante, o futebol ensina que o perdão é talvez o mais nobre e digno dos sentimentos humanos. Ainda que, mais uma vez, de forma inconsciente.

Ah, o futebol, com seu prazer irrefreável de contradizer a lógica. De renegar o que parece óbvio. De mostrar caminhos alternativos para o que até então jamais pareceria possível. Pois basta o Ceará se apresentar como algoz do Vitória, numa ensolarada tarde de sábado de Salvador, numa semifinal de Copa do Nordeste, para que os rubro-negros, de repente, não se incomodem tanto em torcer pelos seus irmãos cearenses, quase co-irmãos contra a “maldição tricolor”.

E eis que o instante futebolístico novamente surge, para pulverizar a natureza dos costumes mundanos. E talvez, por isto, haja quem diga que o futebol tem um “quê” de sagrado. Não! Não torcerão jamais, os rubro-negros baianos, contra quem lhes eliminaram de forma tão dolorosa dentro de sua própria casa, num empate em 2 a 2, no detalhe do gol marcado fora de casa, infestado de amargura e choro, que culminou na eliminação sufocante daquela tarde de bola no Barradão.

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Pois de repente, todo torcedor do Vitória é revestido de uma nobre, altiva e angelical força. Digna dos grandes homens, dos grandes vultos da humanidade, dos grandes mestres. Aqueles poucos dotados da capacidade de perdoar de forma plena e irrestrita. Sem ressentimentos ou juras de vinganças futuras. Sem nem mesmo rememorar, ainda que de passagem, os tempos em que estiveram de lados opostos.

E ainda em meio ao luto, ao sufocamento típico das grandes derrotas, mesmo com a memória viva dos gols alvinegros dentro de – é sempre dolorido repetir – sua própria casa, o torcedor do Vitória há de reconhecer laços de sangue que o unirá ao Ceará. E há de lembrar ao irmão alvinegro, tão rápido for possível, que o mesmo “azul, vermelho e branco” do arquirrival deles, o Fortaleza; é o “azul, vermelho e branco” do Bahia, o seu próprio arquirrival e adversário dos cearenses na grande final nordestina.

Porque amigos, a rivalidade é algo tão intrínseca ao futebol, tão mágica e tão apaixonante, que o torcedor do Vitória é capaz de pular junto com o torcedor do Ceará, abraçados há mais de mil quilômetros um do outro, justo com quem lhe feriu de morte, a ter que aguentar a comemoração de seu vizinho soteropolitano, urrando algo como “Bahêa, minha…”.

Pois neste caso, o palavrão que comumente se segue à frase do torcedor do Bahia vai ser tão ferina, tão doída e latejante, que jamais será escutada como um xingamento elogioso a si mesmo, como de fato o é, mas uma provocação letárgica sem data para ser esquecida ao pobre do Vitória que sofreu e morreu duas vezes numa mesma Copa do Nordeste.

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