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Porque os brasileiros torcem pela Alemanha

Manhã do domingo antes da final da COPA. Estou um tanto irrequieto e procurando o que fazer para diminuir o tempo que falta. Há uma questão que me persegue: quais as razões para a maioria ou pelo menos 50% dos brasileiros torcerem a favor da Alemanha, time favorito na mídia? A qualificação de “maioria” ou de 50% não pretende ser estatisticamente válida. A questão continuaria válida com 40% pois, como é sabido, alemães e descendentes no Brasil, que naturalmente poderiam torcer por Alemanha, não fazem tal percentual.

A partir da goleada da Alemanha sobre o Brasil que provocou vergonha e humilhação, o esperado para uma lógica simples é que os brasileiros torceriam contra Alemanha. A complexidade brasileira não permite o exercício fácil da lógica. Este é um argumento que os brasileiros adoram esgrimir e os argentinos também e, talvez, a maioria das culturas quando se enfrentam com outra. Em definitivo, como alguma vez criticou Merton, os de dentro estão sempre com a razão e os de fora entendem pouco ou nada. Esta dialética entre os de dentro e os de fora deve ter seu fundamento no romantismo coletivista que impregna as ciências sociais. Mas, voltemos ao ponto.

A partir da goleada passei a perguntar sobre as razões que os brasileiros teríamos para torcer por Alemanha. Fui recolhendo tentativas de explicações que resumo de forma imperfeita.

1)      De fato os brasileiros não torcem a favor de Alemanha. Torcem a favor ou contra a Seleção Argentina. A rixa com a Argentina domina o “torcer por” Alemanha. Assim, hoje à tarde a seleção latina será a única a relacionar-se com a torcida. O homem cordial, fruto de amores e ódios, no caso do ódio, seria a base da conduta. Claramente esta hipótese deriva de uma aplicação popular de Sergio Buarque de Holanda.

2)      Os brasileiros torcem por Alemanha porque usaram cores, vermelho e preto, no jogo com o Brasil criando identidade com os torcedores flamenguistas e de outras equipes que usam as mesmas cores. Me recuso a aceitar esta explicação por duas razões: a) os brasileiros não podem ser tão tontos para  ser cooptados por um gesto banal de marketing; b) os anti vermelho e preto talvez sejam tão numerosos como os torcedores dessas cores. Se esta de fato for a explicação correta a sociologia do esporte pode fechar suas cátedras no Brasil e deixar apenas funcionando a de sociologia do humor.

3)      Os brasileiros que torcem pela Alemanha não têm a menor ideia do que seja solidariedade com os irmãos latino-americanos nem com os vizinhos. Não dão bola com o que é próximo e apenas se relacionam com distante. Disto pode decorrer a dificuldade do Brasil ocupar um lugar de liderança tanto na América do Sul quanto na América Latina.

4)      Há um tremendo pertencimento em comum: alemães e brasileiros adoram a cerveja e as mulheres brasileiras. Esta hipótese seria forte se os torcedores por Alemanha fossem proporcional e significativamente mais homens que mulheres (embora o gosto pela cerveja e pelas mulheres pareça ser crescente entre as brasileiras).

5)      Os brasileiros não são bons de cálculo, uma prova é a falha de seus orçamentos e cronogramas, como foi visto na preparação da Copa, e, então, não entendem que se Alemanha leva o Caneco Brasil terá um feroz dobermann e um mastim napolitano disposto a conquistar o quinto e igualar-se. Assim, se tornará difícil manter a vantagem no número de Copas ganhas.

6)      A tradição do futebol brasileiro foi construída a partir de seus heróis, isto é, de seus grandes jogadores. Em cada Copa ganha se destacam seus craques. Assim, Feola, diz a lenda, nem precisava treinar o time. E será que o técnico da maravilhosa seleção de 1970 era algo a mais que um companheiro? Desde Garrincha ao Ronaldo, passando pelo Rei Pelé, e tantos outros, são suas mágicas que explicam os êxitos. Perdendo de goleada para Alemanha se abandona a tradição em favor da racionalidade, da organização, da máquina, do treino e do treinador. Vejam, estávamos muito contentes com o modo brasileiro de fazer a infraestrutura da Copa, tão criticado por vozes internas e externas. A alegria parece que durou pouco, logo da derrota passamos a valorizar argumentos dos críticos contra a tradição. Até nossa Presidenta virou esperta em futebol e tem suas propostas de racionalização e planejamento (parece que não se trata, no principal, de trazer jogadores de fora, como no caso dos médicos cubanos, mas de não deixar sair, via estímulos suponho, aos que estão dentro).

7)      Uma explicação direta é popular diz que o brasileiro não gosta de perder em nada. Então, é melhor torcer por Alemanha já que o coro dos contentes afirma que é a seleção com maior probabilidade de levantar a Copa. O outro lado da moeda é a mania nacional de “torcer por”. Ou seja, se é obrigatório torcer a lógica seria sempre torcer por aquele que pode ganhar? Sabemos os males que poderia estar causando essa preferência pelo ganhar no campo da política, alguns já afirmaram que as pesquisas de opinião política deveriam ser proibidas porque definiriam o jogo em favor do candidato majoritário. E ninguém gosta de perder!

8)      Há uma hipótese técnica e empírica que gostaria de testar para o fracasso do Brasil. Ela diz: a seleção brasileira formada por jogadores que atuam no exterior tem uma dominância de atletas de banco que, por diferentes razões, não têm ritmo de jogo. O grande Carlos Alberto Torres, ontem, em programa partilhado por grandes craques, disse que devem jogar os que estão jogando melhor e não os que jogaram bem no passado ou poderiam chegar a jogar muito bem no futuro, suponho que depois de uma recuperação Scolari. O homem além de craque parece sensato em todas as medidas que sugeriu. O brasileiro poderia estar torcendo por Alemanha, pois pretende que na seleção, no convívio dos jogadores em campo e na gestão sejamos como a alemã? Diante desta escolha, se Alemanha perde para Argentina, como ficariam os argumentos? Não, Alemanha não pode perder e mais ainda deveria ganhar por goleada para servir aos interesses nacionais sobre o futebol, se for possível de 8 a 0.

 

PS. Dada a trajetória Argentina desde 1990 em Copas do Mundo a Argentina já ganhou muito indo para a final. Se por vontade dos deuses ganhar no Maraca, ganhará, pelo menos, 3 vezes.

Rio de Janeiro, 13 de julho 10:30.

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3 comentários em “Porque os brasileiros torcem pela Alemanha

  1. Torcer pela Alemanha foi a maior prova de estupidez que vi na vida!! O marketing alemão funcionou bem (não só com os flamenguistas!!).
    Agora, depois da partida, quando falei no whatsapp “Parabéns! Alemanha TETRACAMPEÃ! Rumo ao PENTA!! Bom chucrute pra vcs!!”, o pessoal ficou em silêncio.
    Ô gente teleguiada! Não pensa, só reproduz o que a Rede Globo manda!! Dios mio!!

  2. Hugo, meu querido amigo. Mais uma análise sua brilhante, contudo, penso que alguns aspectos psicológicos deixaram de ser abordados. Às vezes temos que reconhecer, o que nem sempre queremos enxergar, os argentinos provocam sempre uma ira nos brasileiros dizendo que Maradona é melhor do que Pelé, quando insistem em fazer comparações sem sentido porque para os argentinos tudo é: “el maior del mundo” ; “el mejor del mundo”. Assim, nunca senti que a Argentina procurasse uma aproximação com o Brasil, também, não observo que os argentinos sejam solidários com os seus vizinhos. Mas, hoje, os argentinos têm muito mais a comemorar do que os brasileiros, afinal, são vice-campeões do mundo e o Papa é argentino!!!!! Um grande abraço.
    Consuelo Jardon

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