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O “velho” e o “novo”: construindo uma tradição

Creio que tenha sido o antropólogo Howard Becker que tenha dito, certa vez, que as mudanças sociais eram visíveis e evidentes, mas que o que o interessava era justamente o que não se modificava em meio a tantas modificações. Gostaria de aplicar o mesmo raciocínio ao futebol. É fácil observar o quanto o futebol mudou, como ele foi sendo apropriado cada vez mais pela indústria do entretenimento e se transformando em um grande negócio. Jogadores de grandes times com contratos milionários, transferências com quantias cada vez maiores, propaganda nas camisas, nos estádios, nos clubes, jogos ao vivo na televisão, pay per view etc. Porém, é importante estarmos atentos ao que não mudou em meio a tantas transformações. O que permanece igual ou muito semelhante poderia estar revelando a “essência” do esporte. O tema vem à tona quando se discute o que restou do “velho” Maracanã no novo estádio construído para a Copa das Confederações e Copa do Mundo.

Antes da reforma ou mesmo da construção de um outro estádio com o mesmo nome (Maracanã ou oficialmente Estádio Mário Filho) no mesmo lugar, era comum escutarmos que o futebol de antigamente era melhor, que o jogador tinha “amor à camisa” e coisas do gênero. Ora, o livro de Mário Filho O negro no futebol brasileiro, já na primeira edição de 1947 abre com o capítulo “raízes do saudosismo” onde ele relata a nostalgia pela época amadora do esporte. O filme de Woody Allen “Meia Noite em Paris” também nos mostra como toda época é saudosa de um tempo anterior. Assim, tendo a crer que daqui a 20 anos escutaremos que o futebol mudou, que já não é mais o mesmo da época de Neymar, por exemplo. Ou seja, a paixão do torcedor pelo seu clube, o “eterno” mito do “amor à camisa”, as discussões sobre quem foi o melhor ou a melhor equipe, são aspectos que não mudaram e não mudam em meio a tantas transformações.

Quando em 1982, o então CND – Conselho Nacional de Desporto – um órgão criado durante o governo Getúlio Vargas nos anos 1940 e que ditava o que podia e não podia no nosso futebol, passou a permitir a propaganda nas camisas dos times de futebol, fui radicalmente contra. Inclusive, votei contra no Conselho deliberativo do Flamengo, onde era membro, por entender que a propaganda iria macular o “sagrado” e que de nada adiantaria a renda advinda daí. Anos depois percebi meu equívoco. O torcedor conseguiu sacralizar aquilo que seria profano por definição: o anúncio publicitário. O fato da camisa ser a oficial confere certa aura sagrada a mesma e assim ela é comprada cada vez que se troca o design e/ou patrocinador. A oficialização da camisa lhe confere o ar de sacralidade. Creio que tenha sido o sociólogo Émile Durkheim quem tenha chamado a atenção no livro As formas elementares da vida religiosa para esta capacidade da sociedade de sacralizar elementos mundanos, triviais e corriqueiros.

O Maracanã já tinha sido bastante modificado para os Jogos Pan-americanos de 2007. De qualquer forma, os torcedores foram aos poucos o “ressacralizando” e criando uma nova tradição em torno dele. No entanto, com a mudança radical do estádio para a Copa das Confederações, o debate se acirrou. Muitos lamentam a perda da “magia”, do “encantamento”, da “grandiosidade” do “velho” estádio. Eu mesmo estive recentemente lá, na partida entre Flamengo e Fluminense, e estranhei bastante. Achei o estádio muito bonito e confortável, mas fiquei nostálgico. Não tinha nada, a não ser o lugar de instalação, que me fizesse lembrar do “velho” Maracanã. Quantas saudades!

No entanto, creio que à medida em que formos tendo partidas memoráveis no estádio, como Flamengo 1 x 0 Cruzeiro pela Copa do Brasil, por exemplo, vamos gerar uma nova tradição para o Maracanã. Mesmo com a perda da antiga grandiosidade, aposto na capacidade de os torcedores inventarem uma nova história repleta de mitos e lendas em torno do estádio. Bastando para isso que partidas memoráveis aconteçam. E, claro, que os preços dos ingressos se tornem acessíveis aos torcedores tradicionais que sempre acompanharam seus times ao vivo no estádio.

Por isso, os clubes devem estar muito atentos na forma de contrato que irão firmar com a nova administração do estádio. Um dos segredos para um gerenciamento do futebol é justamente o de usar a razão para administrar a paixão. Um público com mais dinheiro, não é um público melhor; é tão somente um público com mais dinheiro. A delinquência não costuma escolher classe social. Deixar de fora do estádio um público acostumado a frequentá-lo e que ajudou a construir sua magia é não somente injusto, mas pouco inteligente. O congraçamento entre indivíduos de classes sociais distintas era uma das marcas positivas das arquibancadas. Mas isto já seria assunto para outro post.

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