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Novas tecnologias da Era Digital: seria uma das causas da fraca seara no celeiro de craques no futebol brasileiro

A revelação de jogadores fora de série atravessa um forte declínio na última década no Brasil; nesse período somente 2 jogadores foram eleitos como melhores do mundo: Ronaldinho Gaúcho, em 2005, e Kaká, em 2007. Na década entre 1994 e 2004, o Brasil emplacou a eleição de 4 jogadores em 6 oportunidades: Romário, em 1994, Ronaldo, em 1996, 1997 e 2002,   Rivaldo, em 1999, e Ronaldinho Gaúcho, em 2004, selando o fim da hegemonia de craques do futebol brasileiro. Estes números correspondem a um universo de mais de 2 milhões de atletas.

Por outro lado, o Brasil ganhou o seu último titulo mundial Sub-17 em 2003, na Finlândia, prenúncio de novas gerações sem muito brilho.

É inegável que as novas tecnologias na era digital têm promovido uma revolução no esporte. O uso destas tecnologias tem propiciado um trabalho multidisciplinar em prol de avanços significativos nas várias perspectivas que os esportes em geral englobam. Desde a medicina (enquadrando aqui, diagnóstico médico, nutricionista, fisiologista e fisioterapeuta) à preparação física (agora tem preparador de goleiro, de defesa e de ataque) passando pelo material esportivo usado para a prática do esporte em si; pelas comunicações, que têm determinado o ritmo e até alterado regras específicas e a globalização econômica e midiática, todos, sem exceção, têm realizado intervenções indeléveis e nem sempre positivas. Estas são aplicadas no mundo do esporte profissional, onde assistimos dia após dia à falta de craques. Normalmente, temos jogadores medíocres que são incapazes de  acertar fundamentos, desconhecem as regras oficiais e fazem do jogo um possível trampolim a herói ou a uma transferência para o Velho Mundo ou à China…; em última instância uma ascensão social via um empresário marqueteiro.

No Brasil, 82% dos atletas recebem até 2 salários mínimos e 2% recebem acima de 20 salários mínimos – indicador sutil desta mediocridade. Porém, não quero focar este artigo nessa área, me interessa trazer à tona uma inquietude sobre o elemento mais importante da pratica esportiva: o nascimento do jogador de futebol. Qual o processo de formação destes futuros atletas, o que mudou nesse processo nas últimas décadas para plasmar a decadência técnica/criativa hoje observada.

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Obdulio Varela

Lendo o livro “En la Cumbre de lãs Hazanhas”, do escritor uruguaio José Eduardo Picerno, sobre a vitória da Celeste Olímpica contra o Brasil na final da  Copa do Mundo de 1950, me chamou muito a atenção uma declaração em 1951 de Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia. Ao ser questionado sobre a procedência da qualidade dos jogadores uruguaios, que detinham 4 títulos mundiais de futebol entre 1924 e 1950, ele afirmava que as ruas do bairro e os times de bairro eram os maiores formadores de jogadores de futebol, processo parecido ao qual encontramos no Brasil em um período posterior.

Os “futuros jogadores” tinham à disposição ruas sem trânsito e terrenos baldios facilmente adaptados numa quadra de futebol. Além dessa disponibilidade do território, o mais importante era ter tempo livre para brincar. As crianças das décadas de 1910 até 1960 tinham tempo livre após a escola, o que permitia a prática do esporte durante 3 horas por dia em média, tal era o prazer que a atividade lúdica proporcionava.

Sem contar que outros elementos como a TV-computador, celular e vídeo games estavam atrelados à ficção científica – que não era um equipamento comum nos lares dos trabalhadores, de onde provém a grande maioria dos jogadores, não disputavam tempo com o futebol. Estas horas de brincadeiras em terrenos irregulares cheios de obstáculos, com bolas de borracha ou trapo e normalmente com roupa e calçados inadequados para a prática de esportes, dotavam às crianças de um vasto domínio da bola, técnico e dos fundamentos. Cabe ressaltar que as habilidades desenvolvidas eram fruto de uma atividade lúdica sem maiores obrigações que a de se divertir e brincar, aguçando a criatividade.

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Por se tratar de uma atividade auto-regulamentada, os mais velhos (estavam no comando) ensinavam aos mais novos as regras, os posicionamentos, como passar, driblar e chutar, as malandragens, e o mais importante, o respeito e a lealdade (já que uma queda no asfalto devido a uma falta desleal seria o fim do jogo). Mesmo se houvessem? Somente poucos jogadores para uma partida desenvolviam outras atividades que auxiliavam de forma imperceptível a adquirir a técnica e o domínio da bola. Entre estas atividades contamos: torneio de embaixadas, bobinho e linha de passe entre outras, aonde a associação da criatividade com o futebol se dava de forma lúdica.

Quando adolescentes, abandonavam o futebol de rua – a Polícia era intransigente com o jogo de bola na rua, mais ainda se tratando de “marmanjos”- iam jogar no time do bairro, portando uma bagagem de vários anos, brincando várias horas por dia, com domínio da bola e dos fundamentos. Sempre eram dirigidos por técnicos amadores, na sua grande maioria ex-atletas, que exerciam a atividade sem fins de lucro material; normalmente o prestigio e a tradição do bairro de ter o melhor time era o mais importante. O próximo passo dos que se destacavam nos torneios entre bairros era a indicação para um clube profissional, aonde chegava com um knowhow consistente, requerendo só uma lapidação.

Sem saudosismo, e simnovas tecnologias no esporte 4 fazendo uma analogia entre o processo relatado e a realidade da formação contemporânea, numa tentativa de encontrar quais as mudanças e seu grau de interferência no processo atual, que justifique a queda na geração de craques apesar dos avanços tecnológicos. Hoje, as crianças não dispõem de ruas tranquilas, nem de terrenos vazios; mas têm à disposição material esportivo de última geração, quadra de grama sintética, juiz, iluminação e vestiário nas escolinhas de futebol. Normalmente as crianças frequentam 2 aulas de 1 hora por semana.

O interesse é pura e exclusivamente material, onde a criança paga para correr atrás da bola durante 1 hora duas vezes por semana, brincando de “profissional”, onde o aprendizado deixa de lado o espirito lúdico e se torna quase uma obrigação. Alguns times de futebol profissional como o Flamengo tem uma “escolinha de futebol”; melhor dito, o clube tem franquias da escolinha pelo Brasil afora. A sua administração, por exemplo, é comandada por uma empresa terceirizada – Time Forte Marketing Esportivo – especializada em escolas de futebol desde 1994.

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Consta no site escolinhafla.com.br, que a franquia abarca 150 unidades em vários Estados e mais de 9.000 alunos em todo Brasil, o que lhe confere o status de “maior rede de escolas de futebol do Brasil”. Segundo o mesmo site, os alunos são submetidos a uma bateria de testes (ferramentas científicas) com o propósito de otimizar o controle e prescrição do treinamento, complementando a avaliação através da observação do “potencial genético” e qualidades físicas exigidas para a prática do esporte, aumentando inclusive as possibilidades de inclusão social. O site, no entanto, não revela o número de alunos que tenham sido aproveitados nas divisões de base do clube, nem o número de gratuidades de alunos com bolsa.

O próximo passo destes adolescentes “formados” nas escolinhas, são as divisões de base dos clubes profissionais, que há muito tempo deixaram de ser celeiros de craques para se tornarem celeiros de lucro. Observamos que muitos jogadores da base e até profissionais, além de desconhecer as regras do jogo são carentes de fundamentos – erram passes, não tem a mínima noção de posicionamento espacial e nem conseguem levantar a cabeça para ter uma melhor leitura do momento do jogo. Enfim, a única conclusão que chego perante este cenário é que criatividade, conhecimento empírico e técnica refinada não são certamente frutos de nenhuma nova tecnologia, mas fruto da prática constante, e, o mais importante, tudo desenvolvido num ambiente lúdico.

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