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#fechadocomotinga

Por Tatiane Hilgemberg

1914. O jogador mestiço Carlos Alberto tinha de usar maquiagem para disfarçar sua cor. Durante uma partida do Campeonato Carioca o suor que lhe escorria do rosto revelou sua cor não branca, o rival não perdoou e lhe atribuiu o apelido de “Pó-de-Arroz”. O uso de maquiagem era necessário na época porque o futebol, esporte de elite, marginalizava atletas negros, mulatos e pobres.

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2014. O jogador do Cruzeiro, Tinga , é convocado pelo técnico e entra no segundo tempo da partida contra Huancayo, no Peru, em jogo válido pela Copa Libertadores da América. Quase 100 anos após o episódio do “Pó de Arroz”, Tinga não precisa esconder sua negritude. Mas cada vez que recebia e dominava a bola, uma sonora vaia formada por gritos que imitavam o som de macacos vinha das arquibancadas peruanas, cessando em seguida, assim que outro jogador pegava na bola.

São inúmeros os exemplos de racismo no futebol nos últimos 100 anos. O citado é apenas o mais recente. O que aconteceu com o Tinga, infelizmente, não é novidade para ninguém, essa não foi a primeira nem a última vez. Durante a semana ouvi e li muitos comentários sobre o caso, e o que mais me chama a atenção é que muitos demonstraram apoio ao jogador, muitos repudiaram e condenaram o ocorrido (entre eles o presidente do Peru, Ollanta Humala, e a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff), investigações foram exigidas, medidas solicitadas, mas o que foi feito de concreto, e principalmente, de diferente de todos os outros casos, NADA.

cbf

Algo precisa ser feito para que situações como essa não se repitam. E vamos ser francos e realistas, esperar que a Conmenbol, Fifa ou CBF tomem uma atitude, que vá além de liberar notas oficiais de repúdio, é uma ilusão.

No clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”, o jornalista e cronista esportivo Mario Filho, relata uma história que nos faz entrever uma nova e possível solução para diversas questões do futebol. Em 13 de Novembro de 1927, cinquenta mil pessoas se comprimiram nas arquibancadas e geral do estádio do Vasco para assistir o jogo entre o escrete carioca e o escrete paulista. Marcado um pênalti para o Rio de Janeiro o jogo sofreu uma paralisação. Presente no estádio, o presidente Washington Luís, que não entendia nada, mandou da tribuna que a partida prosseguisse. Feitiço, mulato, centroavante do Santos na época, conhecido por suas cabeçadas e gols de bico, não gostou da interferência e embora não fosse o capitão do escrete paulista, liderou a equipe em sua retirada de campo. Feitiço, que de acordo com Mario mal sabia rabiscar o nome na súmula, era o símbolo de uma nova postura do atleta negro, e mostrou que o Presidente Washington Luís mandava lá em cima – na tribuna de honra – cá em baixo – no campo – quem mandava era ele.

Feitiço
Jogador Feitiço

Quem sabe esteja faltando um pouco de Feitiço em Tinga e em tantos jogadores que sofrem com o racismo. Até mesmo me arrisco a dizer que falta um pouco de Feitiço em mim e em você caro leitor, para levantar o queixo, estufar o peito e sair da posição de letargia.

Agir é a palavra, ação dos jogadores, que deixem o campo no primeiro sussurro racista vindo das arquibancadas, ação minha e sua, espectadores de futebol, que exijam a saída dos seus times de coração de competições em que tais fatos ocorram. Mas é claro que existem razões comerciais e financeiras para permanecer na Libertadores, por exemplo, mas até quando o dinheiro vai sobrepujar o ser humano?

O próprio Tinga declarou que abriria mão de todos os títulos para vencer essa luta. Que tal começarmos a efetivamente agir contra a ignorância e o desrespeito?

 

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