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Razoabilidade permanente ou mais do mesmo

Nas últimas semanas, em meio a débil empolgação de muitos jornalistas e alguns acadêmicos com a proximidade da Copa do Mundo de 2014, duas notícias que vem sendo veiculadas nos meios de comunicação parecem alentadoras para os caminhos futuros do futebol e do desporto nacional.

            O próprio cronista/craque Afonsinho, ícone da luta dos direitos dos atletas profissionais, que ensejou importantes mudanças nas relações de trabalho e provocou o debate que levou a instituição da Lei n.6354/76 conhecida vulgarmente como “Lei do Passe” escreveu na sua coluna semanal da revista Carta Capital n.767 sobre a s possibilidades de transformações no esporte nacional. Em artigo intitulado “Mudanças no ar” o doutor da bola, da medicina, meu caro amigo, começa afirmando:

            “Bons ventos sopram nestes tempos pelos lados do esporte. Na superfície as pedras se movem, primeiro devagar, mas podem se deslocar e a montanha vir abaixo. Recebo com entusiasmo mais notícias de mudanças nas organizações esportivas no âmbito doméstico e mesmo pelo mundo. Ainda não são as transformações que necessitamos, mas uma lufada se espalha nesse momento”

 

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PELADA COM AFONSINHO NO CLUBE CFZ CONTRA EQUIPE AMADORA BIRIBA – RS. ACERVO PESSOAL (2008) 

   A primeira novidade está no âmbito jurídico e diz respeito a M.P 620 que foi aprovada pelo Senado Federal, e espera a sanção da presidenta Dilma Roussef. Apesar de não ter lido ainda a letra da lei, as medidas que estão sendo divulgadas pela imprensa parecem fundamentais para a modernização e principalmente para uma possível moralização da gestão administrativa dos clubes e federações do país. Limitar o período de gestão dos dirigentes é fundamental para coibir a perpetuação no poder quase que vitalício de figuras como Ricardo Teixeira, Coaracy Nunes Filho, Nuzman, Ary Graça entre outros monarcas do desporto. Com a participação de referências esportivas em várias modalidades como Guga, Ana Mozer, Raí, a medida foi muito bem recebida pela opinião pública. Mais informações ver http://www.espn.com.br/noticia/356552_apoiada-por-atletas-medida-provisoria-que-limita-mandato-de-dirigentes-esportivos-e-aprovada-no-senado

 Porém o combate aos reis absolutistas do desporto nacional tem de ter a participação de todas as castas do terceiro estado: atletas, técnicos, jornalistas, torcedores, patrocinadores, etc, pois a parasitária nobreza dirigente decadente possui ainda muita força política e até mesmo jurídica, amparada constitucionalmente pela falaciosa autonomia irrestrita interpretada a partir do artigo 217, I da magna carta.

 Pelo fato das Federações e Confederações serem entidades com personalidade jurídica de Direito Privado, ilustres juristas como o mais novo Ministro do Supremo Luís Roberto Barroso, outrora patrono de causas da egrégia C.B.F entendem que ninguém pode tocar na instituição e seus dirigentes, mesmo com a comprovação de ilicitudes e má utilização do futebol brasileiro para interesses pessoais como foi apurado pelas CPI´s  da Nike e do Futebol no início do século XX e mais recentemente nos escândalos envolvendo Teixeira e seus comparsas.  

Nesta discussão jurídica, sempre defendi a corrente minoritária que prevê a possibilidade de fiscalização das Federações e Confederações pelo M.P.U (Ministério Público da União) em casos de abuso de autoridade devido ao desporto ser um patrimônio cultural do povo brasileiro e inclusive escrevi em 2004 uma monografia jurídica debatendo a questão.

A plausível intervenção do M.P.U através do exercício de direitos difusos em casos extremos não significa estatizar os clubes, federações e confederações, mas sim viabilizar que o desporto nacional seja um bem da coletividade e não um instrumento para o acúmulo de riquezas de determinados grupos de empresários.       

            A segunda brisa vem dos próprios campos sagrados. O movimento Bom Senso F.C. encabeçado por ícones do futebol nacional como o deputado/craque Romário, Alex, Juninho Pernambucano, Zé Roberto e referências como Paulo André, Rogério Ceni entre outros jogadores é emblemático de um momento de reflexão política que deve ser feito sobre as condições do futebol brasileiro. O trinômio profissionalização/mercantilização  e midiatização que afeta o esporte global tem de ser direcionado para   a valorização dos atletas e dos espectadores e não apenas para a reprodução gananciosa do lucro através da mais-valia sobre os primeiros e da extorsão dos torcedores/consumidores.

            As discussões sobre o calendário nacional, o horário dos jogos, o papel dos meios de comunicação e a pressão sobre a C.B.F são fundamentais para o futuro do futebol brasileiro e os protagonistas deste movimento merecem congratulações pela iniciativa e por mostrarem que o jogador de futebol também é um cidadão ou um “animal político” nos termos aristotélicos.

            Assim sendo, se o presente do desporto nacional é a realização de megaeventos esportivos superfaturados organizados por dirigentes oligarcas, o futuro pode ser muito mais promissor com uma participação efetiva dos atletas e com uma rotatividade democráticas nos clubes, federações e confederações desportivas.

            Espero que o bom senso de jogadores, legisladores e torcedores se transforme em razoabilidade permanente senão as brisas da esperança darão lugar a mais do mesmo. 

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