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SOMOS TODOS MACACOS? NÃO, NÃO SOMOS: “eu já fui preto e sei o que é isso”

O acontecido com o jogador Daniel Alves pode parecer um tema já desgastado. Entretanto não me parecer correto pensar assim, pois essa atitude nada mais seria do que a repetição de uma típica postura de parte do Brasil em relação ao tema do racismo.

O Brasil às vezes nos passa a impressão de que é um país que não se vê como um local onde não existe racismo, o que gera como consequência uma ausência de debates a respeito dessa  questão e que faz pairar no ar uma certa atmosfera de hipocrisia quando se fala sobre esse assunto.

Em pesquisa realizada na USP (Universidade de São Paulo), em 2009, 97% dos entrevistados disseram não ter preconceito, entretanto 98% afirmaram conhecer pessoas que demonstram alguma forma de discriminação racial.

Sobre esse resultado Lilia Moritz Schwarcz, uma historiadora com importantes livros sobre o racismo no Brasil, afirmou que ele fazia o Brasil parecer uma ilha de democracia racial cercada de racismo. Afinal ninguém se assume como portador de preconceito racial, mas ao mesmo tempo afirma conhecer um grande quantitativo de gente que sofre desse tipo de discriminação.

Ao se considerar uma ilha de democracia racial, como foi dito, muitas vezes perde-se a oportunidade de reflexões críticas acerca de assunto tão caro a nossa sociedade. Essa ausência se fez refletir na entusiasmada recepção dada por grande parte da imprensa ao ato de Daniel Alves, no jogo do Barcelona.

Não é proposta desse breve escrito fazer algum tipo de juízo avaliativo sobre o ato de Daniel de comer a banana que lhe foi lançada. Afinal se trata de um ato realizado no calor da hora.

Mas cabe analisar a recepção dessa atitude, sobretudo no que diz respeito a imprensa de um modo geral e, especialmente da imprensa esportiva.

Sem nenhum tipo de reflexão, grande parte da imprensa celebrou o ato de Daniel Alves, aderindo apressadamente a campanha “somos todos macacos” iniciada pela foto postada por Neymar que ao lado de seu filho, comia uma banana.

Certamente que tal campanha ganhou contornos de marketing e rapidamente ganhou a adesão de artistas, assim como rapidamente se converteu em uma série de produtos como camisas, souvenires e tantos produtos derivados desse ato a princípio espontâneo de Neymar. Todo esse ciclo é típico da cultura contemporânea, altamente mercadorizada e espetacularizada.

Mas seria interessante refletirmos sobre essa tão imediata de adesão.

Há de lembrarmos que estamos na semana do dia 13 de maio, dia em que a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel. Também precisamos lembrar que estamos em 2014, ano de Copa e ano em que o clássico O negro no futebol de Mário Filho, completa 50 anos.

 

Eu já fui preto e sei o que é isso

Há um importante artigo com o título homônimo dessa frase acima citada. Trata-se do texto de autoria de Cesar Gordon Jr que faz uma análise do livro de Mário Filho.

“Eu já fui preto e sei o que é isso”, foi uma frase que segundo Mário Filho teria sido dita por Robson um jogador do Fluminense. Robson estava sendo levado de carro, junto com Orlando, por Benício Ferreira para o clube tricolor do Rio de Janeiro. De repente um casal de negros atravessou a rua sem olhar para os lados o que fez com que Benício fosse forçado a frear bruscamente. Irritado Benício gritou para o casal “seus pretos sujos imundos”. Orlando também irritado ameaçou reagir, quando o jogador Robson tentando acalmá-lo diz: “Não faz Orlando, eu já fui preto e sei o que é isso”.

Trata-se de uma frase que evidencia o preconceito em relação aos negros e especialmente aos negros que não tinham boas condições sociais. A frase  “eu já fui preto”, indicava que Robson já não se sentia como um indivíduo de cor, já que além de ser jogador de futebol, trabalhava na Imprensa Nacional e era dono de uma alfaiataria.

Devido a uma condição financeira favorável Robson havia “embranquecido”, deixando de se sentir preto.

Isso demonstra que  no Brasil o racismo vem anexado ao preconceito de ordem social, já que apenas minimizado quando o negro “embranquece” ao adquirir condições boas financeiras.

Sendo assim embora Daniel Alves e tantos outros jogadores como Balotelli sofram atos racistas o peso do preconceito recai sempre com mais força e com consequências mais sérias sobre aqueles que não desfrutam da atenção da mídia e muito menos das altas cifras que cercam o mundo daqueles atletas.

Por isso se faz necessário refletir sobre a frase “somos todos macacos”

 

Não, não somos todos macacos

A história pode ser veículo fundamental para que não sejamos seduzidos de maneira tão fácil pela cultura espetacularizada que nos cerca.

É preciso voltarmos no tempo e buscarmos de onde vem essa anexação do negro com o macaco.

É importante lembrarmos que ao aproximar o negro do macaco desejava-se antes de tudo demonstrar que o negro afastava-se dos critérios de humanidade. Em 1906 o pigmeu Ota Benga, por exemplo, foi exposto ao lado de macacos no jardim zoológico do Bronx, em Nova York.

ota

Portanto é bastante temeroso aceitarmos de modo tão fácil a ideia de “somos todos macacos” ou comermos uma banana achando que assim estamos protestando contra os atos racistas.

Em grande medida é fácil agir desse modo quando se tem todos os holofotes a seu favor ou quando se é branco. Não sem motivos no Brasil alguns astros da TV como Luciano Huck, Angélica e Claúdia Leite imediatamente foram fotografados comendo banana.

Mais interessante ainda foi ver o atual presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, abrir sua coletiva com a mesa cheia de bananas, uma das quais comeu. Esse mesmo Aidar que tentava mostrar sua solidariedade com o antiracismo, afirmou dias antes, em entrevista, que se pudesse traria o jogador Kaká novamente afinal ele tem a cara do clube já que “ É alfabetizado, tem todos os dentes na boca, bonito, fala bem…” declaração bastante preconceituosa.

Também chama a atenção alguns programas esportivos terem começado com seus jornalistas comendo banana.

É fácil comer banana,  porém difícil é uma discussão crítica séria que questione por exemplo porque quase não vemos jornalistas, comentaristas enfim formadores de opinião negros. Por que as mesas redondas no Brasil em sua ampla maioria são formadas por gente branca?

Não.

Não somos todos macacos.

Eu pelo menos não quero ser.

Não quero fortalecer uma analogia tão perniciosa a nossa história e que recai com toda sua força obre aqueles que são assim ofendidos no seu dia a dia, aqueles que não vimos – e que são a grande maioria dos casos e que humilhados muitas vezes se cala.

Não tenho nada contra as bananas e muito menos contra os macacos.

Mas somos humanos, tão humanos que nos cabe desconfiar de campanhas as quais se adere de modo tão fácil e irreflexivo.

Trata-se de um momento importante para pensarmos os limites das rápidas propagações da mídia digital que tem seu lado positivo, mas que precisam encontrar outras vozes que ofereçam canais de mediação.

E um desses canais poderia ser a imprensa esportiva.

 

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4 comentários em “SOMOS TODOS MACACOS? NÃO, NÃO SOMOS: “eu já fui preto e sei o que é isso”

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