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A cobertura da Copa do Mundo de 2014 em debate. Um passo para uma terceira realidade.

Como a maior parte dos leitores deste blog já sabe; no final de setembro, os integrantes do LEME organizaram um ótimo evento acadêmico para debater o legado da Copa de 2014, que contou com a presença de importantes pesquisadores brasileiros e estrangeiros, oficinas de jornalismo esportivo e um fórum com a discussão de trabalhos de jovens pesquisadores, lotando a sala da RAV no décimo andar da Faculdade de Comunicação da UERJ. Gostaria de primeiramente parabenizar os participantes e responsáveis pela iniciativa e agradecer o acolhedor ambiente do seminário.

Entretanto no presente post, farei outra abordagem mais opinativa sobre a mesa onde se reuniram experientes profissionais do jornalismo esportivo no país com a finalidade de debater a cobertura do torneio realizado no Brasil justamente pelo fato da mesma ter a finalidade de aproximar a Academia do que seria o mundo concreto, real, sensível imperfeito da luta cotidiana dos jornalistas em busca de audiência. Quem quiser ver ou rever um outro relato mais objetivo da mesa, este foi muito bem feito por Gabriel Py neste mesmo espaço.

Muitas vezes parece que temos de superar no “mundus academicus” uma espécie de romântico dualismo platônico em que os pesquisadores viveriam no mundo ideal, puro e inteligível para a maior parte dos cidadãos comuns e os jornalistas representariam simulacros, pálidas imperfeições dos valores ideais do esporte: ética, fair play e o mítico caráter lúdico que possivelmente nem existia nos jogos com bola da Idade Média e ainda mais em pleno século XXI.

Neste sentido, a mesa moderada pelo professor da UFJF Márcio Guerra, e composta por Sidney Garambone da Rede Globo de televisão, Marcelo Barreto do canal fechado SPORTV e Lúcio de Castro da ESPN Brasil, além da louvável presença feminina da responsável pelo acervo e documentação da Rádio GLOBO, Wanessa Canelas, proporcionaram um campo aberto para um intenso debate que pode ajudar a refletir nas possibilidades de interação entre o mundo das ideias universitárias e a realidade da pratica jornalística no esporte.

A apresentação de Garambone foi leve, descontraída, fugaz. A exibição de um vídeo claramente institucional ensejou uma espécie de discurso oficial que também é oportuno para o debate. Na minha opinião, o palestrante poderia ter sido mais veemente nos seus argumentos ou ter abordado questões políticas e econômicas das grandes corporações, visto que é um especialista em Relações Internacionais e tem grande experiência no assunto.

Como já tinha assistido a uma palestra muito interessante dele alguns anos atrás, acho que em um evento sobre Globalização no Museu Histórico Nacional, confesso que fiquei um pouco decepcionado, mas entendo que o tema e a proximidade do evento, bem como o “local da onde se fala” dificultaram sua exposição.

Todavia, reitero o fato de que o olhar oficial da empresa que é a majoritária no mercado midiático brasileiro obviamente precisa ser compreendido e estudado independentemente de questões ideológicas ou opiniões pessoais dos pesquisadores, além do que, as inovações tecnológicas da cobertura abordadas na apresentação, bem como as preocupações geradas com a forma de lidar com o tema no contexto político da realização do torneio também são relevantes no debate sobre a cobertura do evento.

Wanessa Canelas da Rádio Globo apresentou questões relativas à pesquisa e ao acervo da instituição, acionando a memória de antigos locutores esportivos de rádio e do “imortal” José Carlos Araújo, o Garotinho, a partir de um vídeo com importantes gols e narrações das conquistas brasileiras nos cinco mundiais. O ambiente na sala, muito bem decorada desde o início do Seminário com camisas retrô de grandes seleções da História do futebol mundial se transformou praticamente em uma arquibancada com sorrisos emocionados e expressões nostálgicas.

O terceiro convidado foi o carismático apresentador do SPORTV Marcelo Barreto. Sua exposição foi divertida e declaradamente improvisada. Ele falou das suas experiências na cobertura das Copas anteriores da Alemanha e África do Sul, apontou aspectos positivos e negativos de se trabalhar diretamente em um megaevento esportivo, relatou curiosidades e falou da sua emoção em trabalhar em um torneio no Brasil e ter a oportunidade de compartilhar este fato com seu filho que se não me falha a memória está com seis anos.

Foi uma apresentação cativante que anunciou a possibilidade de se encaminhar um debate mais específico sobre o tema, pois paralelamente aos seus casos particulares, o palestrante abordou o papel profissional do jornalista esportivo nesses megaeventos.

A última fala coube ao polêmico e contestador colega Lúcio de Castro. Conheço o Lúcio faz anos. Como ele próprio lembrou foi meu veterano no final do século passado no curso de História da UFRJ. Independentemente da nossa antiga amizade admiro sua franqueza, bem como a paixão que tem pela profissão e por trabalhar com reportagem investigativa. E Lúcio veio para a mesa como dinamite!

Primeiro afirmou de forma categórica que assim como a seleção foi humilhada pela Alemanha na semifinal disputada em Belo Horizonte, a cobertura da Copa pelas emissoras brasileiras também teria sofrido uma goleada moral durante o evento. Citou a omissão generalizada em todos os veículos da denúncia de falta de treinamento da Família Scolari, criticou a permanência na concentração de uma TV privada da CBF com cerca de 25 integrantes invadindo a privacidade dos jogadores durante o torneio, além da própria liberdade que o helicóptero de Luciano Huck teria para adentrar na concentração da seleção brasileira.

Seu segundo argumento retórico buscou desconstruir a famosa dicotomia entre o bem e o mal no jornalismo esportivo, não se utilizando da sua posição simbólica de integrante de uma emissora fechada considerada por muitos telespectadores mais crítica, para afirmar que o problema não é o local em que se trabalha, pois estamos diante de um jogo de grandes corporações, mas a atitude dos homens. Em todos os canais abertos e fechados, os interesses oriundos do processo de mercantilização do desporto serão uma realidade com a qual os jornalistas terão que lidar. Caberá a cada um buscar as brechas no sistema para tentar desenvolver um trabalho de melhor qualidade investigativa e de consciência política caso tenham realmente este desejo.

Para finalizar Lúcio bradou que o ponto principal nesta discussão é a questão dos direitos de transmissão sobre os megaeventos esportivos. As disputas de mercado, seja no exterior ou no Brasil passam pelo debate em cima da exclusividade ou não dos direitos de transmissão. Tanto na tv aberta, quanto na fechada este é o pomo da discórdia, o calcanhar de Aquiles das grandes corporações.  Subliminarmente entendi que a atitude dos homens deve ser para buscar democratizar esta questão independentemente do canal X, Y ou Z.

Com o final das palestras, o debate foi acalorado, os estudantes vibraram com as apresentações e intervenções, as respostas ampliaram a discussão e a impressão que fiquei, é que retornando a Platão, é necessário tanto para os jornalistas, quanto para os acadêmicos saírem da caverna para buscar encontrar a luz do conhecimento.

Aproximar os dois mundos hipotéticos platônicos pode ser o caminho para superar esta dualidade existente entre o discurso teórico acadêmico e a realidade factível dos jornalistas esportivos. A instigante mesa apresentada nas linhas acima foi um pequeno passo na direção de uma terceira realidade crítica possível. Será possível chegar ao “Demiurgo” midiático?

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