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Ainda dá tempo! Vamos trocar figurinhas?

Sabemos que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil ainda vai render muito, inclusive postagens aqui em nosso blog. E no próximo mês, durante o Intercom – Congresso Nacional de Comunicação, no Grupo de Trabalho de Comunicação e Esportes, apresentarei um artigo com a temática da troca de figurinhas do álbum da Copa do Mundo e toda a mobilização dos colecionadores.

foto1Coincidentemente, no último domingo, 10/08, um familiar pediu que eu fosse trocar figurinhas na banca de jornal perto de casa, em São Gonçalo – RJ, para um álbum ainda não completo. A surpresa foi encontrar um pequeno grupo ainda reunido na busca pela conclusão do livro, semanas após o encerramento da Copa do Mundo no Brasil. Curioso ainda é que nem o pesadelo da partida entre Brasil e Alemanha desanimou pais e crianças na missão “trocar figurinhas”. E eu consegui os cromos que estavam faltando.

As figurinhas da Copa do Mundo foram confeccionadas na fábrica da Panini, em São Paulo. O álbum conta com 639 figurinhas entre jogadores das 32 seleções presentes no Mundial, fotos das equipes, escudos, bandeiras e estádios. Algumas dessas figurinhas são brilhantes, consideradas mais valiosas pelos colecionadores. O álbum também foi lançado em mais de 110 países. A Panini não informa a tiragem ou faturamento do álbum, mas já divulgou que os investimentos foram superiores a R$ 2,5 milhões, com previsão de reimpressão do livro.

Dessa forma, aqui apresento pontos do trabalho realizado a partir da “febre” nacional que se tornou a coleção do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2014, já que o tema ainda é atual. Com a pesquisa, na observação de vários grupos de troca localizados no Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Vitória /ES e São Paulo foi possível identificar que essa foi mais uma das formas de mobilização realizada a partir da Copa do Mundo no Brasil. Cabe ressaltar que até mesmo nas reuniões do nosso grupo de pesquisa ocorria a troca de figurinhas.

A Copa do Mundo representa para os brasileiros o evento que mais concentra pessoas com o mesmo objetivo, ressaltando o sentido de “comunidade reunida” (GASTALDO, 2002). Isso foi notado em todo o país durante o torneio.  E colecionar álbuns de figurinhas da Copa é tradição no Brasil. Edições das Copas de 1950 e de 1970 podem ser adquiridas em sebos, com valores variando entre R$ 5 e R$ 17 mil. A edição completa do álbum de 2014 também estava disponível para compra, no valor de R$ 300 (Revista O Globo de Domingo – 25/05/2014 – Jornal O Globo), porém a importância em colecionar o livro ilustrado também está em abrir os pacotes e juntar cromos.

Nesse sentindo, a reunião de pessoas para trocar figurinhas também representa o sentido de comunidade reunida, quando as relações interpessoais são fortalecidas em um grupo com interesse comum como observado nesses encontros. Ao contrário de gastar R$ 1 por um pacote com cinco figurinhas, os colecionadores entravam em acordo nos grupos que se reuniam em bancas, esquinas, colégios e shoppings para a troca. E essa não era apenas uma brincadeira ou uma atividade de lazer. As pessoas levaram, e ainda levam, a confecção do álbum e a organização dos encontros a sério, com regras pré-estabelecidas para a troca e venda de figurinhas.

foto2Outro ponto de destaque foi a forte presença feminina. Eram meninas, adolescentes, mães, tias, irmãs e avós trocando figurinhas e palpitando sobre a Copa do Mundo. Curiosamente, o papel desempenhado pelas mulheres propiciou uma maior identificação, participação e desenvoltura para interagir com outras pessoas envolvidas na atividade. Em alguns dos locais visitados, como no Rio e em Niterói, foi possível identificar presença feminina superior a dos homens, principalmente se for considerada a faixa etária dos frequentadores.

Amplamente divulgado nas redes sociais e nos grupos visitados em São Gonçalo e em Niterói, durante a última semana da Copa do Mundo, foram as mobilizações de assistentes sociais e psicólogos em torno do álbum. Estes recolhiam exemplares de figurinhas repetidas entre os membros desses grupos para levar ao Ambulatório de Saúde Mental de Niterói, e serem utilizadas durante oficinas terapêuticas, visando trabalhar a socialização entre pacientes e sociedade. Também o jogador da seleção brasileira, Neymar, divulgou em sua página oficial na rede social Instagram ação semelhante ocorrida no Estado de São Paulo, esta inclusive apoiada pela Panini. Esta seria também uma alternativa de resignificação para o processo de troca de figurinhas.

Obviamente, o álbum de figurinhas foi mais uma das ações promocionais da Copa do Mundo no Brasil e sua principal temática, o futebol, por si só tem a característica de reunir classes e promover a concentração de pessoas, o que pode explicar a “febre” do livro ilustrado. Logo, não dá para negar que são muitas as possibilidades de estudo e pesquisa a partir do megaevento no Brasil. E esse olhar direcionado aos grupos reunidos para a troca de figurinhas, nos permite compreender as redes de sociabilidades formadas a partir da mobilização em prol do evento realizado no país, os afetos partilhados entre os frequentadores e o sentido de pertencimento a uma comunidade.

Que saudade da Copa do Mundo!

 

Referências:
GASTALDO, Édison. Pátria, Chuteiras e propaganda: o brasileiro na publicidade da Copa do Mundo. São Paulo: Annablume, 2002.
MAFFESOLI, M.Comunidade de Destino. Horizontes Antropológicos. Ano 12, N. 25. Alegre: 2006.
SENNET, Richard. Carne e Pedra. Tradução Marcos Reis. 3ª Ed. RJ: Record, 2003.
Panini: http://www.panini.com.br/

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