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“Torcer” Parte II – A missão

Na postagem anterior , nosso comandante Ronaldo levantou uma questão que há tempos suscita diversos estudos e pesquisas no campo das Ciências Sociais por todo o mundo: O ato de apoiar a um clube esportivo ou atleta.

A   que se deve essa paixão por algo ou alguém cujo contato físico ou de proximidade muitas vezes é remoto ou impossível?

Nós, do Grupo de Comunicação e Esportes, não temos a pretensão de explicar esse tema, tampouco de trazer algo novo a tão debatido e controverso tema, porém apenas agregar nosso quinhão a essa acalorada discussão acadêmica que tantos frutos rende a todos (os próprios clubes e atletas, os jornalistas e seus veículos, os anunciantes etc etc etc).

Tenho certa aversão pelo verbo “torcer”. Não costumo usar esse termo a menos que se refira a tornozelos, roupas e afins, jamais aplicado ao apoio sentimental a algo. “torço pelo teu sucesso” ou “torçam por mim” (esta última podia ser de uma lavadeira às colegas, sobre as roupas molhadas no cesto). A origem desta distorção (sem trocadilhos) vem, como se sabe, das moçoilas à beira do campo, admirando a peleja dos varões e a (aí, sim, corretamente) “torcer seus lenços” em momentos de maior apelo, alegria ou angústia.

Deviam rever este termo. Uma grande oportunidade foi na última revisão da ortografia portuguesa, aquela que baniu o trema. Eu gostava tanto do trema! Como posso saber agora se o “u” de “lingüiça” é pronunciado ou não?!? Enfim…

No idioma nativo do football association, o inglês, o termo para esse tipo de apoio é “support” ou “cheer”. Nenhuma correlação com torcer, que é “twist” (por isso o vídeo acima, do twist mais famoso da história mundial), turn ou bend. Meu estrangeirismo se resume a inglês e um pouco de espanhol, então não sei como é o termo em francês (idioma que odeio), italiano, hindi, árabe, japonês, etc… Em espanhol sei que também não se aplica o malfadado verbo torcer… se diz “soy hincha de Boca Juniors”, “estoy alentando a El Real Madrid”. As “torcidas” se chamam “hinchadas”. Em Portugal já vi dizerem “sou adepto do Benfica”.

Deixando de lado a estranheza do verbo, e focando nas pesquisas acadêmicas, a maioria dos estudos, especialmente na área da psicologia, mira no sentido de pertencimento a um grupo, o que supera em muito os resultados esportivos de “vitória” ou “derrota”. Além disso distinguem uma forte correlação genético-familiar, com a tendência dos filhos seguirem a preferência esportiva de um dos pais (geralmente o pai). Em nossa capital, USA, existem fatores maiores por trás da paixão esportiva. Principalmente o fato das ligas universitárias serem muito fortes, e de haver basicamente uma única equipe de cada esporte nas grandes ligas (MLS, NFL, NHL, NBA, MLB) por cidade. Aqui em Pindorama ocorre justamente o inverso: inexiste o sentido de pertencimento a uma universidade ou a uma cidade, em termos esportivos. Também praticamente inexistem outros esportes com apelo, além do futebol.

Então, o sentido de pertencimento ao grupo é fator determinante, e todas as ações e classificações no tocante à esportes passa por esse filtro pessoal do apego a determinada afiliação esportiva. Isso é facilmente discernível. Chover no molhado.

A influência do público sobre o resultado esportivo foi alvo de uma das mais interessantes pesquisas acadêmicas a que tive acesso. Os autores estudaram a Bundesliga, liga de futebol profissional alemã, e concluíram que havia de fato uma correlação entre o mando de campo e os resultados atingidos pelas equipes. Neste e em outros estudos, constatou-se que os árbitros marcam mais penalidades a favor da equipe mandante, intimidados pela gritaria do público presente. Além disso, quando o resultado era desfavorável à equipe “da casa”, o tempo agregado era maior.

Um pesquisador, Dohmen, foi além e descobriu que os árbitros são mais influenciáveis em estádios em que o público fica mais próximo do gramado (os que não possuem pista de atletismo ou fosso). Aqui o primeiro estádio que me vêm à mente é “La Bombonera”. Uma pesquisa sobre os resultados do Boca Jrs em casa em partidas decisivas seria interessante.

Em ligas com maior histórico de violência também foi encontrado maior número de favorecimentos à equipe mandante.

Porque se gosta de um clube esportivo? Os resultados obtidos não determinam a paixão, ou o número de adeptos. O autor Mark Conrad estudou o clube Chicago Cubs, que não ganhou nada desde 1945, constatando que os adeptos continuam a apoiar o clube, a despeito dos pífios resultados. Algo parecido pode ser constatado com o Corinthians Paulista, entidade que ficou 23 anos sem ganhar títulos e continuou com um enorme número de seguidores (daí o nome de “fiel” corintiana). O mesmo ocorre com o Botafogo e com o alemão Schalke 04, que não conquista o campeonato nacional desde 1958 e tem uma legião de seguidores apaixonados.

Dann Wann e Robert Pssikoff, da Murray State University apontam como fatores fundamentais para a lealdade a uma entidade esportiva: Entertainment value, authenticity, fan bonding, team history and tradition, group affiliation, fairweather fans, die-harder fans.

Não traduzi pra que cada um tenha acesso aos termos usados pelos próprios autores.

O estudo de Passikoff revelou que, em 2000, o baseball era o esporte mais popular dos Estados Unidos, com a NBA (basquetebol) em segundo, depois a NFL (football) e NHL(hockey). Aqui em Pindorama os resultados seriam previsíveis: em primeiro a CBF, com 95% dos votos válidos, em segundo a CBV, com 2%, seguida pela FIA, Stock Car e outros.

Eu assisto a eventos esportivos há décadas, in loco ou mediado, e jamais, repito, jamais, nem uma única vez sequer, vi alguém “torcer” o que quer que seja, camisa, bandeira, lenço, etc.

Pra concluir… Uma vez XXXX, sempre XXXX… no Brasil o individuo muda de mulher, de casa, de carro, de país, só não muda de time. E parece que os clubes estão finalmente aprendendo a capitalizar esse poderoso ativo… o público fiel (não, torcedor, jamais!)

Torcida
Torcedor
Várias formas diferentes de torcer
Torcida enorme

Audrey J. Murrell, Beth Dietz. Sport Psychology Fan Support of Sport Teams: The Effect of a Common Group Identity.  JSEP Volume 14, Issue 1, March.

Anne Anders, John E. Walker.Is Home-Field Advantage Driven by the Fans? Evidence from Across the Ocean.Seton Hall University, 2014.

Mark Conrad (2006). “What Makes Sports a Unique Business?”. The Business of Sports: A Primer for Journalists.

Matthew D. Shank (2004). Sports Marketing: A Strategic Perspective

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Um comentário em ““Torcer” Parte II – A missão

  1. A Língua Portuguesa e seus vocábulos capciosos, muito boa a observação. As imagens relacionadas ao ‘torcer’ fazem referência exatamente ao que chamo de sofrível. Torcer é um vocábulo que pode trazer a noção de algo doloroso, que traz uma sensação de agonia, ansiedade. O friozinho na barriga é bom, adrenalina pura. Mas torcer tem que ser prazeroso, fidelidade não pode ser vista como enfadonha ou triste. Viva o público fiel!

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