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Debates com jornalistas encerrou as mesas de debates do I Seminário Internacional do LEME

O tema da última mesa de debates do “Seminário Internacional – Copa do Mundo, Mídia e Identidades Nacionais” foi a cobertura das Copa do Mundo. O evento realizado na Faculdade de Comunicação Social da UERJ, foi organizado pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes e aconteceu entre os dias 24 e 26 de setembro. Debatendo a respeito nesta mesa, os jornalistas Sidney Garambone, Wanessa Canellas, Marcelo Barreto e Lúcio de Castro levantaram questões e propuseram reflexões de muito proveito acerca da temática. O responsável pela mediação foi Márcio Guerra, pesquisador e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Márcio iniciou a sequência de falas dos convidados descontraindo a todos ao citar a presença de alguns ouvintes vestidos com camisas de clubes pequenos do Rio de Janeiro, dizendo não ser todo dia que se vê tal situação e que com certeza as discussões já começariam com o pé direito.

Em seguida, guerra anunciou o primeiro a falar: Sidney Garambone, jornalista formado pela UFRJ e profissional da TV Globo. Sua apresentação inicia com a exposição de um vídeo institucional da Rede Globo – produzido pelo próprio e sua equipe – a respeito de todos os números que a emissora de televisão alcançou na Copa de 2014. O passo a passo da maior cobertura já realizada pela imprensa brasileira em um evento esportivo explicado por números bastante chamativos. Ao término do vídeo, Garambone lembrou da preocupação que era constante para ele e sua equipe, encontrada no perigo do exagero e saturação de pautas a respeito do assunto “Copa”, podendo levar o público ao desinteresse. Outra preocupação lembrada pelo editor foi com as manifestações das ruas, que deram a tônica nos dias de realização da Copa das Confederações do ano passado. Mas, ao contrário do que se pensava, tanto em relação à saturação de informações, quanto em relação a manifestações, os riscos acabaram por não acontecer.

Ao fim da fala de Garambone, Marcio Guerra passou a palavra a Wanessa Canellas, Doutora em Memória Social pela Unirio e, desde 2004, coordenadora da área de Documentação e Pesquisa do Sistema Globo de Rádio. A voz radialista do debate começou qualificando a cobertura, que começou há quatro anos atrás para ela e sua equipe, como “punk”. Os detalhes, a logistica, as planilhas, os acontecimentos que continuam a ocorrer paralelamente ao evento. Tudo isso, segundo ela, engrossa o caldo informativo do Brasil e do mundo, exigindo uma velocidade enorme das emissoras em repassar notícias quentes.

A missão de seu trabalho em recuperar arquivos antigos de transmissões clássicas do esporte é a de ser útil a todos os jornalistas de todas as mídias. Matérias especiais contrapondo momentos históricos das Copas com a que seria realizada no Brasil puderam ser fomentadas graças a disponibilidade dos arquivos resgatados.  O trabalho só foi possivel, lembrou Wanessa, graças ao investimento das Organizações Globo e aos avanços da tecnologia contemporânea, que acabaram por trazer de volta uma historicidade necessária para o futebol brasileiro.

– Todo material histórico precisa estar disponivel. Todo jornalista precisa deste anteparo. E só a Copa do Mundo pode proporcionar isto com os investimentos inerentes a ela. Com cerca de 90% dos acervos recuperados, a Rádio Globo tornou-se a principal fonte de pesquisa de materiais radiofônicos e de futebol. É uma conquista para a empresa, que fez o esforço para isto acontecer – disse Wanessa, enaltecendo todas as possibilidades oferecidas pelo trabalho realizado.

Márcio Guerra aproveitou o espaço que surgiu após o término da palavra da pesquisadora para fazer grandes elogios ao evento como um todo que estava sendo realizado. O gancho foi justamente a lembrança de Garambone e Wanessa a respeito do quanto uma organização é exigida quando um evento importante para ela é idealizado ou se aproxima. Os detalhes que às vezes passam despercebidos, segundo Guerra, são as grandes preocupações de uma equipe organizadora. Após isto, Marcelo Barreto foi chamado para trazer novas ideias à discussão.

O jornalista da Sportv, atualmente na função de âncora do programa SportvNews da noite, iniciou declarando toda sua admiração pelo evento em debate. A Copa do Mundo, para ele, não tem como correr o risco de ser “over” em nenhum momento. “Over são os quatro anos sem a Copa”, completou Marcelo, arrancando gargalhadas dos presentes. A competição é puro entretenimento e alegria. Diferente de quando se trata da cobertura da mesma. Esta vai além da emoção de estar na atmosfera proporcionada pelo maior evento do futebol mundial, para ele.  É preciso ter em mente que a essência do futebol fica mais clara durante a Copa do Mundo, e o imaginário de nação reunida em prol de uma paixão. Barreto frizou que talvez a maior inimiga e reguadora desta emoção seja a FIFA, guiando o futebol por um modelo empresarial.

O começo de uma cobertura da Copa geralmente é negativo, devido às informações que chegam até a redação. Se é uma obra atrasada ou uma quantidade de dinheiro público muito grande sendo gasto, as notícias são rapassadas pois se tratam das mais atuais e quentes. A negatividade faz parte de uma imprensa brasileira pouco arrojada, para Barreto. Mas ele acredita que esta talvez tenha sido uma boa oportunidade para a mesma imprensa aprender mais sobre a dinâmica do evento para as próximas edições. E levantando um ponto alto desta edição de 2014, marcelo lembrou da ocupação feita pelos torcedores latinos e da presença das respectivas seleções do continente na segunda fase do torneio. “Foi uma coleção de emoções e sentimentos”, finalizou o jornalista.

O microfone foi então levado às mãos de Lúcio de Castro, repórter investigativo e comentarista da ESPN Brasil, após a apresentação feita mais uma vez por Márcio Guerra. Lúcio propôs uma reflexão em tom parecido ao de Marcelo Barreto em relação à postura dos jornalistas e dos veículos de noticias brasileiros. Com uma critica mais direcionada e ácida, Lúcio lembrou da “bagunça cotidiana que eram os treinos da Seleção”. Para ele, a cobertura foi omissa e covarde ao não relatar casos estranhos que aconteciam nos treinamentos. A presença de tendas de patrocinadores, a agitação causada pelos mil jornalistas e a falta de treinamentos de fato, para Lúcio, foram os fatores predominantes para acontecer a “vexatória derrota para a Alemanha”. Ele considera uma derrota moral, traduzida na frase: “o 7 a 1 moral” sofrido pela imprensa esportiva e o futebol nacional. “Apenas depois da histórica derrota sofrida é que os jornalistas passaram a criticar e procurar respostas”.

O erro maior, para Lúcio, se concentrou naquele que é cometido no processo de treinamento brasileiro. A prepação dos jovens atletas precisaria ser reformulada drasticamente, juntamente com a postura da imprensa em relação ao assuntos vistos dentro e fora de campo. A explicação, exemplo do próprio, de que a culpa da derrota foi pela fraqueza psicológica do plante canarinho é algo terrível para o futebol, pois empobrece e dificulta ainda mais a localização da raiz dos problemas. O tema delicado também é considerado por Lúcio como algo contido dentro do tipo de jornalismo que se faz atualmente, que se estabelece numa dicotomia entre o comercial e o puramente informativo.

– É preciso resolver o grande drama que é encontrado nas amarras do sistema. E isto deve partir do próprio profissional, que tem o dever de investigar com mais afinco e autonomia as verdadeiras razões do que está dando errado. Mesmo que seu emprego seja posto em cheque, o mesmo jornalista tem de experimentar os limites existentes, delimitados pelos interesses financeiros da corporação na qual está inserido, e dos parceiros comerciais da mesma – afirmou veementemente.

Mais fotos podem ser conferidas na página oficial do LEME no Facebook.

Por Gabriel Py, graduando de Relações Públicas na UERJ e colaborador do site www.jogadaensaiada.com.br

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