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O “NOVO MARACANÔ – impressões

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No Brasil é comum que as opiniões se dividam entre a exaltação ou a condenação dos fenômenos.

Isso é perceptível no caso do Maracanã. Há de um lado os que exaltam a reforma do estádio e do outro os que a detestam.

Gostaria muito de redigir um texto que não caísse nas armadilhas do mundo polarizado e pudesse enxergar o fenômeno chamado “o novo Maracanã” com olhos atentos, mas que ao mesmo tempo conjugasse a perspectiva de alguém cuja relação com o Maracanã foi intensamente vivida e que muitas vezes ultrapassou a esfera futebolística.

Muito tem se falado do Maracanã e geralmente se tem dito que “o Maracanã não existe mais”, pois aquele estádio que recebeu Brasil X Inglaterra, domingo 02 de junho, é um outro estádio, absolutamente diferente daquele que há mais de dois anos estava fechado para o público

Embora tenha toda aparência de uma opinião radical, concordo que aquele Maracanã com o qual nos acostumamos, não existe mais. No lugar dele surgiu um outro estádio que pouco nos faz lembrar do Maracanã de outros tempos.

A frase “o Maracanã não existe mais” não deve ser compreendida como mero fruto de uma opinião romântica e saudosista incapaz de compreender a necessidade de mudanças e adequações ao tempo.

Essa expressão também se fundamenta no fato de que a reforma pela qual passou o estádio Mario Filho, foi bastante incisiva.

Não é a primeira reforma pela qual o Maracanã passou, mas certamente foi aquela que mais mexeu com suas estruturas, de tal forma que se tornou difícil dizer: estou no Maracanã.

Por fora o “novo Maracanã” ainda faz lembrar o antigo, mas somente por fora.

Dentro, o Maracanã é outro, absolutamente diferente do que já foi algum dia. E essa diferença pode provocar surpresas e sensações diversas.

Não ser mais o mesmo não é um problema em si. Muitas vezes é ótimo quando isso ocorre.

Mas no caso do “novo Maracanã”, é de se pensar sobre os significados de tantas mudanças, e suas implicações para nós torcedores.

DOMINGO EU VOU AO MARACANÃ….?

Tenho a impressão de que poderíamos chamar o Maracanã de um objeto aurático, no sentido próximo ao usado por Walter Benjamin. Mas essa aura levou tempo para ser construída, não nasceu com ele.

Se hoje debatemos os acertos e os erros de sua reforma, no final da década de 1940 debatia-se a necessidade de sua construção, o tamanho e sua localização.

De um lado estavam os favoráveis a construção de um estádio em Jacarepaguá e do outro, os favoráveis a construção de um monumental estádio no terreno do Derby Club, proposta que saiu vencedora e que contou com amplo apoio do jornalista Mário Filho:

DERBY CLUB Fonte: http://oriodeantigamente.blogspot.com.br/2011/01/derby-club.html
DERBY CLUB
Fonte: http://oriodeantigamente.blogspot.com.br/2011/01/derby-club.html

Em 20 de janeiro de 1948 a pedra fundamental do estádio foi lançada, mas somente em julho as obras de fato se iniciam:

Acima podemos ver os arquitetos Miguel Feldman e Antônio D. Carneiro diante da maquete do Maracanã, em 16/6/1949 foto - coleção de Branca Feldman (Fonte:http://www.polocriativo.com.br/blogcriativo/em-tempos-de-inauguracao-de-um-novo-maracana-vale-passear-pela-sua-antiga-arquitetura/)
Acima podemos ver os arquitetos Miguel Feldman e Antônio D. Carneiro diante da maquete do Maracanã, em 16/6/1949. Foto – coleção de Branca Feldman (Fonte:http://www.polocriativo.com.br/blogcriativo/em-tempos-de-inauguracao-de-um-novo-maracana-vale-passear-pela-sua-antiga-arquitetura/)

Certamente em torno do Maracanã foi depositada uma série de representações de cunho nacionalista, porque o Maracanã e sua grandiosidade foi um importante veículo de propaganda de um projeto modernizador do Brasil.

Esses aspectos sobre a construção do Maracanã são muito bem descritos e analisados no excelente livro O Rio corre para o Maracanã da Gisella de Araújo Moura.

É uma leitura deliciosa e praticamente obrigatória para quem gosta de futebol.

E para quem gosta de futebol, a história do Maracanã é fascinante. Absolutamente fascinante.

Trata-se de um estádio que sobreviveu a “tragédia de 1950” provocada pela derrota do Brasil para o Uruguai.

Essa derrota, inesperada, poderia ter estigmatizado o estádio e feito dele um monumento de mau agouro.

Mas o que vimos foi o Maracanã agigantar-se com o tempo e afirmar-se como um importante símbolo da cidade e dos torcedores.

Em 1969, o Maracanã recebeu 183.341 pagantes (imaginem os não pagantes) para assistir Brasil X Paraguai, em jogo válido pelas eliminatórias da Copa de 1970.

É o maior público oficial do estádio (em 1950, o público oficial foi de 173.850 pessoas, e 200 mil pela estimativa da época).

Um recorde que pelo menos no Brasil não será superado

Esse público dificilmente será ultrapassado porque ao longo dos anos o Maracanã diminuiu consideravelmente, até chegarmos a capacidade atual de 79 mil
pessoas.(http://www.maracanario2014.com.br/o-projeto/)

Em suas reformas, o Maracanã ganhou cadeiras, perdeu a geral, o que provocou estranhamentos e debates. Mas como já disse, nenhuma reforma foi tão transformadora – e cara – como esta última

Por isso, a música que tanto nos embalou nas tardes de domingo talvez tenha que se adaptar ou então ser mantida como um cântico de memória ou mesmo de protesto:

Domingo, eu vou ao Maracanã
Vou torcer pro time que sou fã,
Vou levar foguetes e bandeira
Não vai ser de brincadeira,
Ele vai ser campeão

Não quero cadeira numerada,
Vou ficar na arquibancada
Prá sentir mais emoção
Porque meu time bota pra ferver,
E o nome dele são vocês que vão dizer
Porque meu time bota pra ferver,
E o nome dele são vocês que vão dizer

(Ô, ô, ô )
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Só tem cadeira numerada. E agora?

O “novo Maracanã”

Quando entrei no setor das arquibancadas senti um misto de sentimentos: achei lindo o que vi, mas ao mesmo tempo fiquei abalada por não reconhecer o Maracanã:

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Seria falso afirmar que o estádio está feio. Está bonito e com aparência de “moderno”.
Me senti dentro daqueles estádios que costumamos ver pela TV.
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Mas daí derivou-se um problema: tenho a impressão de que o Maracanã tornou-se um estádio como outro qualquer que segue os padrões de modernidade exigidos pela FIFA.

Nada mais que isso.

Pelo menos por enquanto.

Com esses pensamentos na cabeça saí á procura do “meu” lugar.

O lugar era marcado – infelizmente porque particularmente detesto lugar marcado em estádio.

Como dá para perceber na foto abaixo, o ingresso é emitido com todas as indicações relativas à localização:
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Os telões tinham ótima resolução. Em alguns momentos eles são ligados e passam trechos do jogo. No intervalo esses telões passam anúncios de produtos que patrocinam o evento. Aliás nos intervalos toca-se música, faz-se brincadeiras com o público, pede-se que as pessoas levantem, sentem, etc. Tudo isso é razoavelmente irritante.

Comprar comida ou bebida durante o jogo foi uma tarefa muito difícil. Muitas filas, poucos vendedores nas arquibancadas e o pior de tudo: o preço

Embora não esteja indicado na placa, uma garrafa de água custava 4 reais. Preços abusivos são prática comum em aeroportos e estádios de futebol. No novo Maracanã não foi diferente:
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Torcida

O jogo entre Brasil X Inglaterra foi tomado como o grande teste do “novo Maracanã”.

Me recuso a concordar com esse pensamento a menos que estejamos falando de um teste restritamente relacionado a Copa das Confederações e a Copa do Mundo.

O tempo inteiro fiquei imaginando o que acontecerá quando o novo Maracanã receber os clássicos cariocas. Fiquei imaginando a disposição das torcidas e especialmente onde ficariam as chamadas organizadas.

Embora existam muitas vozes contrárias às organizadas não se deve menosprezar o papel por elas desempenhado na promoção do espetáculo das torcidas. Suas bandeiras, suas disputas simbólicas, suas músicas, ditam o ritmo dos estádios.

Onde esses torcedores ficarão?

Não sei dizer.

Certamente os torcedores encontrarão formas de se apropriar do estádio a seu modo. Pelo menos eu espero que isso ocorra. Embora grande parte da imprensa esteja festejando a possibilidade de estarmos seguindo o caminho da reformulação dos estádios ingleses, esquece-se dos perigos que cercam esse fenômeno.

Confesso, por exemplo, que fiquei muito preocupada com o que chamaria de “embranquecimento” da torcida, por mim percebida na composição do público do “novo Maracanã”. “Embranquecimento” próximo ao que se pode observar nos comerciais de TV ou em alguns shoppings e outros espaços de lazer elitizados do Rio de Janeiro.

Não é necessário dizer a íntima relação desse fenômeno com a histórica desigualdade social ainda existente no Brasil.

Se o velho Maracanã estava longe de corroborar com a hipótese de que o futebol é necessariamente um espaço democrático, o “novo Maracanã” fez questão de deixar esse aspecto mais do que evidente.

Felizmente pude ir ao jogo, mas sei de diversas pessoas que gostariam de ir mas não teriam as mesmas condições.

Por outro lado, se a média de preço cobrada no domingo se mantiver em outros jogos, serão raras as vezes em que voltarei ao novo Maracanã.

Entretanto por mais seleta que seja a torcida sempre há um espaço para “as figuras” de plantão. Encontrei alguns.

Enquanto a maioria dos torcedores ingleses ficaram juntinhos nas arquibancadas inferiores, um inglês resolveu ficar no meio da torcida brasileira. E ele fez questão de comemorar os dois gols da Inglaterra:
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Havia uma razoável quantidade de torcedores ingleses que fizeram barulho sobretudo cantando God save the Queen:
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Ingleses entusiasmados do lado de fora:
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E brasileiros que chamavam a atenção:
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Em torno do estádio a atmosfera era bacana:
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Andamos livremente por ruas em que cotidianamente passa apenas carro:

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O metrô foi um meio de transporte muito utilizado e não podia ser diferente, diversas ruas ao redor do Maracanã estavam fechadas para os carros, o que por sua vez facilitou imensamente a vida do torcedor no que diz respeito à circulação em torno do estádio.

Esse fechamento das ruas certamente contribui para que a entrada e saída do público tenha ocorrido sem maiores problemas.

Como será o amanhã ?

Disse que achava que o Maracanã era um objeto aurático. Disse e repito, mas somente no que diz respeito ao Maracanã.

O “novo Maracanã” por enquanto é um estádio como qualquer um desses que são denominados de modernos.

Não posso negar que há aspectos muito positivos na reformulação do estádio, o principal deles diz respeito à segurança. O escoamento do público melhorou imensamente, pois o número de saídas é maior, fazendo lembrar um pouco o sistema de escoamento do Engenhão, com amplas rampas.
Há de se convir que a saída do Maracanã era precária já que nos espremíamos pelo corredor até acessarmos a saída. Particularmente morria de medo de ser esmagada, de ocorrer algum tumulto, de ocorrer algum incêndio, etc. Seria fatal.

Com a reforma, a segurança na entrada e saída dos torcedores aumentou consideravelmente e caso haja algum incidente, creio que com rapidez poderá haver um escoamento da multidão.
Embora ainda com obras, o entorno do Maracanã, à primeira vista, ficará também mais amplo permitindo uma circulação mais segura e cômoda para os torcedores.

Entretanto, há de se lembrar que o Maracanã era tombado. E que muitas modificações foram realizadas para atender algumas exigências de um megaevento, exigências muitas vezes supervalorizadas e obedecidas de modo dócil e sem questionamentos maiores.

Sendo assim não me seduzo a exaltar o “novo Maracanã” e me permito lamentar a profunda transformação pela qual passou aquele Maracanã com o qual estávamos acostumados. Aquele Maracanã que na verdade oficialmente se chama Estádio Mário Filho.

A abertura do “novo Maracanã” evidenciou um projeto de estádio – ou arena como preferem – pouco convincente, já que calcado em um processo de reformulação do perfil dos frequentadores dos estádios, uma reformulação que pressupõe a exclusão de uma parcela significativa de torcedores.

Mas a verdade é que o “novo Maracanã” está sob o signo do “por enquanto”, já que não podemos prever seu futuro exato e até mesmo porque sua reforma ainda não está acabada:
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Por enquanto posso dizer que me sinto saudosa de grande parte de um Maracanã que se foi e carrego comigo a esperança, mas também o temor desse Maracanã que surge.
A relação muitos de nós com o “novo Maracanã” também ficará em obras durante algum tempo.

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