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A tradição de exportar commodities e importar manufaturados está instalada no melhor futebol do mundo

Por Juan Silvera 

A indústria do entretenimento teve uma mudança  fantástica nos últimos 50 anos. A qualidade dos espetáculos e dos artistas apresentados,  se  observados por qualquer perspectiva, refletem essa evolução.

A tecnologia tem sido fundamental, criando instrumentos e ferramentas, mas o estudo de técnicas e a profissionalização dos atores em qualquer área foram fundamentais para esta evolução.

Para exemplificar, podemos citar  alguns fatos rapidamente percebidos: o som do cinema nacional de três décadas passadas e o calor insuportável dos antigos  ginásios fechados (Maracanãzinho, Mineirinho etc.).

O som e a acústica dos shows ao vivo de bandas de rock ou MPB  – se comparadas ao som do disco da mesma banda na época, ouvido em casa, deixavam muito a desejar,  sem falar no som dos desfiles das escolas de samba que influía até na harmonia da escola, muitas vezes prejudicando o andamento, atravessando o samba.

No futebol do Brasil, esta evolução só é sentida no que tange à parte da produção do espetáculo. Arenas de primeiro mundo, cadeiras confortáveis, praças de alimentação, telões de alta definição estrategicamente posicionados, interação online dos espectadores, enviando mensagens via celular  para os mesmos etc.

Os preços também são de primeiro mundo, tanto para o espetáculo como para os serviços prestados no interior das arenas.

Quem não se lembra da geral do Maraca, da venda de almofadas para sentar no concreto, das filas intermináveis para acesso aos sanitários normalmente encharcados após o primeiro tempo, muitas vezes sem torneiras… enfim, melhoramos e muito nesses termos.

Mas, o espetáculo em si, a arte que pagamos para assistir verdadeiramente não acompanhou a evolução do resto.

Hoje temos uniformes térmicos com tecidos sem costuras, chuteiras inteligentes que adaptam a altura das travas ao gramado, e que mais parecem uma luva, bolas (ou esferas perfeitas) fabricadas com tecnologia de ponta, com peso e pressão atmosférica pré-determinados,  gramados que absorvem a água mesmo com chuva durante o espetáculo.

O corpo de árbitros de uma partida consta de 6 ou 7 profissionais trabalhando em conjunto, intercomunicados via rádio, e os bandeirinhas alertam o juiz principal enviando a ele um sinal  vibratório no braço quando ela (a bandeirinha) é acionada ou levantada.

Apesar de toda essa parafernália tecnológica, os atores não têm acompanhado esse profissionalismo, pelo contrário.

Estes atores ou “boleros”, que deveriam brindar um espetáculo de 90 minutos, têm propiciado 52,45  minutos de bola rolando em média, segundo a estatística do último campeonato brasileiro[1], batendo recordes de passes errados e faltas. A FIFA recomenda um mínimo de 60 minutos para considerar um bom espetáculo.

Na análise desta estatística são vários os motivos deste tempo roubado do espectador, invariavelmente por causa da falta de comprometimento e profissionalismo dos atores diretamente envolvidos: jogadores e árbitros; devemos fazer justiça e esclarecer que os gandulas tem feito a reposição de bola com celeridade.

Os primeiros pela demora (cultural)  na reposição da bola, após uma interrupção  do jogo, por diversos motivos:  faltas (média de 58 por jogo), simulação de falta, reclamações ao árbitro, escanteios, laterais (nunca cobrados desde o lugar exato) ou tiros de meta demorados para serem executados.  Os segundos (os árbitros) porque permitem que isto aconteça, não aplicando o regulamento, desrespeitando as regras da FIFA.

Por exemplo, a regra diz que o tempo extra adicional deve corresponder ao tempo perdido em bola parada, o que vemos é uma padronização deste tempo: normalmente os árbitros dão de 1 a 2 minutos na primeira etapa, e de 3 a 4 minutos no segunda etapa. Isto para não prejudicar os tempos empenhados pelas emissoras de televisão na transmissão dos eventos.

Seria esperado de parte da CBF, que é a maior autoridade sobre o futebol no país,  cobrar da arbitragem uma postura profissional que iniba todas as transgressões às regras do esporte; e de parte dos clubes, uma orientação profissional desde as categorias de base, forjando profissionais à altura do espetáculo,  para atender ao consumidor  por aquilo que paga.

Em ultima instância: respeitar os espectadores. Já imaginou comparecer a um show   de um grande astro da música pop e o mesmo tocar a metade das músicas previstas porque errou a letra, mudou de guitarra, trocou um amplificador ou porque um microfone pifou ?

Somente  podemos comparar nosso espetáculo com os europeus, sob a ótica das arenas, da bola, dos uniformes  e dos preços. Os atores são outros… o tempo de bola rolando… o número de faltas… passes errados…número de espectadores pagantes…consequentemente a saúde financeira dos clubes.

Não é sem motivos que a gente exporta os atores (commodities), e eles exportam o espetáculo (manufatura)  e os “nossos atores exportados” em fim de carreira. Numa análise mais crua, os melhores atores são exportados e nós, consumidores, pagamos o mesmo preço por um espetáculo de segunda categoria mais uma taxa de pay-per-view, para ter acesso ao espetáculo deles, com nossos  atores.

[1] http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2014/07/em-90-jogos-ate-agora-brasileirao-so-tem-4-com-padrao-fifa-de-bola-rolando.html

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