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Hierarquia e impessoalidade no futebol brasileiro

Nunca deixo de me surpreender com a capacidade que o futebol tem de produzir textos culturais antagônicos. Praticamente ao mesmo tempo em que o Atlético/MG conquistava a Copa do Brasil e o Cruzeiro se sagrava bicampeão consecutivo do Brasileirão, Eurico Miranda era novamente eleito para três anos de mandato como presidente do Vasco. Se o feito da dupla mineira foi narrado pela mídia como o triunfo da boa governança e da eficiente gestão, a eleição de Eurico causou certa estranheza pelo retrocesso que representa, não apenas para o Vasco, mas para o futebol brasileiro.

Remetendo ao título desse post, faço referência às reflexões de Roberto DaMatta (contidas principalmente no livro Carnavais, Malandros e Heróis), que classificava o Brasil como um país dividido entre códigos pessoais e impessoais. A esfera da pessoalidade se manifestaria em atitudes como o “você sabe com quem está falando” (recentemente atualizado no notório caso da querela entre o juiz e a agente da lei seca), o famoso “jeitinho brasileiro” e as hierarquias sociais ainda vigentes. Por outro lado, a impessoalidade nos remete ao “todos são iguais perante à lei”. Enquanto a pessoalidade traduz resquícios de uma sociedade tradicional, a impessoalidade seria um imperativo das sociedades ditas modernas.

Em relação a Eurico, ficaram evidentes na representação midiática de seu último mandato seu caráter intransigente (por exemplo, o caso da expulsão de Roberto Dinamite das cadeiras sociais do clube) e o viés autoritário (censura ao trabalho da imprensa em São Januário, proibição dos jogadores de conceder entrevistas). Ademais, o Vasco ficou quase seis anos sem patrocinadores, o que colaborou para a formação de elencos de qualidade duvidosa e a conquista de apenas um título (o Estadual de 2003).

 

A despeito disso, é interessante como Eurico pode representar tanto a modernidade (impessoalidade) quanto à tradição (pessoalidade). Como vice-presidente de futebol do clube nas décadas de 1980 e 1990, Eurico foi extremamente vitorioso, tanto pelos títulos no futebol quanto pelos investimentos em outros esportes (em especial, o basquete e o futsal), e soube capitalizar as conquistas para si – não à toa muitos torcedores esquecem que o presidente à época era Antônio Soares Calçada. Aliás, na década de 1980, Eurico perdeu por duas vezes consecutivas as eleições presidenciais para Calçada, fato este pouco lembrando pela mídia e pelos vascaínos. Essa oscilação entre um lado, digamos, modernizador e outro apegado às tradições parece se manifestar novamente em 2014. Ao mesmo tempo em que assume a presidência afirmando que equacionará as dívidas do Vasco e ampliará a capacidade do estádio de São Januário (promessa que vem desde sua última gestão), Eurico compra briga com o Fluminense e com o Consórcio Maracanã pela preservação da tradição do “lado vascaíno” no Estádio do Maracanã. Além disso, extingue o cargo de gerente de futebol – um dos símbolos da administração moderna do futebol –, ocupado até então por Rodrigo Caetano.

A influência política também é uma faceta da pessoalidade que cerca o dirigente vascaíno. Se ao final de seu último mandato, Eurico era execrado por personalidades vascaínas, dias após eleito, em 2014, ele já aparecia em foto com o presidente da CBF e a mesma instituição o parabenizava pela vitória. É igualmente notória a relação de amizade entre o novo mandatário do Vasco e o presidente da Federação de Futebol do Rio. No dia de sua posse, estavam presentes o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o Ministro do Esporte, Aldo Rebelo.

Essa tensão entre certa visão amadora (de amor ao clube, respeito às tradições, etc.) e uma vertente mais profissional, contudo, não é nova nem exclusiva da persona Eurico. A dualidade remonta, pelo menos, à década de 1920 no futebol brasileiro; nessa época, as ligas amadoras e profissionais disputavam a hegemonia da prática futebolística. Quando da fundação do Clube dos 13, em 1987, a “crise do futebol brasileiro” também podia ser interpretada por essa ótica dicotômica – Ronaldo Helal documentou criticamente esse processo em sua tese de doutorado, posteriormente publicada no livro Passes e Impasses.

Não desejo aqui imputar um julgamento de valor ao novo mandato de Eurico Miranda no Vasco, afinal ele foi eleito democraticamente pelos sócios-torcedores vascaínos, ainda que sob denúncias de “compra de votos”. O que busquei salientar foi a oscilação entre uma narrativa que prega a modernização do futebol brasileiro, que nos colocaria no mesmo patamar das ligas europeias, tanto em organização quanto em qualidade dos jogadores; e, por outro lado, nos mantemos apegados àqueles que exaltam um discurso da tradição e do saudosismo. O lema da campanha da chapa de Eurico não poderia ser diferente: “Volta, Vasco! Volta, Eurico!”. A pergunta que fica é: qual Eurico está voltando? Estará o Vasco apto a disputar o Brasileirão 2015 em “pé de igualdade” com os “clubes-modelo” que mencionei no início desse texto? A nós, amantes do futebol, nos resta apenas aguardar o desenrolar de mais uma edição do embate entre tradição e modernidade.

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2 comentários em “Hierarquia e impessoalidade no futebol brasileiro

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